Há exatamente 50 anos, em 29 de novembro de 1963, uma multidão formada por estudantes e moradores de diversos bairros de Feira ocupou a Câmara para acompanhar a sessão que votaria o orçamento municipal para o ano seguinte.

Nesse dia histórico, aconteceu um “Quebra-quebra” na Câmara motivado pela insatisfação popular com a manobra política dos vereadores conservadores que levou à suspensão da sessão como forma de impedir a aprovação do orçamento elaborado nos bairros.

Como marca arrojada da gestão do então prefeito Francisco Pinto, eleito com o slogan “Chico Pinto na Prefeitura é o povo governando”, uma das rápidas iniciativas do Executivo Municipal foi organizar “sociedades de bairro” para discussão e decisão sobre o orçamento de Feira.

Dessa maneira, Chico Pinto buscou democratizar verdadeiramente a escolha das prioridades públicas no município – postura que deveria envergonhar a maioria dos atuais gestores que substituem a participação popular direta pelos conchavos de gabinete.

O episódio deveria interessar aos nossos atuais vereadores e vereadoras. Afinal, o acontecimento é revelador do que pode acontecer quando os mandatos são utilizados à revelia do interesse público e necessidades da maioria da população.

Mesmo sem fazer desta ocasião um balanço da atual legislatura, o que exigiria outro texto inteiro, é importante constatar que há um abismo entre Câmara e as suas obrigações com o povo de Feira.

Mesmo sem exigir um improvável compromisso revolucionário dos atuais vereadores e sabendo que a democracia representativa não dá conta das demandas sociais, espera-se que os representantes atuem adequadamente.

É sempre bom lembrar que dentro de cada momento de radicalização popular existem causas políticas e sociais: a revolta em 1963 foi, diretamente, fruto da postura de uma Câmara “de costas” para uma participação popular sem precedentes.

Se considerarmos a forma como a maioria dos vereadores fugiu das questões trazidas durante as recentes manifestações de junho, inclusive permitindo que a “Casa da Cidadania” fosse fechada com tapumes, esse “desencontro” continua.

 Jhonatas Monteiro