É bom desconfiar de quem sempre concorda com alguém. Por motivos óbvios: cada um possui experiências particulares e se relacionou com ideias e pessoas distintas durante sua trajetória, de modo que dificilmente terá a mesma visão das coisas que qualquer outro indivíduo.

Por isso desconfie de quem concorda sempre, cem por cento, com o que você diz, defende e idealiza. Há três possibilidades para esse comportamento. Medo, interesse ou manipulação. As três são quase a mesma coisa, com sutis diferenças.

O medo ocorre quando a discordância pode gerar castigo ou represália. O interesse se refere à concordância para manter um privilégio ou benefício. A manipulação ocorre quando alguém concorda apenas para alcançar resultados previamente estabelecidos.

Por isso a tendência geral de uma organização onde a discordância não é possível é caminhar para uma espécie de sultanato, onde cada um busca agregar-se a um “sultão”, concordando sempre com ele, fazendo-lhe favores e dando-lhe tratamento acrítico visando apenas manter a condição de súdito, ou, quem sabe, tornar-se um súdito um pouco mais  próximo e, por isso, beneficiado.

Quanto menos técnicos, profissionais, científicos e, antes de tudo, humanitários forem os pressupostos culturais de uma corporação policial, mais ela estará afundada nesse contexto de subserviência praticada por robôs defensores do “sim, senhor”.

As polícias precisam cultivar as discordâncias, valorizar a crítica, abrir-se ao contraditório.

Sem isso, patinaremos eternamente no solo escorregadio do conservadorismo, o que menos precisamos nesse tempo em que vivemos reclamando do atual estado de coisas.

Danillo Ferreira/ Abordagem Policial