LUCIANA GENROAlguns petistas têm classificado as posições do PSOL como oportunistas. Tenho enorme respeito pelos petistas honestos, inclusive sou filha de um deles.

Mas outros não têm sido honestos e nem respeitosos no debate e precisam fazer uma reflexão.

Oportunistas são os que dizem ser contra a corrupção, mas acham que se ela for feita pelo PT deve ser tolerada – pois, afinal, a corrupção do PSDB nunca foi investigada.

Eu lutei, aliás como petista, contra a corrupção do PSDB durante o governo FHC, e sigo lutando agora.

Também tenho lutado muito pelo amplo direito a defesa como advogada criminal, coisa que os acusados pobres não têm e nunca tiveram de fato.

A condução coercitiva do Lula foi desnecessária, autoritária e pode até ser entendida como ilegal. Isso, entretanto, não é novidade no Brasil.

Pessoas presas sem julgamento são 30% da massa carcerária do país. Lula não foi preso, e foi tratado com dignidade pelos policiais, coisa que não acontece com os acusados pobres.

O espetáculo midiático também é uma constante com os acusados pobres, é só assistir aos programas sensacionalistas para vermos os “bandidos” sendo expostos das formas mais vexatórias imagináveis. Então o problema não é só com o Lula.

O que ocorre é que as elites políticas e econômicas estão sendo vitimas, na operação Lava Jato, do mesmo tipo de sistema penal que a maioria do povo já conhece há tempos.

Eu luto contra isso, e não só para o Lula, mas para todos. Mas ser contra este tipo de tratamento aos acusados não significa defender o Lula.

O mais grave não está recebendo a atenção devida.

A principal revelação dos últimos dias é que, entre 2011 e 2014, R$ 20,7 milhões foram doados pelas mesmas empreiteiras envolvidas na corrupção da Petrobras para o Instituto Lula, além de mais R$ 10 milhões em pagamentos por palestras do ex-presidente.

Além disso, que é comprovado, há a suspeita de que ele recebeu presentes destas mesmas empresas, como a reforma no sítio, o armazenamento de seus pertences e talvez até um apartamento.

Se Lula cometeu ou não diretamente o crime de corrupção, ainda está por ser provado. Mas que ele transformou-se em agenciador dos interesses de empreiteiras corruptas não há a menor dúvida. Não há dúvida também que ele deve ser investigado.

O direito à ampla defesa de Lula deve ser garantido. E devemos criticar qualquer excesso, como devem ser criticados todos os excessos que são cometidos contra qualquer acusado.

Como diz a resolução divulgada pelo Movimento Esquerda Socialista¹, corrente do PSOL da qual faço parte:

Não há dúvidas sobre a parcialidade da grande mídia e da justiça a respeito dos processos de investigação. A espetacularização das denúncias dos aliados do governo, enquanto são abafados outros escândalos, é evidente, como demonstram a morosidade da justiça e a seletividade com que a imprensa aborda, por exemplo, o desvio de verba da merenda ou o bilionário ‘trensalão’, envolvendo dirigentes do governo do PSDB paulista.”

Mas o que seria de esperar desta mídia?

Que ela seguisse tratando bem o PT depois que este partido perdeu sua função principal para a burguesia?

Os governos Lula e Dilma foram tolerados porque tinham a capacidade de conter os movimentos sociais e aplicar os planos do capital, distribuindo as bordas do bolo mas deixando intacto o seu recheio, os lucros dos bancos e especuladores.

Isto não é mais assim, junho de 2013 e a crise econômica mudaram esta situação e, portanto, a burguesia prefere governar com seus filhos “legítimos”, como Aécio Neves.

Mas então é preciso perguntar por que o governo petista seguiu e segue alimentando a “mídia golpista” com fartas verbas publicitárias?

Estima-se que para a Globo foram mais de R$ 6 bilhões nestes 12 anos.

Por que, também, Lula se derramou em elogios à Globo e à Roberto Marinho quando do falecimento deste?

Por que não trabalharam para diminuir o poder destes meios de comunicação que são verdadeiros diários oficiais das elites?

Talvez pelo mesmo motivo que não trabalharam para desmantelar os esquemas de corrupção que já existiam no Petrobrás e em todas as esferas públicas.

Entraram no esquema, ao invés de tentar destruí-lo.

A adaptação do PT ao sistema não é algo novo, nem é criticada apenas pelo PSOL. Dentro do próprio PT há lideranças históricas que criticam os rumos do partido, como os dois ex-governadores do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra e Tarso Genro.

Infelizmente, há outros que preferem ignorar essa realidade.

Há em curso uma tentativa de desmoralização da esquerda. Mas quem abriu este flanco não foi o PSOL, que vem há 10 anos lutando contra a maré para construir uma alternativa de esquerda autêntica e coerente.

É resultado da política do próprio PT, que abandonou as bandeiras da esquerda, governou com o que tem de mais podre na política, usou os mesmos métodos que sempre combateu e se entregou para banqueiros e empreiteiras, que foram os que mais ganharam nestes 12 anos.

Não se enganem, os programas sociais representam 1% do que foi para os cofres dos bancos e empreiteiras, seja em juros da dívida pública, seja em obras superfaturadas.

O PT perdeu a chance de desmantelar este sistema corrupto, se moldou a ele, e agora as elites estão descartando o PT.

Por isso temos que construir uma alternativa, para que, se não agora, mas no futuro, seja possível uma esquerda autêntica governar o Brasil. E não será defendendo um líder sustentado pelas empreiteiras corruptas que vamos conseguir por de pé esta alternativa.

Luciana Genro (PSOL)