Feira de Santana não possui uma lei municipal, como em Salvador, que permite o comércio informal dentro dos coletivos. Isto, é claro, sem o vendedor pagar passagem. O que é algo lógico, já que, por buzão, os caras sequer tiram a passagem do próximo. E, em uma cidade que R$ 3,84 na passagem só vale a pena se você morar em Humildes, Viveiros ou se pegar o UEFS/Maria Quitéria, nem se fala.

Ainda assim, Feira tem personagens interessantes dentro dos ônibus. Não somente os motoristas, como o Galego da linha Dhama/FTC, que pergunta pra galera se querem a subida do viaduto da Getúlio com o Anel de Contorno “com emoção ou sem”. Não precisa ser inteligente pra saber o que a galera pede.

Os Manassés são os mais conhecidos dos buzãos. Não importa qual linha. Se você pegar um Brandão, eles estarão lá. Se pegar um Feira VII, eles estarão lá. Se pegar um Jardim Cruzeiro, eles estarão lá. E a chance de pegar três ônibus diferentes e se bater com os mesmos Manassés aumenta em 300% aos sábado. Eu até curto o trabalho social que a Manassés faz com recuperação de drogados e tal, mas isso de pedir passagem é foda. Nem sempre a galera tem. As canetinhas não são tão legais, as necessaire até são úteis, mas, sucesso mesmo, foram os hand spinner. Já não tinha o mínimo de utilidade, mas era melhor pagar R$ com os mana do que 40 no Feiraguay. Ainda assim, acho que esse trabalho de venda de brindes e reabilitação de entorpecentes tá rolando no lugar errado. Na Visconde do Rio Branco tem uma casa azul que é ideal pra isso.

Tinha um coroa, já deve até ter morrido, que sempre entrava no buzão. Ele dizia que tinha um problema no intestino, não sei, e sempre andava com um saco pendurado na barriga. O bang é que ele tinha uma tripa pra fora. Tipo uma super apendicite. Uma vez esse bicho entrou no buzu do Parque Lagoa e foi mostrar isso. Pra quê, bicho. Uma velha deu um grito, achando que o cara tava botando o balango-dango pra fora. A galera pôs ele pra fora.

Jorge era um cego. Ele vendia balas e subia com uma bengala no ônibus. O negócio não era ser cego nem vender bala. É que Jorge nunca errava o troco. Se você desse dois reais pra ele, Jorge sabia qual era a moeda de um real. Ele sabia fazer contas sentindo a textura das moedas. E não errava o troco. A capacidade de passar moedas de um ligeirinho e a ausência de visão, tudo numa só pessoa. Jorge era o mais próximo que Feira de Santana já teve de um X-Men.

Maurício é um negão de dread. Ele é estudante, vende umas pastilhas de hortelã. Boas que só a porra. O problema é que não dá pra botar muita fé no que Maurício fala. Já ouvi ele contando a mesma história três vezes, mas se passando em lugares diferentes. Ele é estudante, mas não sabe se veio de Ilhéus, Itabuna ou Vitória da Conquista. Não sei se ele é indeciso ou se é filho de tiquinho.

Mas o mais marcante é Francisco. Ele fica no Terminal Central vendendo jujuba. Você conhece ele, certamente. Ele já chega falando “boa noite minha queria, boa noite meu querido”. A jujuba é boa, um golpinho só. Nem sempre tenho moedas, mas ele me dá mesmo assim. E ainda fornece aqueles papéis fininhos de igreja, com textinho e tal. Além de adoçar a viagem, fortalece no material do origami. Francisco é o cara.

Alan de Sá é estudante de Jornalismo na FAT. O texto acima foi extraído do facebook