Às 8h o cheiro do cuscuz, do aipim manteiga e da carne do sol acebolada é um atrativo em “Nando Sorveteria e Lanches”, no Mercado de Arte Popular (MAP). É ele, Fernando Ribeiro, que vai ao fogão preparar os pratos do café oferecidos no cardápio. A clientela é cativa em todas as manhãs – numa rotina mantida de segunda-feira a sábado – mas, há também opções para lanches e almoço.

A maioria dos clientes é de vendedores ambulantes do Calçadão da Sales Barbosa, assim como há aqueles que trabalham no comércio ou que estão de passagem. Há 18 anos, Fernando mantém o espaço, mas sua relação com o MAP começou ainda na infância.
  • “Lembro que saia da escola e vinha direto para cá. Minha mãe nos acomodava no box e aqui mesmo nós fazíamos as lições”, recorda Fernando (foto), hoje aos 37 anos, referindo-se a dona Amélia Ribeiro dos Santos, uma das primeiras permissionárias. Dos cinco filhos da comerciante e artesã de 68 anos, quatro deles mantêm boxes no MAP – outro mora nos Estados Unidos.
  • “Sempre passei mais tempo aqui do que na minha casa”, diz Fernando orgulhoso ao afirmar que foi do trabalho no MAP que sua mãe criou os filhos, e assim como dona Amélia ele retira o seu sustento familiar. “Esse lugar é o amor da gente”, acrescenta.

Vida construída no MAP

Bem próximo à lanchonete de Fernando, sua irmã Suzane Ribeiro Santos (foto), 48, se dedica ao comércio de vestidos, calças para capoeiristas e jalecos para profissionais de saúde. Está neste ramo há 31 anos e lembra que a história profissional da família começou no Centro de Abastecimento, onde o pai, artesão já falecido, confeccionava bolsas em couro junto com dona Amélia.

“Nós crescemos vendo a dedicação dos nossos pais desde o ‘Artesanato Sete Flechas’, no Centro de Abastecimento. Eles se mudaram para o MAP, a gente sempre acompanhando o dia a dia deles, e daí foi brotando o gosto pelo ofício. Tornamos adultos e cada qual construiu uma vida estruturada dentro do MAP”.

Amélia: a costureira de “mão cheia”

Dona Amélia (foto) ainda está na ativa. Sentada atrás de um balcão de sandálias de couro, conta com orgulho e gratidão sobre uma história construída há 37 anos. Costureira de “mão cheia”, como são reconhecidas essas profissionais que se estacam no ramo, diz sem modéstia sobre as roupas de hippie e moda praia por ela confeccionadas. Recorda que da sua criatividade surgiram tecidos próprios, e “muito requisitados”, resultado da composição de estampas e cores.

“Aquela época mandava esses vestidos para Porto Seguro, Ilhéus e Itabuna, que estavam no auge entre os roteiros turísticos mais cobiçados no verão, e para comerciantes do Mercado Modelo, em Salvador, assim como mantinha a minha boa clientela no MAP”.

Ainda hoje, dona Amélia costura. A quantidade da produção já não é mais a mesma, mas “como a arte está no sangue” conta que tem se dedicado à pintura em telas e a confecção de bolsas em tecido. Suas produções estão expostas à venda no Box 62.

“Físico que gosta de cortar pano”

É assim que Hernane Ribeiro dos Santos (foto), 45, é carinhosamente intitulado por dona Amélia. Com formação em curso técnico em eletrotécnica e graduação em Física, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), o filho da artesã e proprietário da Heyla Roupas optou pela arte aos números.

Das suas ideias já surgiram vestidos de noiva a peças mais simples, como trajes para ciganos, kaftans e peças africanas, que ainda hoje são produzidos por ele e vendidos no MAP.

“Assim como meus irmãos, cresci vendo dois exemplos dentro de casa: meus pais. Eles foram nossos maiores incentivadores para arte e são responsáveis por essa história de amor que hoje nós temos pelo Mercado de Arte Popular”, afirma Hernane explicando que conciliava os estudos com a costura, cujas peças eram colocadas à venda no box da mãe.

Texto: Renata Leite/ Secom/PMFS
Fotos: Abnner Kaique