Uma das mais curiosas expressões satíricas da cultura popular é aquela que diz: “Berimbau não é gaita!”. Muitos da minha geração poderiam se perguntar o que isto queria dizer. Aproveito então o espaço das linhas de hoje para elucidar um pouco essa curiosidade do folclore satírico e, por que não dizer, musical da imaginação popular. 

Quando pensamos na palavra berimbau, a imagem que vem à nossa mente é do instrumento musical de uso típico dos brincadores de capoeira, o qual se constitui por um arco com uma cabaça anexada em sua extremidade inferior e que produz som a partir das leves pancadas de uma varinha na corda que une as extremidades do referido arco e sua cabaça em contato com a barriga do tocador. Entretanto, há controvérsias em torno do termo “berimbau”. 

Talvez o primeiro registro da expressão berimbau em terras brasileiras seja com referência ao pequeno instrumento tocando na boca e não ao arco musical. Acredita-se que sua primeira anotação tenha sido realizada por Fernão Cardin, quando registrou a animação liderada pelo padre Barnabé Telo e seu berimbau no século XVI. Tratava-se na verdade de um instrumento que produzia música tocando na boca e não na barriga, como no caso do arco musical. Assim, muitos dos registros, especialmente nas crônicas jornalísticas, se referem ao berimbau de boca (e não de barriga), como no caso da crônica “O berimbau do presidente”, a qual circulou no final do século XIX num periódico cearense: 

O berimbau do presidente

Conhece o leitor o que é um berimbau?

É esse pequeno instrumento que tanto attrahe os moleques e as creanças; Ao impulso de um sopro arranca-se-lhe um som fanhoso, alheio inteiramente as figuras da musica, que não conhece (Constituição, 14/11/1878,p.4).

Ao descrever o instrumento, o autor chama atenção que sua sonoridade se dá através do sopro, descartando, portanto, ser este o arco musical que tem como caixa sonora uma cabaça, anexada à extremidade inferior da verga que constitui o arco. Pois, o berimbau citado na crônica tem como caixa sonora a boca de seu tocador. Este tipo de referência aprece inúmeras vezes nas noticias e crônicas da imprensa periódica em diferentes partes do Brasil. 

Em 1890, por exemplo, o Correio Paulistano, órgão de imprensa da então província de São Paulo, publicou aos seus leitores:

“Berimbau não é gaita”

Espiem o futuro de uma discussão passada da literatura presente.

-Escreve um vate:

Era no outomno, Ella, a maculada virgem, fitando indecisamente o brilho negro de seu olhar azul no extremo da abobada infinita, exclama lacrimejante no intimo de sua nudez cadavérica:

-oh! Deus impassível! Se me vês tão calma no desespero da minha dor balsâmica, oh! Não te espantes, é que eu já não tenho lagrimas!

E por toda a parte a tristeza alarmante do silencio universal no inverno rigoroso. Um bardo Lê o vem a publico:

-oh! Vate enagro! Pois tu pretendes com isso provar que o berimbau é gaita!?

Es uma zebra

-tu é que és um animal!

– e tu uma besta!

-logo… (devolve o primeiro cheio de convicção e erudição literária) deus existe! (Correio Paulistano, 12/10/1890, p. 1.)

Assim como esta sátira, podem ser identificadas outras mais ao longo da imprensa brasileira entre o século XIX e o século XX. Sempre em tom satírico, tal expressão era utilizada para ironizar uma determinada situação, ao tempo que nos ajuda entender que este berimbau não apenas deixa de ser gaita como também não é o arco musical. Entretanto, este que era conhecido como o berimbau de boca, também era muito popular. 

A elucidação dessa confusão entre dois distintos instrumentos de termos parecidos pode ser resolvida pela esclarecedora explanação de Albano Marinho de Oliveira, em seu ensaio Berimbau, o arco musical da capoeira (1958). Segundo ele, era este um instrumento bastante conhecido nos países europeus por diferentes nomes, mas no Brasil é conhecido por “berimbau” e sua variante “berimbao”, corrupitela do termo francês “berimbele”.

Consiste em um pequeno instrumento que tem forma de ferradura. Suas extremidades, ao se fecharem, apertavam na ponta de uma lingueta de aço, a qual era soldada na parte que tinha forma de anel. Para executá-lo, o autor orienta que deve ser segurada com a mão esquerda, levando até a boca e prendendo com os lábios entreabertos e enquanto assoprasse o instrumento retiravam-se suas notas sonoras da pequena lâmina tocando com o polegar da mão direita.

O berimbau de boca – Este “berimbau” ou “berimbao”, de forma arredondada e uso bucal, de origem estrangeira, ganhou o gosto das camadas populares em grande parte do Brasil e passou a compor juntamente com outros instrumentos, inclusive de origem africana, as práticas sonoras chegando a incomodar aqueles segmentos sociais que acreditavam nas culturas europeias como elementos de civilidade, ao tempo que identificavam nestes instrumentos de domínio popular o odiado atraso cultural. Isto ficou bastante evidente em notícia circulada por um periódico do Rio de Janeiro no primeiro mês do ano de 1870:

Acaba de rolar a verdadeira luz para a cidade do Rio de Janeiro, esta terra de cegos em matéria de harmonias. Os concertos Patti vieram hastear o pavilhão do bello musical, em um paiz onde ate então se ouvia a marimba, o uruncungo e o berimbau!

Bem vinda seja a empreza de taes concertos a essas plagas desherdadas das sublimes inspirações de Euterpe (Jornal A Tarde, 22/01/1870, p. 2).

O texto ácido na nota, não esconde o quanto as culturas negras incomodavam na cidade do Rio de Janeiro oitocentista, as quais eram consideradas no conjunto uma pequena África na grande urbe brasileira.

Tratava-se de um Rio com predominante presença da música negra nas ruas, as quais ficavam repletas de instrumentos africanos e canções saudosistas das terras de além mar.

Por isto a preocupação do citado editorial com instrumentos como o urucungo e a marimba.

Por certo, o berimbau que ele se refere talvez seja o “berimbao” de boca, o qual mais se parecia com uma gaita do que com o arco musical. 

Mesmo afinado ao gosto popular, o berimbau de boca circulava também entre as classes mais abastadas, nos saraus de salões nobres e concertos em teatros municipais, ao tempo que o berimbau de barriga, o arco africano, era de uso restrito das comunidades mais simples constituídas por negros, crioulos e ou brancos pobres da sociedade brasileira.

Entretanto, o berimbau de boca ainda assim, não poderia ser confundido com uma gaita, instrumento que representava a cultura europeia.

Daí, o famoso adágio “berimbau não é gaita”, pois uma lacuna social afastaria um de outro, por mais que os aproximassem pelo menos na saga de uma polêmica sátira popular. 

Josivaldo Pires de Oliveira (Bel Pires) é doutor em História

ilustração: Gabriel Ferreira

Para saber mais:

OLIVEIRA, Josivaldo Pires de. O urucungo de Cassange: um ensaio sobre o arco musical no espaço Atlântico (Angola e Brasil). Itabuna:  Mondrongo, 2019.

 

Capoeirista e historiador Bel Pires é mais um colunista do Blog da Feira