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Tábuas da Lei ou Decálogo é o nome dado ao conjunto de leis que, segundo a Bíblia, foram escritas por Deus e entregues a Moisés, o libertador do povo de Israel. A sétima lei ou mandamento condena a ação de roubar – apropriar-se do que não é seu. O Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, prescreve o seguinte tratamento para quem rouba: Decepai-lhes a mão como castigo por tudo que tenham cometido; é um castigo que emana de Deus, porque é poderoso. Na China, país mais populoso do planeta, com muitos milhões de budistas, confucionistas, taoístas, o roubo, particularmente a corrupção, pode ser punida com a pena de morte.

O Código Penal Brasileiro faz uma distinção entre furtar e roubar. No primeiro caso, trata-se de subtrair para si ou para outrem coisas alheias. O segundo leva em conta como foi realizada a empreitada. É roubo se a subtração foi realizada com grave ameaça ou violência. As penas variam de um a dez anos de reclusão. Tramita no Congresso em Projeto de Lei proposto pelo Ministro da Justiça, Sérgio Moro, o aumento nas penas para casos de corrupção.

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Alô! Alô! É Maria?
– É Maria não. É Chico.
– Liguei errado. Merda! Três, três; nove, oito; cinco, sete; três, dois. Maria!
– Já falei porra! É Chico.
– Chico, que Chico? O aparelho está na sala em cima de uma mesa pequena?
– Junto de um vaso com flor murcha.
– O que você está fazendo aí? Chama Maria agora.
– Ela saiu faz dez minutos. Logo depois entrei.
– Você está sozinho dentro do meu apartamento? Quem é você sacana? Saia já daí.
– Assim que descobrir onde você guarda o dinheiro. Já abri o cofre, só tem merreca. Você pensa que sou otário? Seu filho guardava 51 pacotões roubados em malas, você deve ter pelo menos um pacotão por aqui. Não quero joias, só dinheiro vivo. Vou logo avisando! Não faça merda! Porque eu corto quadros, quebro porcelanas, jogo as joias lá embaixo na calçada, deixo documentos e escrituras na PF e toco fogo nesta bosta antes de sair. Entendeu velhaca? Tá sabendo? Adianta meu lado! Só tenho cinco minutos. Foi bom você ter ligado. Vai cortar trabalho. Família de safados. Vai, vai, adianta!
– No sanitário, perto do vaso, tem uma parede falsa. Lá dentro tem um pacotão e meio. Deixa o meio porque preciso pagar umas coisas.
– Negativo. Se vire! Vou levar tudo. Vou comprar uma casinha pros velhos, pagar a cirurgia de coração da menina que a porra do SUS marcou para o ano que vem e comprar um carro novo, preto. Vou trabalhar de UBER por enquanto. Fo__-se!
– Você também seu f. d. p!

Dou como certo que o(a) leitor(a) já tomou partido nesse diálogo entre ladra conivente e ladrão astucioso. É da natureza humana torcer – ainda que às vezes dissimuladamente – pelo lado mais fraco, principalmente quando a contenda tem laivos de vingança. Daí as histórias juvenis de Robin Hood, do Zorro, dos Vingadores, dos defensores de fracos e oprimidos. Normalmente esses heróis promovem a justiça no varejo enquanto que “Estados Revolucionários” totalitários o fazem no atacado. Em nome do povo eles expropriam, confiscam, distribuem, fazem e desfazem.

Finalmente, roubar é certo ou errado? Na ótica ou ética popular – vale o trocadilho – depende de quem e como. Não é sem propósito que se repete nas ruas, nos becos, nos mercados: Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Na sociologia das grandes cidades, sobretudo onde há desníveis socioeconômicos acentuados, pouco se lamenta ou condena o roubo de um banco. Os banqueiros, assim como os ciganos, são tidos como espertalhões, aproveitadores, gananciosos, quando se trata do vil metal. Aliás, os dicionários registram a palavra ciganice para caracterizar negócio escuso, trapaça. Há tempos caiu no interior do estado um avião que transportava cédulas. Estas desapareceram por encanto em poucos minutos. Desapareceram as cédulas e muitos moradores do povoado próximo ao local da queda. Quando ocorre um acidente com caminhão de carga nas rodovias, é muito comum moradores das adjacências e passantes aliviarem estrada e caminhão das mercadorias transportadas. Formigas humanas felizes carregam rapidamente cervejas, colchões, eletrodomésticos, cebolas e batatas, com o propósito de “desembaraçar o tráfego”.

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Em 2011, ocorreu um tsunami de altíssima intensidade na região de Tohoku no Japão que provocou acidente nuclear na central de Fukushima. A população, foi muito afetada, evacuada às pressas para outros locais. O portal de notícias G1 publicou em agosto do mesmo ano: O assunto é honestidade. Uma história que aconteceu no Japão. Os japoneses acharam o equivalente a R$ 125 milhões em dinheiro vivo na área atingida pelo tsunami. E sabe o que fizeram? Entregaram tudo para a polícia. E esse exemplo não foi dado por uma ou duas pessoas. Foram centenas, possivelmente milhares de cidadãos honestos, que encontraram esse dinheiro em 5,7 mil cofres de casas e empresas destruídas pelo tsunami. Só em um deles, havia R$ 1,5 milhão. Outros tinham barras de ouro. Outra parte do dinheiro – o equivalente a R$ 76 milhões – estava em carteiras perdidas na correria na hora de fugir ou pertenciam a pessoas arrastadas pela onda gigante.

A polícia não divulgou o número, mas imagine a quantidade de carteiras perdidas para dar o total de R$ 76 milhões. Tanto os cofres quanto as carteiras foram encontrados no meio dos escombros. Foi fácil para a polícia identificar os donos, já que o dinheiro vinha geralmente acompanhado de documentos, também perdidos. Difícil foi localizar essas pessoas, porque elas estão em abrigos ou na casa de parentes. Mesmo assim, a polícia japonesa já conseguiu devolver 96% do dinheiro para os legítimos proprietários ou para as famílias deles.

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Na França, quando bolsista de doutorado, conheci um autoexilado na Suécia que provocou confusão no metrô de Estocolmo ao comer o bilhete que havia falsificado e a catraca não aceitava. Uma velhinha atenciosa foi ajudá-lo. Por medo, ele engoliu a prova. A pobre idosa entrou em pânico e, ao relatar o episódio às autoridades, foi recolhida por paramédicos como demente. Quando narrava o caso, o sacripanta ria às escâncaras. O tempo passou e hoje, nós brasileiros, somos conhecidos como trapaceiros, mal-educados, seguidores fiéis da Lei de Gerson – o importante é tirar vantagem em tudo. Assim, quando temos que mostrar o passaporte a alguma autoridade internacional é quase confissão de culpa.

O advogado norte-americano Derek Bok (1930 –), ex-reitor da Universidade de Harvard, cunhou a seguinte frase: – Se você acha que a educação custa caro, tente a ignorância. Uma frase que deveria estar nas cabeças de todos nós brasileiros, pobres, ricos, remediados, pois falta de educação é nosso maior problema. Todos os outros são decorrências deste. O cidadão que não se educa pensa com dificuldade, pensa mal. Não sabe distinguir uma existência sustentável, duradoura, da vida de percalços permanentes; não difere soluções definitivas de remendos paliativos; rejeita caminhos árduos, mas construtivos, já comprovados, em favor de atalhos fáceis, imprevidentes. O empresário mal-educado não cultiva a ambição, porém a ganância. O operário, o trabalhador rude é normalmente desqualificado profissionalmente e pouco faz para reverter essa limitação. Crianças e jovens carentes de boa educação têm dificuldades para compreender o mundo à sua volta e mergulham em problemas de convivência social.

Infelizmente, entre nós brasileiros a boa educação não é – regra geral – prioridade das famílias, dos governos. O sistema educacional é concebido como faz de conta. Nele não se cobram resultados concretos, nem se pratica a meritocracia. Toda avaliação externa revela que a maioria de crianças, jovens e adultos brasileiros não sabe ler, compreender, calcular. Somos uma sociedade de deficientes cognitivos, assentada em desigualdade social vergonhosa, administrada por um aparelho de Estado que se apropria de 40% da riqueza gerada e retorna serviços públicos deploráveis. Corrupção, incompetência, descaso,não são as causas da pobreza, da miséria, são, ao contrário, efeitos. Uma sociedade educada não favorece o surgimento nem convive com Malufes, Lulas, Aécios, Dilmas, Sarneys, Temers, Palocis, Cabrais, Cunhas, Gilmares, Vampiro de Feira e tantos outros. Lista interminável. É necessário prender e punir corruptos sem se descuidar, entretanto, da solução definitiva: educar a população, formar a cidadania consciente, responsável.

Tenho agora a tarefa de colocar título na crônica que se finda. De tanto falar em ignorância, falta de formação, mediocridade, desonestidade, roubo, corrupção, ocorre-me um personagem que assoma, exaspera, encoleriza, enfurece o feirense honesto pela perfídia que é sua vida pública. Menciono, então, esse ícone do atraso, da desídia, sem deixar porém de fazer um alerta à população e cobrança às autoridades.

 

‘O Vampiro de Feira’, por Teomar Soledade