O saudoso Clovis Moura, notório sociólogo das relações raciais no Brasil, inquietou muitos leitores na década de 1990 com a ilustração de seu livro Dialética radical do Brasil Negro (1994), no qual trazia na capa uma gravura do século XIX retratando a captura e condução de alguns homens escravizados, possivelmente, fugitivos de cativeiro, atados uns aos outros.

Na capa do livro esta imagem combinava com outra que retratava a polícia brasileira em finais do século XX conduzindo homens negros, acusados de algum tipo de crime, assim como os do século XIX, também atados como animais uns aos outros.

A denúncia que fazia Clovis Moura era da perpetuação da tortura e violência racial após 100 anos da abolição da escravatura. 

Na época que tive contato com este livro, eu era um jovem negro, estudante de universidade pública e morador de um bairro da cidade de Feira de Santana (BA) que era acometido por violências contra jovens negros e pobres que não diferia muito do nível de espetacularização da condição humana experimentada no Brasil escravista.

Entretanto, acreditava que aquelas fossem cenas que eu não voltasse a apreciar, pois a sociedade deveria repudiar tais práticas, afinal de contas estávamos entrando no século XXI. Eu só não contava com a perpetuação de uma mentalidade senhorial, escravista e racista da sociedade brasileira que iria, com suas práticas, reproduzir comportamentos de violência dos tempos da escravidão, como aplicar chicotadas em jovens negros sob as sombras dos narizes dos proprietários de estabelecimentos comerciais em pleno século XXI.

Logo após o decreto que abolia a escravidão no Brasil, sancionado em 13 de maio de 1888, muitos ex-senhores continuaram com o sentimento de posse sobre homens e mulheres que a partir de então deveriam gozar dos seus direitos de cidadania, pois agora tinham uma nova condição jurídica: eram livres!

Entretanto, ao longo das décadas que sucederam a abolição, as populações negras encontraram todo tipo de obstáculo social para o exercício de sua liberdade, entre estes uma mentalidade racista que entendia os egressos da escravidão e, por conseguinte, seus descendentes como sujeitos inferiores na escala social, a qual alimentava uma estrutura de segregação e racismo que comprometia o acesso aos diferentes direitos sociais, a exemplo de emprego, educação, saúde e moradia, configurando assim um fenômeno de desigualdade ao qual denominamos de racismo estrutural.

É nessa sociedade que racializa a liberdade que assistimos à situações cotidianas as quais remetem aos mais hediondos comportamentos violentos que tinham lugar na sociedade escravagista do século XIX e que hoje acontecem na sombra de nossos narizes, entre as prateleiras e depósitos dos Supermercados da rua mais próxima.

Os exemplos destas violências são muitos e de variada natureza.

Entre os que mais inquietam a nossa sensibilidade e humanidade, registramos as torturas e punições ilegais contra jovens negros e pobres, como o que ocorreu recentemente na cidade de São Paulo, a qual no passado pertencia a uma das maiores províncias escravagistas do Sudeste brasileiro.

Acusado de ter roubado chocolates um adolescente negro e pobre foi recolhido por dois dos seguranças de um Supermercado da zona Sul de São Paulo e como punição ele foi amordaçado, torturado, humilhado e chicoteado várias vezes, castigo comum aos homens e mulheres escravizados que transgrediam a sua condição de cativo e propriedade jurídica de seus senhores na província paulista do tempo da escravidão.

Na situação em questão, não vejo outra associação ao ato criminoso dos seguranças se não a de Capitães do Mato e aos que aplaudem essas violências, os vejo como metáforas da perpetuação de ex-senhores de escravos ressentidos pela nova condição jurídica de suas ex-propriedades: homens e mulheres com direito a liberdade.

Nós, expectadores destas cenas horríveis, como já disse Aristides Lobo, no século XIX, assistimos tudo BESTIALIZADOS!

Bel Pires é mestre capoeirista e professor doutor em História