por Edmundo Carvalho*

Não faz muito tempo, um amigo, militante histórico do Movimento Negro, postou por aqui que precisamos de mais Obamas e menos Guevaras.

Semana passada, num grupo de discussão preta que eu participo, um homem negro postou algo como ” desculpa aí, feminista, mas eu ficarei do lado do homem negro, sempre!”.

No último 20 de Novembro, foi a vez de ver duas amigas negras jogando na rede a clássica ”Nem direita, nem esquerda. Sou Wakanda”.

A força do identitarismo chegou com tanta violência, que falar em luta de classes, marxismo e similares, equivale a xingar a mãe preta.

Sinto que venceu a capa da Revista Raça dos Anos 90, com um ideal cosmético de negritude, embalada no simulacro mercadológico da Identidade, como combinação assimilatória do que há de pior no multiculturalismo neoliberal com o antirrealismo mais agressivo da pós modernidade descentrada.

Por isso, tenho que perguntar a esse pessoal: já que estamos no auge das identidades lacrativas e no centro de um imaginário que privilegia o entendimento do Negro e da Negra como aliado-em si- mesmo: vocês vão dizer o que agora do cara que está na Fundação Palmares atacando Zumbi, dizendo que a escravidão foi até positiva e que não existe racismo no Brasil??

Quando eu disse aqui nesta rede, que na briga de Ciro Gomes com Fernando Holiday, cabia a nós pretos reafirmar que Fernando é sim, capitão do mato, teve gente me dizendo que jamais uma pessoa preta deve dizer isso de outro preto, ainda que na esfera privada.

Como teve gente saindo em defesa da senhora Valois quando suas lamentações salariais descabidas desaguaram numa polêmica em que, como sempre, o racismo não perdeu a chance de mostrar suas garras.

Se os movimentos sociais tivermos alguma decência, ocupamos a Palmares, expulsamos aquele Capitão do mato na base da porrada e restabelecemos, no mínimo, a memória de Zumbi, que é a nossa, afinal.

Do contrário, podemos continuar em nossos fóruns melancólicos, onde o empoderamento preto não admite debater a passagem de ônibus, um branco aliado só pode ser visto como “usurpador do lugar de fala” e a gente continua sendo tão identitarista que as nossas apresentações dizem mais sobre “eu-homem-negro-quilombola”, “eu-mulher-negra-bissexual-nãobinária” do que sobre as lutas que efetivamente traçamos.

De novo, Palmares está sitiada. E cabe a nós decidir se Domingos Jorge Velho vence mais uma vez.

*Edmundo Carvalho é professor