{"id":15906,"date":"2015-07-31T00:00:40","date_gmt":"2015-07-31T03:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/?p=15906"},"modified":"2015-07-31T10:59:23","modified_gmt":"2015-07-31T13:59:23","slug":"artista-plastico-diz-que-feira-de-santana-precisa-ser-mais-humanizada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/2015\/07\/31\/artista-plastico-diz-que-feira-de-santana-precisa-ser-mais-humanizada\/","title":{"rendered":"Artista pl\u00e1stico diz que Feira de Santana precisa ser mais &#8216;humanizada&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-large wp-image-15907\" src=\"http:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galenao-e-clarissa-macedo-1024x576.jpg\" alt=\"galenao e clarissa macedo\" width=\"688\" height=\"387\" srcset=\"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galenao-e-clarissa-macedo-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galenao-e-clarissa-macedo-170x96.jpg 170w, https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galenao-e-clarissa-macedo-346x195.jpg 346w, https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/galenao-e-clarissa-macedo.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 688px) 100vw, 688px\" \/><\/p>\n<div id=\"blogd-457399848\" class=\"blogd-fim-do-post-mobile blogd-entity-placement\" style=\"margin-left: auto;margin-right: auto;text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.sefaz.feiradesantana.ba.gov.br\/\" target=\"_blank\" aria-label=\"728&#215;90 (6)\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/728x90-6.gif\" alt=\"\"  class=\"no-lazyload\" width=\"728\" height=\"90\"  style=\"display: inline-block;\" \/><\/a><\/div><p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/isis.moraes.18?fref=ts\" target=\"_blank\">Por <strong>\u00cdsis Moraes<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O artista pl\u00e1stico feirense <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/jorge.galeano.5055?fref=ts\" target=\"_blank\">Jorge Galeano<\/a>\u00a0(na foto, com a poetisa<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/clarissa.macedo.7?fref=ts\" target=\"_blank\"> Clarissa Macedo no Beco da Energia, em Feira)<\/a>\u00a0nasceu na Argentina mas est\u00e1 radicado em Feira de Santana h\u00e1 cerca de 20 anos e aqui \u00a0construiu, nas cercanias do bairro Pampalona, o seu pequeno ref\u00fagio tropical, fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o de telas que chamam a aten\u00e7\u00e3o pela exuber\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Povoadas por personagens m\u00edticas e paisagens envolventes, pintadas quase sempre com cores quentes e vibrantes, as obras de Galeano ganharam destaque internacional.<\/p>\n<p>Em entrevista <strong><a href=\"http:\/\/revistasacada.com.br\/home\/\" target=\"_blank\">\u00e0 revista Sacada<\/a><\/strong>\u00a0\u00a0o artista, que h\u00e1 muito tamb\u00e9m trabalha com arte aplicada \u00e0 decora\u00e7\u00e3o, juntamente com renomados arquitetos que atuam na cidade, falou sobre o in\u00edcio da carreira, sobre a vinda ao Brasil, \u00a0e sobre Feira de Santana.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-15908\" src=\"http:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/revsita-346x260.jpg\" alt=\"revsita\" width=\"346\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/revsita-346x260.jpg 346w, https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/revsita-170x128.jpg 170w, https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2015\/07\/revsita.jpg 640w\" sizes=\"auto, (max-width: 346px) 100vw, 346px\" \/>Leia abaixo trechos da entrevista publicada na revista impressa e on line ou\u00a0<strong><a href=\"http:\/\/revistasacada.com.br\/home\/\" target=\"_blank\">clique aqui e leia na \u00edntegra:<\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong><a href=\"adicado%20em Feira de Santana h\u00e1 mais de 20 anos, o artista pl\u00e1stico argentino Jorge Galeano construiu aqui, nas cercanias do bairro Pampalona, o seu pequeno ref\u00fagio tropical, fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o de telas que chamam a aten\u00e7\u00e3o pela exuber\u00e2ncia.  Povoadas por personagens m\u00edticas e paisagens envolventes, pintadas quase sempre com cores quentes e vibrantes, as obras de Galeano ganharam destaque internacional. Em mar\u00e7o de 2014, convidado pela Secretaria de Cultura de Cuenca, o artista exp\u00f4s no Equador a s\u00e9rie Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico, em que voltou a trabalhar o tema do desmatamento e da destrui\u00e7\u00e3o da natureza.  Em entrevista \u00e0 revista Sacada, o artista, que h\u00e1 muito tamb\u00e9m trabalha com arte aplicada \u00e0 decora\u00e7\u00e3o, juntamente com renomados arquitetos que atuam na cidade, falou sobre o in\u00edcio da carreira, sobre a vinda ao Brasil, sobre a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia e sobre as t\u00e9cnicas art\u00edsticas e artesanais que desenvolveu ao longo da carreira, como \u00e9 o caso da azulejaria, do mosaico e da escultura em terracota.  Galeano abordou ainda quest\u00f5es caras ao seu estilo de vida e ao seu cotidiano, como a sustentabilidade, a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e a mobilidade urbana. Em rela\u00e7\u00e3o a Feira de Santana, cidade que escolheu para viver e onde come\u00e7ou a pintar, o artista falou sobre a destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico, sobre o funcionamento da cidade, sobre os projetos art\u00edsticos que desenvolve aqui e sobre o sonho de transformar a sua casa em um centro de artes para crian\u00e7as carentes.   Sacada \u2013 Como come\u00e7ou nas artes pl\u00e1sticas? Jorge Galeano \u2013 Com 17 ou 18 anos, \u00e9poca do movimento hippie, eu tinha uma moto e viajava pela Argentina vendendo artesanato e outras obras. Esse foi meu primeiro contato com a arte. Eu sou um artista que \u2013 por ter sido artes\u00e3o e por ter trabalhado com v\u00e1rios materiais, como madeira, couro e metais \u2013 aprendeu a dominar as pr\u00f3prias m\u00e3os. Se eu tiver que utilizar o ferro para realizar um trabalho, n\u00e3o preciso mandar fazer, porque sei como se faz, sei trabalhar com solda, assim como sei esculpir uma madeira. Ent\u00e3o, isso deu uma versatilidade maior \u00e0 minha obra. Atualmente, estou trabalhando com azulejaria e sei como funciona um forno, sei qual \u00e9 a temperatura, o material que preciso usar, porque j\u00e1 trabalhei com o esmalte de alta temperatura quando era ainda um artes\u00e3o. Isso \u00e9 uma grande vantagem, porque \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea encontrar um artista que domine os materiais, que saiba qual \u00e9 a ferramenta pr\u00f3pria para moldar cada um deles. Muitas vezes, os artistas apenas fazem os projetos e mandam executar tudo.  S. \u2013 Mas, al\u00e9m dessa forma\u00e7\u00e3o autodidata inicial, voc\u00ea tamb\u00e9m cursou a faculdade de Belas Artes na Argentina, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim. Entrei na Escola de Belas Artes com 19 anos. E ali descobri realmente o meu mundo, porque encontrei uma centena de pessoas parecidas comigo. Foi um per\u00edodo maravilhoso. Como era artes\u00e3o, os professores me levavam como ajudante. Foi a\u00ed que comecei a ver como era esculpir, como era fazer um afresco numa parede. A partir disso, comecei a trabalhar restaurando pinturas em igrejas, sempre para pagar meus estudos. Fui adquirindo um conhecimento pr\u00e1tico grande em todas as t\u00e9cnicas, principalmente na aquarela, que hoje utilizo mais. Quando me formei, em 1978, a Argentina estava sob dom\u00ednio militar. Foi a \u00e9poca mais dura vivenciada pelos argentinos (entre 1976 e 1983 os militares assassinaram cerca de 30 mil civis, entre eles crian\u00e7as e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos). Ent\u00e3o, muita gente acabou saindo do pa\u00eds. Eu n\u00e3o sa\u00ed por causa da Ditadura, mas o clima estava t\u00e3o pesado que decidi sair e viajar pelo mundo. Muitos amigos meus foram para a Europa. Eu sa\u00ed junto com um quinteto de m\u00fasica latino-americana, porque tamb\u00e9m sou m\u00fasico. Viajamos pela costa do Brasil, passamos pela Amaz\u00f4nia e entramos no Peru, onde o pessoal come\u00e7ou a se dispersar. Uns foram para o M\u00e9xico, outros para a Europa e eu voltei sozinho para o Brasil, mais especificamente para a Bahia, porque tinha gostado muito daqui. Em Salvador, fiz a minha primeira exposi\u00e7\u00e3o, com a artista pl\u00e1stica L\u00edgia Aguiar. Assim comecei a minha carreira art\u00edstica, ainda sem uma linguagem pr\u00f3pria, com muitas influ\u00eancias... S\u00f3 em Feira de Santana, quando me mudei para c\u00e1 com minha filha, que tinha um ano \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 que comecei realmente a pintar. Posso dizer, ent\u00e3o, que sou um pintor feirense, mas feirense mesmo. \u00c0s vezes, \u00e9 doloroso para mim que fa\u00e7am homenagens a pintores feirenses e n\u00e3o incluam o meu nome. Eu comecei a pintar aqui, como Caryb\u00e9 come\u00e7ou a pintar em Salvador. E ningu\u00e9m diria que Caryb\u00e9 \u00e9 argentino... Caryb\u00e9 \u00e9 um artista baiano. Apesar de a arte ser completamente cosmopolita, internacional e globalizada, fa\u00e7o quest\u00e3o de dizer que comecei a pintar em Feira de Santana.  S. \u2013 Ao longo desses anos, foram muitas exposi\u00e7\u00f5es. Queria que falasse um pouco sobre a sua trajet\u00f3ria. J.G. \u2013 Quando comecei a expor em Feira, as pessoas passaram a conhecer o meu nome. J\u00e1 tinha sa\u00eddo um pouco do regional... Foi quando concorri a um cartaz da Micareta, em 1991, ganhando o primeiro pr\u00eamio. Foi um estardalha\u00e7o enorme, saiu em televis\u00e3o, em jornais locais, repercutindo at\u00e9 mesmo no sul do pa\u00eds. E isso me deu um nome. A partir da\u00ed, comecei a me lan\u00e7ar mais como Galeano.  S. \u2013 Al\u00e9m de trabalhar com pintura tradicional sobre tela, voc\u00ea trabalha com outros suportes. Produz azulejos, mosaicos, esculturas em terracota e interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em bancos de pra\u00e7a, ruas, tapumes. Fale um pouco sobre esses trabalhos. J.G. \u2013 O grafismo de rua nos tapumes que cercam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, atualmente em reforma, foi feito durante o Aberto do CUCA, um evento de arte produzido pelo centro. O interessante \u00e9 que teve a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Fiz um desenho como quem desenha no ar, s\u00f3 com fita adesiva. Depois, convidei as crian\u00e7as e os adultos presentes a pintarem sobre a \u00e1rea que eu tinha coberto. Quando acabaram, tirei as fitas e o resultado foi exatamente um desenho que tinha projetado na mente, mas que, inicialmente, n\u00e3o sabia como iria ficar. Um trabalho fant\u00e1stico! Tenho outras obras em pr\u00e9dios p\u00fablicos, como por exemplo na Capela Nossa Senhora do Carmo, localizada no bairro Serraria Brasil, onde fiz um grande painel em mosaico. Coloquei pedrinha por pedrinha. Eu e o pedreiro ficamos pendurados l\u00e1 uma semana. E olha que morro de medo de altura (risos)! Tamb\u00e9m deveria ter um trabalho monumental meu na rodovi\u00e1ria de Feira de Santana, porque, em 2005, ganhei o Pr\u00eamio Portal do Sert\u00e3o, promovido pela Sinart (Sociedade Nacional de Apoio Rodovi\u00e1rio Tur\u00edstico), Prefeitura de Feira de Santana e Uefs, para criar um painel intitulado Boa viagem. Essa obra teria 30 metros quadrados de \u00e1rea e seria instalado numa das paredes laterais da Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria, na Avenida Presidente Dutra. Uma TV local fez uma mat\u00e9ria comigo, os jornais e sites noticiaram, recebi o pagamento, mas, infelizmente, n\u00e3o viabilizaram a obra. E no lugar constru\u00edram v\u00e1rios boxes comerciais. Tenho obras tamb\u00e9m em pr\u00e9dios privados, como \u00e9 o caso da Galeria Carmac, onde pintei um grande painel, e no Edif\u00edcio Sawaya, onde fiz um trabalho em mosaico.  S. \u2013 Voc\u00ea produziu uma s\u00e9rie de esculturas em terracota. Foi a primeira vez que trabalhou com esse material? J.G. \u2013 Sim. Eu estava trabalhando muito com a natureza, quer dizer, com o que resta da natureza... Criei, ent\u00e3o, um conjunto de esculturas em terracota, ao qual dei o nome de P\u00e1ssaros Furiosos. S\u00e3o p\u00e1ssaros com express\u00f5es de preocupa\u00e7\u00e3o, histeria e f\u00faria, porque s\u00e3o bichos que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais \u00e1rvores, que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam onde morar. \u00c9 uma s\u00e9rie muito legal, uma esp\u00e9cie de Movimento dos P\u00e1ssaros Sem-teto (risos).  S. \u2013 E s\u00e3o pe\u00e7as com uma clara influ\u00eancia da arte andina... J.G. \u2013 Sim, tamb\u00e9m. Mas isso foi bem inconsciente, porque, quando se come\u00e7a a produzir um trabalho, n\u00e3o se pensa na origem, mas, de alguma forma, ela vem \u00e0 tona. S\u00e3o \u00edcones, arqu\u00e9tipos, ra\u00edzes culturais, com os quais voltei a me reencontrar recentemente quando realizei uma exposi\u00e7\u00e3o em Cuenca, no Equador.  S. \u2013 A exposi\u00e7\u00e3o individual Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico trata de que tema, especificamente? J.G. \u2013 Essa s\u00e9rie, composta por 20 telas confeccionadas em pequeno formato (40 cm x 40 cm), nasceu, assim como a Su\u00edte Pampalona, realizada anteriormente a partir do jardim que constru\u00ed em minha casa. Quando cheguei ao bairro onde moro, n\u00e3o havia nada. Era uma terra completamente pelada. Foi ent\u00e3o que tive a ideia de cavar um po\u00e7o artesiano e de replantar as esp\u00e9cies da mata nativa. Comecei a criar o meu mundo. Quando as \u00e1rvores e plantas cresceram, animais como sarigu\u00eas, micos, p\u00e1ssaros e aranhas voltaram naturalmente ao lugar de origem. Hoje, meu jardim \u00e9 um espa\u00e7o vivo, \u00e9 a minha utopia. E \u00e9 nele que me inspiro para criar meus quadros. Mas n\u00e3o criei esse jardim para mim mesmo. Eu o criei para os idosos sentarem, para os jovens namorarem, para as crian\u00e7as brincarem. Por isso, em frente \u00e0 minha casa, fiz tamb\u00e9m uma pequena pra\u00e7a. Pensei que isso iria inspirar os vizinhos a copiarem a ideia, a plantarem mais \u00e1rvores, mas ningu\u00e9m fez isso. Ao contr\u00e1rio, cortaram as outras \u00e1rvores que existiam nas proximidades, de modo que o meu jardim subsistiu como uma esp\u00e9cie de ilha. \u00c9 absurda a rela\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam com a natureza aqui em Feira de Santana. Na cultura andina, as pessoas t\u00eam um respeito muito grande pelo solo, pela Pachamama, como eles chamam a m\u00e3e terra. S\u00e3o incapazes de cortar uma \u00e1rvore, a n\u00e3o ser que seja estritamente necess\u00e1rio. E essa conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma luta constante para mim, de modo que, no futuro, gostaria de transformar a minha casa em uma esp\u00e9cie de funda\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as e adolescentes que vivem nas redondezas e nos bairros mais afastados da cidade. Com isso, eles poderiam ter acesso a uma biblioteca, a aulas de pintura e a outras atividades art\u00edsticas.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, Feira de Santana ainda trabalha mal a quest\u00e3o ambiental? J.G. \u2013 N\u00e3o trabalha! Sinceramente? N\u00e3o trabalha! Uma vez, n\u00e3o lembro quando, vi um secret\u00e1rio de meio ambiente afirmar que \u201cquando algu\u00e9m planta uma \u00e1rvore, est\u00e1 plantando um problema\u201d. Se um secret\u00e1rio de meio ambiente diz isso, o que se pode esperar da popula\u00e7\u00e3o? Se h\u00e1 apenas uma \u00e1rvore, todas as pessoas ficam embaixo, como se ela fosse um guarda-sol. Ningu\u00e9m pensa em plantar outras... Aqui, as \u00e1rvores s\u00e3o podadas no ver\u00e3o. Se as \u00e1rvores nos protegem do sol, como se pode pod\u00e1-las no ver\u00e3o? Essa mentalidade \u00e9 absurda. N\u00e3o consigo entender isso.  S. \u2013 Seu estilo de vida denota n\u00e3o apenas uma grande preocupa\u00e7\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia acerca de um tema que \u00e9 imprescind\u00edvel para o ordenamento do espa\u00e7o urbano de Feira de Santana: a mobilidade. A ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e de outros modais de transporte \u00e9 o caminho para tornar a cidade mais acess\u00edvel e mais humanizada? J.G. \u2013 Seria perfeito se todo mundo andasse de bicicleta, mas as pessoas daqui ainda acham que \u00e9 perigoso. Eu uso a minha bicicleta como meio de transporte h\u00e1 mais de sete anos e jamais tive problemas. Nos pa\u00edses de primeiro mundo, como Holanda e B\u00e9lgica, a bicicleta \u00e9 maioria. Aqui n\u00e3o. Aqui um indiv\u00edduo chega ao absurdo de comprar tr\u00eas carros. Ou\u00e7o reclama\u00e7\u00f5es constantes sobre o tr\u00e2nsito, mas, em geral, quem reclama tem tr\u00eas ou mais carros em casa. Ent\u00e3o, como podem falar mal se n\u00e3o d\u00e3o o exemplo? Quem pode falar mal s\u00e3o pessoas que, como eu, andam de bicicleta diariamente.  S. \u2013 Mas, de qualquer forma, \u00e9 dif\u00edcil transitar de bicicleta aqui, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim, mas se mais pessoas andassem de bicicleta, o poder p\u00fablico seria for\u00e7ado a construir ciclovias. Mas quem anda de bicicleta? Eu e os pedreiros (risos)! As pessoas n\u00e3o associam bicicleta a meio de transporte, e sim a lazer. \u00c9 preciso reverter esse pensamento. Como sou uma pessoa p\u00fablica, espero dar o exemplo, mas \u00e9 uma quest\u00e3o ainda muito complicada.  S. \u2013 E o transporte coletivo? J.G. \u2013 Esse \u00e9 um tema ainda mais pol\u00eamico, porque existe no Brasil uma esp\u00e9cie de apartheid violento, mas velado. A classe m\u00e9dia n\u00e3o anda em transporte coletivo e n\u00e3o o faz para n\u00e3o se misturar aos pobres. Prefere pegar t\u00e1xi ou andar a p\u00e9. Isso \u00e9 claro e not\u00f3rio. Se a classe m\u00e9dia pegasse \u00f4nibus, o transporte seria muito melhor. Em outras cidades, fora do Brasil, pessoas de todas as classes pegam \u00f4nibus e exigem o respeito aos seus direitos. Aqui, o transporte coletivo \u00e9 um dos piores do mundo e as pessoas n\u00e3o reclamam. Se as classes m\u00e9dia e alta pegassem \u00f4nibus, o servi\u00e7o seria melhor; se estudassem em col\u00e9gios p\u00fablicos, o ensino p\u00fablico seria melhor; se andassem a p\u00e9 nas ruas, a cidade n\u00e3o estaria esse caos. As classes mais abastadas simplesmente abandonaram a cidade, por isso ela est\u00e1 t\u00e3o degradada, violenta, suja e ocupada irregularmente por milhares de camel\u00f4s.  S. \u2013 Com algumas solu\u00e7\u00f5es simples, voc\u00ea conseguiu construir uma casa confort\u00e1vel, sustent\u00e1vel e tamb\u00e9m estilizada, j\u00e1 que aplicou nela diversas t\u00e9cnicas art\u00edsticas, como mosaico, pintura, azulejaria e artesanato. Qual a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia? J.G. \u2013 Para mim, uma casa \u00e9 como uma escultura. \u00c9 preciso ser modelada. A minha casa \u00e9 um exemplo disso, porque est\u00e1 em constante mudan\u00e7a. Por isso mesmo, digo que ela \u00e9 uma casa-vida. Eu idealizei um espa\u00e7o humano, onde fosse agrad\u00e1vel morar. Casa \u00e9 isso! Cada animal faz seu ninho \u00e0 sua maneira. O ser humano deveria fazer a mesma coisa. Cada pessoa deveria fazer sua casa de acordo com a sua personalidade. Seria maravilhoso se todos pudessem realizar isso, n\u00e3o? Meu sonho \u00e9 ter uma casa redonda. Uma casa redonda \u00e9 maravilhosa! N\u00e3o h\u00e1 \u00e2ngulos, a vista n\u00e3o esbarra em nada. Vi uma casa assim no Vale do Cap\u00e3o e adorei a ideia. Quero comprar um terreno l\u00e1 para fazer uma casinha assim. E n\u00e3o sai cara. Fica em torno de 11 mil reais. Quando as pessoas pensam numa casa, visualizam logo porcelanato, laje e diversos outros materiais, a\u00ed o or\u00e7amento vai para R$ 200 mil. Mas se a ideia \u00e9 fazer uma casa confort\u00e1vel para morar, isso pode ser feito de maneira mais simples. E nem por isso deixa de ser um espa\u00e7o vital. Casa \u00e9 para ser habitada! Tem gente que constr\u00f3i um pal\u00e1cio e n\u00e3o est\u00e1 em casa nunca. N\u00e3o entendo isso... N\u00e3o me vejo em uma casa convencional, nos moldes das casas que fazem aqui. Jamais viveria em uma casa com laje! Isso \u00e9 uma incoer\u00eancia, sobretudo quando se pensa que os term\u00f4metros marcam 40 graus. Minha casa n\u00e3o tem nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o e mesmo assim \u00e9 um o\u00e1sis no deserto. Fiz espa\u00e7os com grama e com terra, para a \u00e1gua penetrar. Canalizo a \u00e1gua da chuva para um po\u00e7o e a devolvo \u00e0 natureza molhando o jardim. Plantei \u00e1rvores na parte da frente e na parte de tr\u00e1s da casa e alguns arbustos nas laterais. N\u00e3o preciso de ar-condicionado, porque tenho uma casa que favorece a circula\u00e7\u00e3o do ar e, desse modo, consigo uma temperatura mais agrad\u00e1vel que em qualquer outra casa.  S. \u2013 Arte e decora\u00e7\u00e3o quase sempre andaram juntas. Como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o? J.G. \u2013 Eu gosto muito de arte popular, de coisas bonitas que tenham uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Empreguei algumas t\u00e9cnicas na minha casa, como essas que voc\u00ea citou anteriormente. Hoje, estou trabalhando com dois arquitetos em Feira, fazendo fontes para resid\u00eancias e mosaicos. Tamb\u00e9m tenho trabalhado muito com azulejaria, que est\u00e1 em evid\u00eancia no mercado atual. H\u00e1 muitas edifica\u00e7\u00f5es em Feira e \u00e9 um momento muito bom para n\u00f3s, artistas, porque as pessoas est\u00e3o investindo cada vez mais em arte aplicada, como por exemplo azulejos personalizados para espa\u00e7os gourmet, desenhos em mosaico para fundos de piscina. S\u00e3o coisas que antigamente eu n\u00e3o fazia, porque n\u00e3o havia mercado. Hoje, sim. E depois do evento Casa Cor Feira melhorou ainda mais.  S. \u2013 Seus quadros tamb\u00e9m s\u00e3o frequentemente requisitados para decora\u00e7\u00e3o. Algumas revistas de arquitetura, tanto baianas quanto nacionais, j\u00e1 publicaram fotos de espa\u00e7os residenciais decorados com telas de sua autoria. Em Feira, muitas cl\u00ednicas e resid\u00eancias t\u00eam trabalhos seus. O mercado feirense tamb\u00e9m est\u00e1 aberto para esse tipo de obra? J.G. \u2013 De fato, h\u00e1 muitas telas minhas espalhadas pela cidade. E isso desde os anos 90. Eu sempre vendi bem. Teve uma \u00e9poca que fazia cons\u00f3rcio de arte, o que me ajudou muito a sobreviver em per\u00edodos dif\u00edceis, de grande infla\u00e7\u00e3o. Por isso voc\u00ea vai ver muitos quadros meus na cidade. Muitas vezes eu tamb\u00e9m trocava servi\u00e7o, porque, para mim, minhas telas s\u00e3o como uma moeda, de modo que at\u00e9 hoje fa\u00e7o trocas.  S. \u2013 Voc\u00ea trabalha em um ateli\u00ea que est\u00e1 localizado em um dos poucos pr\u00e9dios hist\u00f3ricos da cidade. Como se sente trabalhando nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 A sala onde est\u00e1 situada a OCA, Oficinas de Cria\u00e7\u00e3o Art\u00edstica do Centro Universit\u00e1rio de Cultura e Arte, \u00e9 um por\u00e3o que passou muitos anos aterrado. H\u00e1 outro pr\u00e9dio id\u00eantico do outro lado que ainda est\u00e1 aterrado, s\u00f3 sendo poss\u00edvel entrar nele agachado. Esse daqui foi escavado e disponibilizado, mas ningu\u00e9m quis utilizar, sobretudo por causa do mofo e dos \u00e1caros. Para mim, foi \u00f3timo, porque \u00e9 um espa\u00e7o muito legal, mesmo n\u00e3o sendo muito bom para a pintura, em fun\u00e7\u00e3o da pouca ilumina\u00e7\u00e3o. Tentei compensar isso instalando refletores, mas ainda n\u00e3o \u00e9 o ideal, porque as condi\u00e7\u00f5es de luminosidade mudam muito as cores, mas tem um clima que me agrada, um clima criativo, de mosteiro, de sil\u00eancio. Eu gosto muito de trabalhar aqui.  S. \u2013 Quais projetos s\u00e3o desenvolvidos nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 S\u00e3o realizadas oficinas de pintura, desenho, cer\u00e2mica, escultura, fotografia e arte para crian\u00e7as. Aqui produzi as esculturas da s\u00e9rie P\u00e1ssaros Furiosos e pretendo retomar o trabalho com terracota, porque h\u00e1 um forno maravilhoso, que est\u00e1 sendo subutilizado. Tenho muita vontade de implantar tamb\u00e9m um projeto de cinema, para exibir filmes de arte pelo menos uma vez por semana. Outra ideia \u00e9 utilizar esse espa\u00e7o para realizar lan\u00e7amentos de livros e sess\u00f5es de Jazz. Esses projetos j\u00e1 foram passados para a diretoria da institui\u00e7\u00e3o e est\u00e3o sendo amadurecidos.  S. \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o de Feira de Santana com o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico? J.G. \u2013 Praticamente n\u00e3o h\u00e1 mais patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico em Feira de Santana. Esse pr\u00e9dio, por exemplo, quase foi demolido. Na \u00e9poca, funcionava aqui apenas o Semin\u00e1rio de M\u00fasica de Feira de Santana, mas de modo prec\u00e1rio, j\u00e1 que n\u00e3o havia luz e a estrutura estava caindo aos peda\u00e7os. Foi ent\u00e3o que o professor Josu\u00e9 Mello, ex-reitor da Uefs, tomou a iniciativa de implantar aqui esse centro de artes, uma ideia realmente brilhante, que muito contribui para impulsionar a cultura na cidade. Al\u00e9m desse pr\u00e9dio onde o Cuca est\u00e1 instalado e do Casar\u00e3o Fr\u00f3es da Motta, tamb\u00e9m restaurado, s\u00f3 me lembro de mais duas ou tr\u00eas edifica\u00e7\u00f5es antigas, que n\u00e3o sei at\u00e9 quando permanecer\u00e3o de p\u00e9. Isso \u00e9 um absurdo! Nos anos 90, li, em um famoso jornal da cidade, um artigo de um jornalista que defendia a ideia de que \u201clugar de velharia \u00e9 no museu\u201d. Sob esse argumento desprez\u00edvel, ele afirmava a necessidade de todos os pr\u00e9dios antigos serem demolidos para darem lugar ao \u201cprogresso\u201d. Eu tento dar a minha contribui\u00e7\u00e3o, mas fico realmente horrorizado. Aqui ao lado havia v\u00e1rias casas muito bonitas, que foram demolidas para nada, para darem lugar a prediozinhos quadrados, que n\u00e3o s\u00e3o nada, que se transformaram em lojas chinesas, estacionamentos... Isso \u00e9 terr\u00edvel! A cidade n\u00e3o tem mem\u00f3ria mais. Feira tinha tudo para ser uma cidade \u00fanica, com mananciais de \u00e1gua pura, com casarios antigos... Se os comerciantes fossem minimamente inteligentes, teriam aproveitado as fachadas de todas as casas. Isso atrairia clientes e turistas, que viriam ver a cidade. Essa ideia de moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 equivocada. N\u00e3o \u00e9 moderno destruir o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico. \u00c9 moderno mant\u00ea-lo e harmoniz\u00e1-lo com o tempo presente.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, o que \u00e9 necess\u00e1rio mudar em Feira de Santana? J.G. \u2013 Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada. O tr\u00e2nsito \u00e9 ca\u00f3tico, as pessoas n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo de paci\u00eancia. Falta solidariedade. Solidariedade com o vizinho, com os idosos, com a rua onde se mora, com a pr\u00f3pria cidade. S\u00f3 assim Feira poder\u00e1 ser melhor no futuro.     Entrevista publicada na vers\u00e3o impressa da revista Sacada.\" target=\"_blank\">Sacada \u2013 Como come\u00e7ou nas artes pl\u00e1sticas?<br \/>\n<\/a><\/strong><strong>Jorge Galeano \u2013<\/strong> Com 17 ou 18 anos, \u00e9poca do movimento hippie, eu tinha uma moto e viajava pela Argentina vendendo artesanato e outras obras. Esse foi meu primeiro contato com a arte. Eu sou um artista que \u2013 por ter sido artes\u00e3o e por ter trabalhado com v\u00e1rios materiais, como madeira, couro e metais \u2013 aprendeu a dominar as pr\u00f3prias m\u00e3os. Se eu tiver que utilizar o ferro para realizar um trabalho, n\u00e3o preciso mandar fazer, porque sei como se faz, sei trabalhar com solda, assim como sei esculpir uma madeira. Ent\u00e3o, isso deu uma versatilidade maior \u00e0 minha obra.<\/p>\n<p><strong><a href=\"adicado%20em Feira de Santana h\u00e1 mais de 20 anos, o artista pl\u00e1stico argentino Jorge Galeano construiu aqui, nas cercanias do bairro Pampalona, o seu pequeno ref\u00fagio tropical, fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o de telas que chamam a aten\u00e7\u00e3o pela exuber\u00e2ncia.  Povoadas por personagens m\u00edticas e paisagens envolventes, pintadas quase sempre com cores quentes e vibrantes, as obras de Galeano ganharam destaque internacional. Em mar\u00e7o de 2014, convidado pela Secretaria de Cultura de Cuenca, o artista exp\u00f4s no Equador a s\u00e9rie Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico, em que voltou a trabalhar o tema do desmatamento e da destrui\u00e7\u00e3o da natureza.  Em entrevista \u00e0 revista Sacada, o artista, que h\u00e1 muito tamb\u00e9m trabalha com arte aplicada \u00e0 decora\u00e7\u00e3o, juntamente com renomados arquitetos que atuam na cidade, falou sobre o in\u00edcio da carreira, sobre a vinda ao Brasil, sobre a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia e sobre as t\u00e9cnicas art\u00edsticas e artesanais que desenvolveu ao longo da carreira, como \u00e9 o caso da azulejaria, do mosaico e da escultura em terracota.  Galeano abordou ainda quest\u00f5es caras ao seu estilo de vida e ao seu cotidiano, como a sustentabilidade, a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e a mobilidade urbana. Em rela\u00e7\u00e3o a Feira de Santana, cidade que escolheu para viver e onde come\u00e7ou a pintar, o artista falou sobre a destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico, sobre o funcionamento da cidade, sobre os projetos art\u00edsticos que desenvolve aqui e sobre o sonho de transformar a sua casa em um centro de artes para crian\u00e7as carentes.   Sacada \u2013 Como come\u00e7ou nas artes pl\u00e1sticas? Jorge Galeano \u2013 Com 17 ou 18 anos, \u00e9poca do movimento hippie, eu tinha uma moto e viajava pela Argentina vendendo artesanato e outras obras. Esse foi meu primeiro contato com a arte. Eu sou um artista que \u2013 por ter sido artes\u00e3o e por ter trabalhado com v\u00e1rios materiais, como madeira, couro e metais \u2013 aprendeu a dominar as pr\u00f3prias m\u00e3os. Se eu tiver que utilizar o ferro para realizar um trabalho, n\u00e3o preciso mandar fazer, porque sei como se faz, sei trabalhar com solda, assim como sei esculpir uma madeira. Ent\u00e3o, isso deu uma versatilidade maior \u00e0 minha obra. Atualmente, estou trabalhando com azulejaria e sei como funciona um forno, sei qual \u00e9 a temperatura, o material que preciso usar, porque j\u00e1 trabalhei com o esmalte de alta temperatura quando era ainda um artes\u00e3o. Isso \u00e9 uma grande vantagem, porque \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea encontrar um artista que domine os materiais, que saiba qual \u00e9 a ferramenta pr\u00f3pria para moldar cada um deles. Muitas vezes, os artistas apenas fazem os projetos e mandam executar tudo.  S. \u2013 Mas, al\u00e9m dessa forma\u00e7\u00e3o autodidata inicial, voc\u00ea tamb\u00e9m cursou a faculdade de Belas Artes na Argentina, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim. Entrei na Escola de Belas Artes com 19 anos. E ali descobri realmente o meu mundo, porque encontrei uma centena de pessoas parecidas comigo. Foi um per\u00edodo maravilhoso. Como era artes\u00e3o, os professores me levavam como ajudante. Foi a\u00ed que comecei a ver como era esculpir, como era fazer um afresco numa parede. A partir disso, comecei a trabalhar restaurando pinturas em igrejas, sempre para pagar meus estudos. Fui adquirindo um conhecimento pr\u00e1tico grande em todas as t\u00e9cnicas, principalmente na aquarela, que hoje utilizo mais. Quando me formei, em 1978, a Argentina estava sob dom\u00ednio militar. Foi a \u00e9poca mais dura vivenciada pelos argentinos (entre 1976 e 1983 os militares assassinaram cerca de 30 mil civis, entre eles crian\u00e7as e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos). Ent\u00e3o, muita gente acabou saindo do pa\u00eds. Eu n\u00e3o sa\u00ed por causa da Ditadura, mas o clima estava t\u00e3o pesado que decidi sair e viajar pelo mundo. Muitos amigos meus foram para a Europa. Eu sa\u00ed junto com um quinteto de m\u00fasica latino-americana, porque tamb\u00e9m sou m\u00fasico. Viajamos pela costa do Brasil, passamos pela Amaz\u00f4nia e entramos no Peru, onde o pessoal come\u00e7ou a se dispersar. Uns foram para o M\u00e9xico, outros para a Europa e eu voltei sozinho para o Brasil, mais especificamente para a Bahia, porque tinha gostado muito daqui. Em Salvador, fiz a minha primeira exposi\u00e7\u00e3o, com a artista pl\u00e1stica L\u00edgia Aguiar. Assim comecei a minha carreira art\u00edstica, ainda sem uma linguagem pr\u00f3pria, com muitas influ\u00eancias... S\u00f3 em Feira de Santana, quando me mudei para c\u00e1 com minha filha, que tinha um ano \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 que comecei realmente a pintar. Posso dizer, ent\u00e3o, que sou um pintor feirense, mas feirense mesmo. \u00c0s vezes, \u00e9 doloroso para mim que fa\u00e7am homenagens a pintores feirenses e n\u00e3o incluam o meu nome. Eu comecei a pintar aqui, como Caryb\u00e9 come\u00e7ou a pintar em Salvador. E ningu\u00e9m diria que Caryb\u00e9 \u00e9 argentino... Caryb\u00e9 \u00e9 um artista baiano. Apesar de a arte ser completamente cosmopolita, internacional e globalizada, fa\u00e7o quest\u00e3o de dizer que comecei a pintar em Feira de Santana.  S. \u2013 Ao longo desses anos, foram muitas exposi\u00e7\u00f5es. Queria que falasse um pouco sobre a sua trajet\u00f3ria. J.G. \u2013 Quando comecei a expor em Feira, as pessoas passaram a conhecer o meu nome. J\u00e1 tinha sa\u00eddo um pouco do regional... Foi quando concorri a um cartaz da Micareta, em 1991, ganhando o primeiro pr\u00eamio. Foi um estardalha\u00e7o enorme, saiu em televis\u00e3o, em jornais locais, repercutindo at\u00e9 mesmo no sul do pa\u00eds. E isso me deu um nome. A partir da\u00ed, comecei a me lan\u00e7ar mais como Galeano.  S. \u2013 Al\u00e9m de trabalhar com pintura tradicional sobre tela, voc\u00ea trabalha com outros suportes. Produz azulejos, mosaicos, esculturas em terracota e interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em bancos de pra\u00e7a, ruas, tapumes. Fale um pouco sobre esses trabalhos. J.G. \u2013 O grafismo de rua nos tapumes que cercam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, atualmente em reforma, foi feito durante o Aberto do CUCA, um evento de arte produzido pelo centro. O interessante \u00e9 que teve a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Fiz um desenho como quem desenha no ar, s\u00f3 com fita adesiva. Depois, convidei as crian\u00e7as e os adultos presentes a pintarem sobre a \u00e1rea que eu tinha coberto. Quando acabaram, tirei as fitas e o resultado foi exatamente um desenho que tinha projetado na mente, mas que, inicialmente, n\u00e3o sabia como iria ficar. Um trabalho fant\u00e1stico! Tenho outras obras em pr\u00e9dios p\u00fablicos, como por exemplo na Capela Nossa Senhora do Carmo, localizada no bairro Serraria Brasil, onde fiz um grande painel em mosaico. Coloquei pedrinha por pedrinha. Eu e o pedreiro ficamos pendurados l\u00e1 uma semana. E olha que morro de medo de altura (risos)! Tamb\u00e9m deveria ter um trabalho monumental meu na rodovi\u00e1ria de Feira de Santana, porque, em 2005, ganhei o Pr\u00eamio Portal do Sert\u00e3o, promovido pela Sinart (Sociedade Nacional de Apoio Rodovi\u00e1rio Tur\u00edstico), Prefeitura de Feira de Santana e Uefs, para criar um painel intitulado Boa viagem. Essa obra teria 30 metros quadrados de \u00e1rea e seria instalado numa das paredes laterais da Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria, na Avenida Presidente Dutra. Uma TV local fez uma mat\u00e9ria comigo, os jornais e sites noticiaram, recebi o pagamento, mas, infelizmente, n\u00e3o viabilizaram a obra. E no lugar constru\u00edram v\u00e1rios boxes comerciais. Tenho obras tamb\u00e9m em pr\u00e9dios privados, como \u00e9 o caso da Galeria Carmac, onde pintei um grande painel, e no Edif\u00edcio Sawaya, onde fiz um trabalho em mosaico.  S. \u2013 Voc\u00ea produziu uma s\u00e9rie de esculturas em terracota. Foi a primeira vez que trabalhou com esse material? J.G. \u2013 Sim. Eu estava trabalhando muito com a natureza, quer dizer, com o que resta da natureza... Criei, ent\u00e3o, um conjunto de esculturas em terracota, ao qual dei o nome de P\u00e1ssaros Furiosos. S\u00e3o p\u00e1ssaros com express\u00f5es de preocupa\u00e7\u00e3o, histeria e f\u00faria, porque s\u00e3o bichos que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais \u00e1rvores, que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam onde morar. \u00c9 uma s\u00e9rie muito legal, uma esp\u00e9cie de Movimento dos P\u00e1ssaros Sem-teto (risos).  S. \u2013 E s\u00e3o pe\u00e7as com uma clara influ\u00eancia da arte andina... J.G. \u2013 Sim, tamb\u00e9m. Mas isso foi bem inconsciente, porque, quando se come\u00e7a a produzir um trabalho, n\u00e3o se pensa na origem, mas, de alguma forma, ela vem \u00e0 tona. S\u00e3o \u00edcones, arqu\u00e9tipos, ra\u00edzes culturais, com os quais voltei a me reencontrar recentemente quando realizei uma exposi\u00e7\u00e3o em Cuenca, no Equador.  S. \u2013 A exposi\u00e7\u00e3o individual Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico trata de que tema, especificamente? J.G. \u2013 Essa s\u00e9rie, composta por 20 telas confeccionadas em pequeno formato (40 cm x 40 cm), nasceu, assim como a Su\u00edte Pampalona, realizada anteriormente a partir do jardim que constru\u00ed em minha casa. Quando cheguei ao bairro onde moro, n\u00e3o havia nada. Era uma terra completamente pelada. Foi ent\u00e3o que tive a ideia de cavar um po\u00e7o artesiano e de replantar as esp\u00e9cies da mata nativa. Comecei a criar o meu mundo. Quando as \u00e1rvores e plantas cresceram, animais como sarigu\u00eas, micos, p\u00e1ssaros e aranhas voltaram naturalmente ao lugar de origem. Hoje, meu jardim \u00e9 um espa\u00e7o vivo, \u00e9 a minha utopia. E \u00e9 nele que me inspiro para criar meus quadros. Mas n\u00e3o criei esse jardim para mim mesmo. Eu o criei para os idosos sentarem, para os jovens namorarem, para as crian\u00e7as brincarem. Por isso, em frente \u00e0 minha casa, fiz tamb\u00e9m uma pequena pra\u00e7a. Pensei que isso iria inspirar os vizinhos a copiarem a ideia, a plantarem mais \u00e1rvores, mas ningu\u00e9m fez isso. Ao contr\u00e1rio, cortaram as outras \u00e1rvores que existiam nas proximidades, de modo que o meu jardim subsistiu como uma esp\u00e9cie de ilha. \u00c9 absurda a rela\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam com a natureza aqui em Feira de Santana. Na cultura andina, as pessoas t\u00eam um respeito muito grande pelo solo, pela Pachamama, como eles chamam a m\u00e3e terra. S\u00e3o incapazes de cortar uma \u00e1rvore, a n\u00e3o ser que seja estritamente necess\u00e1rio. E essa conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma luta constante para mim, de modo que, no futuro, gostaria de transformar a minha casa em uma esp\u00e9cie de funda\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as e adolescentes que vivem nas redondezas e nos bairros mais afastados da cidade. Com isso, eles poderiam ter acesso a uma biblioteca, a aulas de pintura e a outras atividades art\u00edsticas.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, Feira de Santana ainda trabalha mal a quest\u00e3o ambiental? J.G. \u2013 N\u00e3o trabalha! Sinceramente? N\u00e3o trabalha! Uma vez, n\u00e3o lembro quando, vi um secret\u00e1rio de meio ambiente afirmar que \u201cquando algu\u00e9m planta uma \u00e1rvore, est\u00e1 plantando um problema\u201d. Se um secret\u00e1rio de meio ambiente diz isso, o que se pode esperar da popula\u00e7\u00e3o? Se h\u00e1 apenas uma \u00e1rvore, todas as pessoas ficam embaixo, como se ela fosse um guarda-sol. Ningu\u00e9m pensa em plantar outras... Aqui, as \u00e1rvores s\u00e3o podadas no ver\u00e3o. Se as \u00e1rvores nos protegem do sol, como se pode pod\u00e1-las no ver\u00e3o? Essa mentalidade \u00e9 absurda. N\u00e3o consigo entender isso.  S. \u2013 Seu estilo de vida denota n\u00e3o apenas uma grande preocupa\u00e7\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia acerca de um tema que \u00e9 imprescind\u00edvel para o ordenamento do espa\u00e7o urbano de Feira de Santana: a mobilidade. A ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e de outros modais de transporte \u00e9 o caminho para tornar a cidade mais acess\u00edvel e mais humanizada? J.G. \u2013 Seria perfeito se todo mundo andasse de bicicleta, mas as pessoas daqui ainda acham que \u00e9 perigoso. Eu uso a minha bicicleta como meio de transporte h\u00e1 mais de sete anos e jamais tive problemas. Nos pa\u00edses de primeiro mundo, como Holanda e B\u00e9lgica, a bicicleta \u00e9 maioria. Aqui n\u00e3o. Aqui um indiv\u00edduo chega ao absurdo de comprar tr\u00eas carros. Ou\u00e7o reclama\u00e7\u00f5es constantes sobre o tr\u00e2nsito, mas, em geral, quem reclama tem tr\u00eas ou mais carros em casa. Ent\u00e3o, como podem falar mal se n\u00e3o d\u00e3o o exemplo? Quem pode falar mal s\u00e3o pessoas que, como eu, andam de bicicleta diariamente.  S. \u2013 Mas, de qualquer forma, \u00e9 dif\u00edcil transitar de bicicleta aqui, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim, mas se mais pessoas andassem de bicicleta, o poder p\u00fablico seria for\u00e7ado a construir ciclovias. Mas quem anda de bicicleta? Eu e os pedreiros (risos)! As pessoas n\u00e3o associam bicicleta a meio de transporte, e sim a lazer. \u00c9 preciso reverter esse pensamento. Como sou uma pessoa p\u00fablica, espero dar o exemplo, mas \u00e9 uma quest\u00e3o ainda muito complicada.  S. \u2013 E o transporte coletivo? J.G. \u2013 Esse \u00e9 um tema ainda mais pol\u00eamico, porque existe no Brasil uma esp\u00e9cie de apartheid violento, mas velado. A classe m\u00e9dia n\u00e3o anda em transporte coletivo e n\u00e3o o faz para n\u00e3o se misturar aos pobres. Prefere pegar t\u00e1xi ou andar a p\u00e9. Isso \u00e9 claro e not\u00f3rio. Se a classe m\u00e9dia pegasse \u00f4nibus, o transporte seria muito melhor. Em outras cidades, fora do Brasil, pessoas de todas as classes pegam \u00f4nibus e exigem o respeito aos seus direitos. Aqui, o transporte coletivo \u00e9 um dos piores do mundo e as pessoas n\u00e3o reclamam. Se as classes m\u00e9dia e alta pegassem \u00f4nibus, o servi\u00e7o seria melhor; se estudassem em col\u00e9gios p\u00fablicos, o ensino p\u00fablico seria melhor; se andassem a p\u00e9 nas ruas, a cidade n\u00e3o estaria esse caos. As classes mais abastadas simplesmente abandonaram a cidade, por isso ela est\u00e1 t\u00e3o degradada, violenta, suja e ocupada irregularmente por milhares de camel\u00f4s.  S. \u2013 Com algumas solu\u00e7\u00f5es simples, voc\u00ea conseguiu construir uma casa confort\u00e1vel, sustent\u00e1vel e tamb\u00e9m estilizada, j\u00e1 que aplicou nela diversas t\u00e9cnicas art\u00edsticas, como mosaico, pintura, azulejaria e artesanato. Qual a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia? J.G. \u2013 Para mim, uma casa \u00e9 como uma escultura. \u00c9 preciso ser modelada. A minha casa \u00e9 um exemplo disso, porque est\u00e1 em constante mudan\u00e7a. Por isso mesmo, digo que ela \u00e9 uma casa-vida. Eu idealizei um espa\u00e7o humano, onde fosse agrad\u00e1vel morar. Casa \u00e9 isso! Cada animal faz seu ninho \u00e0 sua maneira. O ser humano deveria fazer a mesma coisa. Cada pessoa deveria fazer sua casa de acordo com a sua personalidade. Seria maravilhoso se todos pudessem realizar isso, n\u00e3o? Meu sonho \u00e9 ter uma casa redonda. Uma casa redonda \u00e9 maravilhosa! N\u00e3o h\u00e1 \u00e2ngulos, a vista n\u00e3o esbarra em nada. Vi uma casa assim no Vale do Cap\u00e3o e adorei a ideia. Quero comprar um terreno l\u00e1 para fazer uma casinha assim. E n\u00e3o sai cara. Fica em torno de 11 mil reais. Quando as pessoas pensam numa casa, visualizam logo porcelanato, laje e diversos outros materiais, a\u00ed o or\u00e7amento vai para R$ 200 mil. Mas se a ideia \u00e9 fazer uma casa confort\u00e1vel para morar, isso pode ser feito de maneira mais simples. E nem por isso deixa de ser um espa\u00e7o vital. Casa \u00e9 para ser habitada! Tem gente que constr\u00f3i um pal\u00e1cio e n\u00e3o est\u00e1 em casa nunca. N\u00e3o entendo isso... N\u00e3o me vejo em uma casa convencional, nos moldes das casas que fazem aqui. Jamais viveria em uma casa com laje! Isso \u00e9 uma incoer\u00eancia, sobretudo quando se pensa que os term\u00f4metros marcam 40 graus. Minha casa n\u00e3o tem nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o e mesmo assim \u00e9 um o\u00e1sis no deserto. Fiz espa\u00e7os com grama e com terra, para a \u00e1gua penetrar. Canalizo a \u00e1gua da chuva para um po\u00e7o e a devolvo \u00e0 natureza molhando o jardim. Plantei \u00e1rvores na parte da frente e na parte de tr\u00e1s da casa e alguns arbustos nas laterais. N\u00e3o preciso de ar-condicionado, porque tenho uma casa que favorece a circula\u00e7\u00e3o do ar e, desse modo, consigo uma temperatura mais agrad\u00e1vel que em qualquer outra casa.  S. \u2013 Arte e decora\u00e7\u00e3o quase sempre andaram juntas. Como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o? J.G. \u2013 Eu gosto muito de arte popular, de coisas bonitas que tenham uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Empreguei algumas t\u00e9cnicas na minha casa, como essas que voc\u00ea citou anteriormente. Hoje, estou trabalhando com dois arquitetos em Feira, fazendo fontes para resid\u00eancias e mosaicos. Tamb\u00e9m tenho trabalhado muito com azulejaria, que est\u00e1 em evid\u00eancia no mercado atual. H\u00e1 muitas edifica\u00e7\u00f5es em Feira e \u00e9 um momento muito bom para n\u00f3s, artistas, porque as pessoas est\u00e3o investindo cada vez mais em arte aplicada, como por exemplo azulejos personalizados para espa\u00e7os gourmet, desenhos em mosaico para fundos de piscina. S\u00e3o coisas que antigamente eu n\u00e3o fazia, porque n\u00e3o havia mercado. Hoje, sim. E depois do evento Casa Cor Feira melhorou ainda mais.  S. \u2013 Seus quadros tamb\u00e9m s\u00e3o frequentemente requisitados para decora\u00e7\u00e3o. Algumas revistas de arquitetura, tanto baianas quanto nacionais, j\u00e1 publicaram fotos de espa\u00e7os residenciais decorados com telas de sua autoria. Em Feira, muitas cl\u00ednicas e resid\u00eancias t\u00eam trabalhos seus. O mercado feirense tamb\u00e9m est\u00e1 aberto para esse tipo de obra? J.G. \u2013 De fato, h\u00e1 muitas telas minhas espalhadas pela cidade. E isso desde os anos 90. Eu sempre vendi bem. Teve uma \u00e9poca que fazia cons\u00f3rcio de arte, o que me ajudou muito a sobreviver em per\u00edodos dif\u00edceis, de grande infla\u00e7\u00e3o. Por isso voc\u00ea vai ver muitos quadros meus na cidade. Muitas vezes eu tamb\u00e9m trocava servi\u00e7o, porque, para mim, minhas telas s\u00e3o como uma moeda, de modo que at\u00e9 hoje fa\u00e7o trocas.  S. \u2013 Voc\u00ea trabalha em um ateli\u00ea que est\u00e1 localizado em um dos poucos pr\u00e9dios hist\u00f3ricos da cidade. Como se sente trabalhando nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 A sala onde est\u00e1 situada a OCA, Oficinas de Cria\u00e7\u00e3o Art\u00edstica do Centro Universit\u00e1rio de Cultura e Arte, \u00e9 um por\u00e3o que passou muitos anos aterrado. H\u00e1 outro pr\u00e9dio id\u00eantico do outro lado que ainda est\u00e1 aterrado, s\u00f3 sendo poss\u00edvel entrar nele agachado. Esse daqui foi escavado e disponibilizado, mas ningu\u00e9m quis utilizar, sobretudo por causa do mofo e dos \u00e1caros. Para mim, foi \u00f3timo, porque \u00e9 um espa\u00e7o muito legal, mesmo n\u00e3o sendo muito bom para a pintura, em fun\u00e7\u00e3o da pouca ilumina\u00e7\u00e3o. Tentei compensar isso instalando refletores, mas ainda n\u00e3o \u00e9 o ideal, porque as condi\u00e7\u00f5es de luminosidade mudam muito as cores, mas tem um clima que me agrada, um clima criativo, de mosteiro, de sil\u00eancio. Eu gosto muito de trabalhar aqui.  S. \u2013 Quais projetos s\u00e3o desenvolvidos nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 S\u00e3o realizadas oficinas de pintura, desenho, cer\u00e2mica, escultura, fotografia e arte para crian\u00e7as. Aqui produzi as esculturas da s\u00e9rie P\u00e1ssaros Furiosos e pretendo retomar o trabalho com terracota, porque h\u00e1 um forno maravilhoso, que est\u00e1 sendo subutilizado. Tenho muita vontade de implantar tamb\u00e9m um projeto de cinema, para exibir filmes de arte pelo menos uma vez por semana. Outra ideia \u00e9 utilizar esse espa\u00e7o para realizar lan\u00e7amentos de livros e sess\u00f5es de Jazz. Esses projetos j\u00e1 foram passados para a diretoria da institui\u00e7\u00e3o e est\u00e3o sendo amadurecidos.  S. \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o de Feira de Santana com o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico? J.G. \u2013 Praticamente n\u00e3o h\u00e1 mais patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico em Feira de Santana. Esse pr\u00e9dio, por exemplo, quase foi demolido. Na \u00e9poca, funcionava aqui apenas o Semin\u00e1rio de M\u00fasica de Feira de Santana, mas de modo prec\u00e1rio, j\u00e1 que n\u00e3o havia luz e a estrutura estava caindo aos peda\u00e7os. Foi ent\u00e3o que o professor Josu\u00e9 Mello, ex-reitor da Uefs, tomou a iniciativa de implantar aqui esse centro de artes, uma ideia realmente brilhante, que muito contribui para impulsionar a cultura na cidade. Al\u00e9m desse pr\u00e9dio onde o Cuca est\u00e1 instalado e do Casar\u00e3o Fr\u00f3es da Motta, tamb\u00e9m restaurado, s\u00f3 me lembro de mais duas ou tr\u00eas edifica\u00e7\u00f5es antigas, que n\u00e3o sei at\u00e9 quando permanecer\u00e3o de p\u00e9. Isso \u00e9 um absurdo! Nos anos 90, li, em um famoso jornal da cidade, um artigo de um jornalista que defendia a ideia de que \u201clugar de velharia \u00e9 no museu\u201d. Sob esse argumento desprez\u00edvel, ele afirmava a necessidade de todos os pr\u00e9dios antigos serem demolidos para darem lugar ao \u201cprogresso\u201d. Eu tento dar a minha contribui\u00e7\u00e3o, mas fico realmente horrorizado. Aqui ao lado havia v\u00e1rias casas muito bonitas, que foram demolidas para nada, para darem lugar a prediozinhos quadrados, que n\u00e3o s\u00e3o nada, que se transformaram em lojas chinesas, estacionamentos... Isso \u00e9 terr\u00edvel! A cidade n\u00e3o tem mem\u00f3ria mais. Feira tinha tudo para ser uma cidade \u00fanica, com mananciais de \u00e1gua pura, com casarios antigos... Se os comerciantes fossem minimamente inteligentes, teriam aproveitado as fachadas de todas as casas. Isso atrairia clientes e turistas, que viriam ver a cidade. Essa ideia de moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 equivocada. N\u00e3o \u00e9 moderno destruir o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico. \u00c9 moderno mant\u00ea-lo e harmoniz\u00e1-lo com o tempo presente.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, o que \u00e9 necess\u00e1rio mudar em Feira de Santana? J.G. \u2013 Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada. O tr\u00e2nsito \u00e9 ca\u00f3tico, as pessoas n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo de paci\u00eancia. Falta solidariedade. Solidariedade com o vizinho, com os idosos, com a rua onde se mora, com a pr\u00f3pria cidade. S\u00f3 assim Feira poder\u00e1 ser melhor no futuro.     Entrevista publicada na vers\u00e3o impressa da revista Sacada.\" target=\"_blank\">S. \u2013 Mas, al\u00e9m dessa forma\u00e7\u00e3o autodidata inicial, voc\u00ea tamb\u00e9m cursou a faculdade de Belas Artes na Argentina, n\u00e3o?<\/a><br \/>\nJ.G. \u2013<\/strong> Sim. Entrei na Escola de Belas Artes com 19 anos. E ali descobri realmente o meu mundo, porque encontrei uma centena de pessoas parecidas comigo. Foi um per\u00edodo maravilhoso. Como era artes\u00e3o, os professores me levavam como ajudante. Foi a\u00ed que comecei a ver como era esculpir, como era fazer um afresco numa parede. A partir disso, comecei a trabalhar restaurando pinturas em igrejas, sempre para pagar meus estudos. Fui adquirindo um conhecimento pr\u00e1tico grande em todas as t\u00e9cnicas, principalmente na aquarela, que hoje utilizo mais. Quando me formei, em 1978, a Argentina estava sob dom\u00ednio militar. Foi a \u00e9poca mais dura vivenciada pelos argentinos (entre 1976 e 1983 os militares assassinaram cerca de 30 mil civis, entre eles crian\u00e7as e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos). Ent\u00e3o, muita gente acabou saindo do pa\u00eds. Eu n\u00e3o sa\u00ed por causa da Ditadura, mas o clima estava t\u00e3o pesado que decidi sair e viajar pelo mundo. Muitos amigos meus foram para a Europa. Eu sa\u00ed junto com um quinteto de m\u00fasica latino-americana, porque tamb\u00e9m sou m\u00fasico. Viajamos pela costa do Brasil, passamos pela Amaz\u00f4nia e entramos no Peru, onde o pessoal come\u00e7ou a se dispersar. Uns foram para o M\u00e9xico, outros para a Europa e eu voltei sozinho para o Brasil, mais especificamente para a Bahia, porque tinha gostado muito daqui. Em Salvador, fiz a minha primeira exposi\u00e7\u00e3o, com a artista pl\u00e1stica L\u00edgia Aguiar. Assim comecei a minha carreira art\u00edstica, ainda sem uma linguagem pr\u00f3pria, com muitas influ\u00eancias&#8230; S\u00f3 em Feira de Santana, quando me mudei para c\u00e1 com minha filha, que tinha um ano \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 que comecei realmente a pintar. Posso dizer, ent\u00e3o, que sou um pintor feirense, mas feirense mesmo.<\/p>\n<p><strong><a href=\"adicado%20em Feira de Santana h\u00e1 mais de 20 anos, o artista pl\u00e1stico argentino Jorge Galeano construiu aqui, nas cercanias do bairro Pampalona, o seu pequeno ref\u00fagio tropical, fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o de telas que chamam a aten\u00e7\u00e3o pela exuber\u00e2ncia.  Povoadas por personagens m\u00edticas e paisagens envolventes, pintadas quase sempre com cores quentes e vibrantes, as obras de Galeano ganharam destaque internacional. Em mar\u00e7o de 2014, convidado pela Secretaria de Cultura de Cuenca, o artista exp\u00f4s no Equador a s\u00e9rie Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico, em que voltou a trabalhar o tema do desmatamento e da destrui\u00e7\u00e3o da natureza.  Em entrevista \u00e0 revista Sacada, o artista, que h\u00e1 muito tamb\u00e9m trabalha com arte aplicada \u00e0 decora\u00e7\u00e3o, juntamente com renomados arquitetos que atuam na cidade, falou sobre o in\u00edcio da carreira, sobre a vinda ao Brasil, sobre a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia e sobre as t\u00e9cnicas art\u00edsticas e artesanais que desenvolveu ao longo da carreira, como \u00e9 o caso da azulejaria, do mosaico e da escultura em terracota.  Galeano abordou ainda quest\u00f5es caras ao seu estilo de vida e ao seu cotidiano, como a sustentabilidade, a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e a mobilidade urbana. Em rela\u00e7\u00e3o a Feira de Santana, cidade que escolheu para viver e onde come\u00e7ou a pintar, o artista falou sobre a destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico, sobre o funcionamento da cidade, sobre os projetos art\u00edsticos que desenvolve aqui e sobre o sonho de transformar a sua casa em um centro de artes para crian\u00e7as carentes.   Sacada \u2013 Como come\u00e7ou nas artes pl\u00e1sticas? Jorge Galeano \u2013 Com 17 ou 18 anos, \u00e9poca do movimento hippie, eu tinha uma moto e viajava pela Argentina vendendo artesanato e outras obras. Esse foi meu primeiro contato com a arte. Eu sou um artista que \u2013 por ter sido artes\u00e3o e por ter trabalhado com v\u00e1rios materiais, como madeira, couro e metais \u2013 aprendeu a dominar as pr\u00f3prias m\u00e3os. Se eu tiver que utilizar o ferro para realizar um trabalho, n\u00e3o preciso mandar fazer, porque sei como se faz, sei trabalhar com solda, assim como sei esculpir uma madeira. Ent\u00e3o, isso deu uma versatilidade maior \u00e0 minha obra. Atualmente, estou trabalhando com azulejaria e sei como funciona um forno, sei qual \u00e9 a temperatura, o material que preciso usar, porque j\u00e1 trabalhei com o esmalte de alta temperatura quando era ainda um artes\u00e3o. Isso \u00e9 uma grande vantagem, porque \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea encontrar um artista que domine os materiais, que saiba qual \u00e9 a ferramenta pr\u00f3pria para moldar cada um deles. Muitas vezes, os artistas apenas fazem os projetos e mandam executar tudo.  S. \u2013 Mas, al\u00e9m dessa forma\u00e7\u00e3o autodidata inicial, voc\u00ea tamb\u00e9m cursou a faculdade de Belas Artes na Argentina, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim. Entrei na Escola de Belas Artes com 19 anos. E ali descobri realmente o meu mundo, porque encontrei uma centena de pessoas parecidas comigo. Foi um per\u00edodo maravilhoso. Como era artes\u00e3o, os professores me levavam como ajudante. Foi a\u00ed que comecei a ver como era esculpir, como era fazer um afresco numa parede. A partir disso, comecei a trabalhar restaurando pinturas em igrejas, sempre para pagar meus estudos. Fui adquirindo um conhecimento pr\u00e1tico grande em todas as t\u00e9cnicas, principalmente na aquarela, que hoje utilizo mais. Quando me formei, em 1978, a Argentina estava sob dom\u00ednio militar. Foi a \u00e9poca mais dura vivenciada pelos argentinos (entre 1976 e 1983 os militares assassinaram cerca de 30 mil civis, entre eles crian\u00e7as e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos). Ent\u00e3o, muita gente acabou saindo do pa\u00eds. Eu n\u00e3o sa\u00ed por causa da Ditadura, mas o clima estava t\u00e3o pesado que decidi sair e viajar pelo mundo. Muitos amigos meus foram para a Europa. Eu sa\u00ed junto com um quinteto de m\u00fasica latino-americana, porque tamb\u00e9m sou m\u00fasico. Viajamos pela costa do Brasil, passamos pela Amaz\u00f4nia e entramos no Peru, onde o pessoal come\u00e7ou a se dispersar. Uns foram para o M\u00e9xico, outros para a Europa e eu voltei sozinho para o Brasil, mais especificamente para a Bahia, porque tinha gostado muito daqui. Em Salvador, fiz a minha primeira exposi\u00e7\u00e3o, com a artista pl\u00e1stica L\u00edgia Aguiar. Assim comecei a minha carreira art\u00edstica, ainda sem uma linguagem pr\u00f3pria, com muitas influ\u00eancias... S\u00f3 em Feira de Santana, quando me mudei para c\u00e1 com minha filha, que tinha um ano \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 que comecei realmente a pintar. Posso dizer, ent\u00e3o, que sou um pintor feirense, mas feirense mesmo. \u00c0s vezes, \u00e9 doloroso para mim que fa\u00e7am homenagens a pintores feirenses e n\u00e3o incluam o meu nome. Eu comecei a pintar aqui, como Caryb\u00e9 come\u00e7ou a pintar em Salvador. E ningu\u00e9m diria que Caryb\u00e9 \u00e9 argentino... Caryb\u00e9 \u00e9 um artista baiano. Apesar de a arte ser completamente cosmopolita, internacional e globalizada, fa\u00e7o quest\u00e3o de dizer que comecei a pintar em Feira de Santana.  S. \u2013 Ao longo desses anos, foram muitas exposi\u00e7\u00f5es. Queria que falasse um pouco sobre a sua trajet\u00f3ria. J.G. \u2013 Quando comecei a expor em Feira, as pessoas passaram a conhecer o meu nome. J\u00e1 tinha sa\u00eddo um pouco do regional... Foi quando concorri a um cartaz da Micareta, em 1991, ganhando o primeiro pr\u00eamio. Foi um estardalha\u00e7o enorme, saiu em televis\u00e3o, em jornais locais, repercutindo at\u00e9 mesmo no sul do pa\u00eds. E isso me deu um nome. A partir da\u00ed, comecei a me lan\u00e7ar mais como Galeano.  S. \u2013 Al\u00e9m de trabalhar com pintura tradicional sobre tela, voc\u00ea trabalha com outros suportes. Produz azulejos, mosaicos, esculturas em terracota e interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em bancos de pra\u00e7a, ruas, tapumes. Fale um pouco sobre esses trabalhos. J.G. \u2013 O grafismo de rua nos tapumes que cercam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, atualmente em reforma, foi feito durante o Aberto do CUCA, um evento de arte produzido pelo centro. O interessante \u00e9 que teve a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Fiz um desenho como quem desenha no ar, s\u00f3 com fita adesiva. Depois, convidei as crian\u00e7as e os adultos presentes a pintarem sobre a \u00e1rea que eu tinha coberto. Quando acabaram, tirei as fitas e o resultado foi exatamente um desenho que tinha projetado na mente, mas que, inicialmente, n\u00e3o sabia como iria ficar. Um trabalho fant\u00e1stico! Tenho outras obras em pr\u00e9dios p\u00fablicos, como por exemplo na Capela Nossa Senhora do Carmo, localizada no bairro Serraria Brasil, onde fiz um grande painel em mosaico. Coloquei pedrinha por pedrinha. Eu e o pedreiro ficamos pendurados l\u00e1 uma semana. E olha que morro de medo de altura (risos)! Tamb\u00e9m deveria ter um trabalho monumental meu na rodovi\u00e1ria de Feira de Santana, porque, em 2005, ganhei o Pr\u00eamio Portal do Sert\u00e3o, promovido pela Sinart (Sociedade Nacional de Apoio Rodovi\u00e1rio Tur\u00edstico), Prefeitura de Feira de Santana e Uefs, para criar um painel intitulado Boa viagem. Essa obra teria 30 metros quadrados de \u00e1rea e seria instalado numa das paredes laterais da Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria, na Avenida Presidente Dutra. Uma TV local fez uma mat\u00e9ria comigo, os jornais e sites noticiaram, recebi o pagamento, mas, infelizmente, n\u00e3o viabilizaram a obra. E no lugar constru\u00edram v\u00e1rios boxes comerciais. Tenho obras tamb\u00e9m em pr\u00e9dios privados, como \u00e9 o caso da Galeria Carmac, onde pintei um grande painel, e no Edif\u00edcio Sawaya, onde fiz um trabalho em mosaico.  S. \u2013 Voc\u00ea produziu uma s\u00e9rie de esculturas em terracota. Foi a primeira vez que trabalhou com esse material? J.G. \u2013 Sim. Eu estava trabalhando muito com a natureza, quer dizer, com o que resta da natureza... Criei, ent\u00e3o, um conjunto de esculturas em terracota, ao qual dei o nome de P\u00e1ssaros Furiosos. S\u00e3o p\u00e1ssaros com express\u00f5es de preocupa\u00e7\u00e3o, histeria e f\u00faria, porque s\u00e3o bichos que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais \u00e1rvores, que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam onde morar. \u00c9 uma s\u00e9rie muito legal, uma esp\u00e9cie de Movimento dos P\u00e1ssaros Sem-teto (risos).  S. \u2013 E s\u00e3o pe\u00e7as com uma clara influ\u00eancia da arte andina... J.G. \u2013 Sim, tamb\u00e9m. Mas isso foi bem inconsciente, porque, quando se come\u00e7a a produzir um trabalho, n\u00e3o se pensa na origem, mas, de alguma forma, ela vem \u00e0 tona. S\u00e3o \u00edcones, arqu\u00e9tipos, ra\u00edzes culturais, com os quais voltei a me reencontrar recentemente quando realizei uma exposi\u00e7\u00e3o em Cuenca, no Equador.  S. \u2013 A exposi\u00e7\u00e3o individual Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico trata de que tema, especificamente? J.G. \u2013 Essa s\u00e9rie, composta por 20 telas confeccionadas em pequeno formato (40 cm x 40 cm), nasceu, assim como a Su\u00edte Pampalona, realizada anteriormente a partir do jardim que constru\u00ed em minha casa. Quando cheguei ao bairro onde moro, n\u00e3o havia nada. Era uma terra completamente pelada. Foi ent\u00e3o que tive a ideia de cavar um po\u00e7o artesiano e de replantar as esp\u00e9cies da mata nativa. Comecei a criar o meu mundo. Quando as \u00e1rvores e plantas cresceram, animais como sarigu\u00eas, micos, p\u00e1ssaros e aranhas voltaram naturalmente ao lugar de origem. Hoje, meu jardim \u00e9 um espa\u00e7o vivo, \u00e9 a minha utopia. E \u00e9 nele que me inspiro para criar meus quadros. Mas n\u00e3o criei esse jardim para mim mesmo. Eu o criei para os idosos sentarem, para os jovens namorarem, para as crian\u00e7as brincarem. Por isso, em frente \u00e0 minha casa, fiz tamb\u00e9m uma pequena pra\u00e7a. Pensei que isso iria inspirar os vizinhos a copiarem a ideia, a plantarem mais \u00e1rvores, mas ningu\u00e9m fez isso. Ao contr\u00e1rio, cortaram as outras \u00e1rvores que existiam nas proximidades, de modo que o meu jardim subsistiu como uma esp\u00e9cie de ilha. \u00c9 absurda a rela\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam com a natureza aqui em Feira de Santana. Na cultura andina, as pessoas t\u00eam um respeito muito grande pelo solo, pela Pachamama, como eles chamam a m\u00e3e terra. S\u00e3o incapazes de cortar uma \u00e1rvore, a n\u00e3o ser que seja estritamente necess\u00e1rio. E essa conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma luta constante para mim, de modo que, no futuro, gostaria de transformar a minha casa em uma esp\u00e9cie de funda\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as e adolescentes que vivem nas redondezas e nos bairros mais afastados da cidade. Com isso, eles poderiam ter acesso a uma biblioteca, a aulas de pintura e a outras atividades art\u00edsticas.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, Feira de Santana ainda trabalha mal a quest\u00e3o ambiental? J.G. \u2013 N\u00e3o trabalha! Sinceramente? N\u00e3o trabalha! Uma vez, n\u00e3o lembro quando, vi um secret\u00e1rio de meio ambiente afirmar que \u201cquando algu\u00e9m planta uma \u00e1rvore, est\u00e1 plantando um problema\u201d. Se um secret\u00e1rio de meio ambiente diz isso, o que se pode esperar da popula\u00e7\u00e3o? Se h\u00e1 apenas uma \u00e1rvore, todas as pessoas ficam embaixo, como se ela fosse um guarda-sol. Ningu\u00e9m pensa em plantar outras... Aqui, as \u00e1rvores s\u00e3o podadas no ver\u00e3o. Se as \u00e1rvores nos protegem do sol, como se pode pod\u00e1-las no ver\u00e3o? Essa mentalidade \u00e9 absurda. N\u00e3o consigo entender isso.  S. \u2013 Seu estilo de vida denota n\u00e3o apenas uma grande preocupa\u00e7\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia acerca de um tema que \u00e9 imprescind\u00edvel para o ordenamento do espa\u00e7o urbano de Feira de Santana: a mobilidade. A ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e de outros modais de transporte \u00e9 o caminho para tornar a cidade mais acess\u00edvel e mais humanizada? J.G. \u2013 Seria perfeito se todo mundo andasse de bicicleta, mas as pessoas daqui ainda acham que \u00e9 perigoso. Eu uso a minha bicicleta como meio de transporte h\u00e1 mais de sete anos e jamais tive problemas. Nos pa\u00edses de primeiro mundo, como Holanda e B\u00e9lgica, a bicicleta \u00e9 maioria. Aqui n\u00e3o. Aqui um indiv\u00edduo chega ao absurdo de comprar tr\u00eas carros. Ou\u00e7o reclama\u00e7\u00f5es constantes sobre o tr\u00e2nsito, mas, em geral, quem reclama tem tr\u00eas ou mais carros em casa. Ent\u00e3o, como podem falar mal se n\u00e3o d\u00e3o o exemplo? Quem pode falar mal s\u00e3o pessoas que, como eu, andam de bicicleta diariamente.  S. \u2013 Mas, de qualquer forma, \u00e9 dif\u00edcil transitar de bicicleta aqui, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim, mas se mais pessoas andassem de bicicleta, o poder p\u00fablico seria for\u00e7ado a construir ciclovias. Mas quem anda de bicicleta? Eu e os pedreiros (risos)! As pessoas n\u00e3o associam bicicleta a meio de transporte, e sim a lazer. \u00c9 preciso reverter esse pensamento. Como sou uma pessoa p\u00fablica, espero dar o exemplo, mas \u00e9 uma quest\u00e3o ainda muito complicada.  S. \u2013 E o transporte coletivo? J.G. \u2013 Esse \u00e9 um tema ainda mais pol\u00eamico, porque existe no Brasil uma esp\u00e9cie de apartheid violento, mas velado. A classe m\u00e9dia n\u00e3o anda em transporte coletivo e n\u00e3o o faz para n\u00e3o se misturar aos pobres. Prefere pegar t\u00e1xi ou andar a p\u00e9. Isso \u00e9 claro e not\u00f3rio. Se a classe m\u00e9dia pegasse \u00f4nibus, o transporte seria muito melhor. Em outras cidades, fora do Brasil, pessoas de todas as classes pegam \u00f4nibus e exigem o respeito aos seus direitos. Aqui, o transporte coletivo \u00e9 um dos piores do mundo e as pessoas n\u00e3o reclamam. Se as classes m\u00e9dia e alta pegassem \u00f4nibus, o servi\u00e7o seria melhor; se estudassem em col\u00e9gios p\u00fablicos, o ensino p\u00fablico seria melhor; se andassem a p\u00e9 nas ruas, a cidade n\u00e3o estaria esse caos. As classes mais abastadas simplesmente abandonaram a cidade, por isso ela est\u00e1 t\u00e3o degradada, violenta, suja e ocupada irregularmente por milhares de camel\u00f4s.  S. \u2013 Com algumas solu\u00e7\u00f5es simples, voc\u00ea conseguiu construir uma casa confort\u00e1vel, sustent\u00e1vel e tamb\u00e9m estilizada, j\u00e1 que aplicou nela diversas t\u00e9cnicas art\u00edsticas, como mosaico, pintura, azulejaria e artesanato. Qual a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia? J.G. \u2013 Para mim, uma casa \u00e9 como uma escultura. \u00c9 preciso ser modelada. A minha casa \u00e9 um exemplo disso, porque est\u00e1 em constante mudan\u00e7a. Por isso mesmo, digo que ela \u00e9 uma casa-vida. Eu idealizei um espa\u00e7o humano, onde fosse agrad\u00e1vel morar. Casa \u00e9 isso! Cada animal faz seu ninho \u00e0 sua maneira. O ser humano deveria fazer a mesma coisa. Cada pessoa deveria fazer sua casa de acordo com a sua personalidade. Seria maravilhoso se todos pudessem realizar isso, n\u00e3o? Meu sonho \u00e9 ter uma casa redonda. Uma casa redonda \u00e9 maravilhosa! N\u00e3o h\u00e1 \u00e2ngulos, a vista n\u00e3o esbarra em nada. Vi uma casa assim no Vale do Cap\u00e3o e adorei a ideia. Quero comprar um terreno l\u00e1 para fazer uma casinha assim. E n\u00e3o sai cara. Fica em torno de 11 mil reais. Quando as pessoas pensam numa casa, visualizam logo porcelanato, laje e diversos outros materiais, a\u00ed o or\u00e7amento vai para R$ 200 mil. Mas se a ideia \u00e9 fazer uma casa confort\u00e1vel para morar, isso pode ser feito de maneira mais simples. E nem por isso deixa de ser um espa\u00e7o vital. Casa \u00e9 para ser habitada! Tem gente que constr\u00f3i um pal\u00e1cio e n\u00e3o est\u00e1 em casa nunca. N\u00e3o entendo isso... N\u00e3o me vejo em uma casa convencional, nos moldes das casas que fazem aqui. Jamais viveria em uma casa com laje! Isso \u00e9 uma incoer\u00eancia, sobretudo quando se pensa que os term\u00f4metros marcam 40 graus. Minha casa n\u00e3o tem nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o e mesmo assim \u00e9 um o\u00e1sis no deserto. Fiz espa\u00e7os com grama e com terra, para a \u00e1gua penetrar. Canalizo a \u00e1gua da chuva para um po\u00e7o e a devolvo \u00e0 natureza molhando o jardim. Plantei \u00e1rvores na parte da frente e na parte de tr\u00e1s da casa e alguns arbustos nas laterais. N\u00e3o preciso de ar-condicionado, porque tenho uma casa que favorece a circula\u00e7\u00e3o do ar e, desse modo, consigo uma temperatura mais agrad\u00e1vel que em qualquer outra casa.  S. \u2013 Arte e decora\u00e7\u00e3o quase sempre andaram juntas. Como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o? J.G. \u2013 Eu gosto muito de arte popular, de coisas bonitas que tenham uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Empreguei algumas t\u00e9cnicas na minha casa, como essas que voc\u00ea citou anteriormente. Hoje, estou trabalhando com dois arquitetos em Feira, fazendo fontes para resid\u00eancias e mosaicos. Tamb\u00e9m tenho trabalhado muito com azulejaria, que est\u00e1 em evid\u00eancia no mercado atual. H\u00e1 muitas edifica\u00e7\u00f5es em Feira e \u00e9 um momento muito bom para n\u00f3s, artistas, porque as pessoas est\u00e3o investindo cada vez mais em arte aplicada, como por exemplo azulejos personalizados para espa\u00e7os gourmet, desenhos em mosaico para fundos de piscina. S\u00e3o coisas que antigamente eu n\u00e3o fazia, porque n\u00e3o havia mercado. Hoje, sim. E depois do evento Casa Cor Feira melhorou ainda mais.  S. \u2013 Seus quadros tamb\u00e9m s\u00e3o frequentemente requisitados para decora\u00e7\u00e3o. Algumas revistas de arquitetura, tanto baianas quanto nacionais, j\u00e1 publicaram fotos de espa\u00e7os residenciais decorados com telas de sua autoria. Em Feira, muitas cl\u00ednicas e resid\u00eancias t\u00eam trabalhos seus. O mercado feirense tamb\u00e9m est\u00e1 aberto para esse tipo de obra? J.G. \u2013 De fato, h\u00e1 muitas telas minhas espalhadas pela cidade. E isso desde os anos 90. Eu sempre vendi bem. Teve uma \u00e9poca que fazia cons\u00f3rcio de arte, o que me ajudou muito a sobreviver em per\u00edodos dif\u00edceis, de grande infla\u00e7\u00e3o. Por isso voc\u00ea vai ver muitos quadros meus na cidade. Muitas vezes eu tamb\u00e9m trocava servi\u00e7o, porque, para mim, minhas telas s\u00e3o como uma moeda, de modo que at\u00e9 hoje fa\u00e7o trocas.  S. \u2013 Voc\u00ea trabalha em um ateli\u00ea que est\u00e1 localizado em um dos poucos pr\u00e9dios hist\u00f3ricos da cidade. Como se sente trabalhando nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 A sala onde est\u00e1 situada a OCA, Oficinas de Cria\u00e7\u00e3o Art\u00edstica do Centro Universit\u00e1rio de Cultura e Arte, \u00e9 um por\u00e3o que passou muitos anos aterrado. H\u00e1 outro pr\u00e9dio id\u00eantico do outro lado que ainda est\u00e1 aterrado, s\u00f3 sendo poss\u00edvel entrar nele agachado. Esse daqui foi escavado e disponibilizado, mas ningu\u00e9m quis utilizar, sobretudo por causa do mofo e dos \u00e1caros. Para mim, foi \u00f3timo, porque \u00e9 um espa\u00e7o muito legal, mesmo n\u00e3o sendo muito bom para a pintura, em fun\u00e7\u00e3o da pouca ilumina\u00e7\u00e3o. Tentei compensar isso instalando refletores, mas ainda n\u00e3o \u00e9 o ideal, porque as condi\u00e7\u00f5es de luminosidade mudam muito as cores, mas tem um clima que me agrada, um clima criativo, de mosteiro, de sil\u00eancio. Eu gosto muito de trabalhar aqui.  S. \u2013 Quais projetos s\u00e3o desenvolvidos nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 S\u00e3o realizadas oficinas de pintura, desenho, cer\u00e2mica, escultura, fotografia e arte para crian\u00e7as. Aqui produzi as esculturas da s\u00e9rie P\u00e1ssaros Furiosos e pretendo retomar o trabalho com terracota, porque h\u00e1 um forno maravilhoso, que est\u00e1 sendo subutilizado. Tenho muita vontade de implantar tamb\u00e9m um projeto de cinema, para exibir filmes de arte pelo menos uma vez por semana. Outra ideia \u00e9 utilizar esse espa\u00e7o para realizar lan\u00e7amentos de livros e sess\u00f5es de Jazz. Esses projetos j\u00e1 foram passados para a diretoria da institui\u00e7\u00e3o e est\u00e3o sendo amadurecidos.  S. \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o de Feira de Santana com o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico? J.G. \u2013 Praticamente n\u00e3o h\u00e1 mais patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico em Feira de Santana. Esse pr\u00e9dio, por exemplo, quase foi demolido. Na \u00e9poca, funcionava aqui apenas o Semin\u00e1rio de M\u00fasica de Feira de Santana, mas de modo prec\u00e1rio, j\u00e1 que n\u00e3o havia luz e a estrutura estava caindo aos peda\u00e7os. Foi ent\u00e3o que o professor Josu\u00e9 Mello, ex-reitor da Uefs, tomou a iniciativa de implantar aqui esse centro de artes, uma ideia realmente brilhante, que muito contribui para impulsionar a cultura na cidade. Al\u00e9m desse pr\u00e9dio onde o Cuca est\u00e1 instalado e do Casar\u00e3o Fr\u00f3es da Motta, tamb\u00e9m restaurado, s\u00f3 me lembro de mais duas ou tr\u00eas edifica\u00e7\u00f5es antigas, que n\u00e3o sei at\u00e9 quando permanecer\u00e3o de p\u00e9. Isso \u00e9 um absurdo! Nos anos 90, li, em um famoso jornal da cidade, um artigo de um jornalista que defendia a ideia de que \u201clugar de velharia \u00e9 no museu\u201d. Sob esse argumento desprez\u00edvel, ele afirmava a necessidade de todos os pr\u00e9dios antigos serem demolidos para darem lugar ao \u201cprogresso\u201d. Eu tento dar a minha contribui\u00e7\u00e3o, mas fico realmente horrorizado. Aqui ao lado havia v\u00e1rias casas muito bonitas, que foram demolidas para nada, para darem lugar a prediozinhos quadrados, que n\u00e3o s\u00e3o nada, que se transformaram em lojas chinesas, estacionamentos... Isso \u00e9 terr\u00edvel! A cidade n\u00e3o tem mem\u00f3ria mais. Feira tinha tudo para ser uma cidade \u00fanica, com mananciais de \u00e1gua pura, com casarios antigos... Se os comerciantes fossem minimamente inteligentes, teriam aproveitado as fachadas de todas as casas. Isso atrairia clientes e turistas, que viriam ver a cidade. Essa ideia de moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 equivocada. N\u00e3o \u00e9 moderno destruir o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico. \u00c9 moderno mant\u00ea-lo e harmoniz\u00e1-lo com o tempo presente.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, o que \u00e9 necess\u00e1rio mudar em Feira de Santana? J.G. \u2013 Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada. O tr\u00e2nsito \u00e9 ca\u00f3tico, as pessoas n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo de paci\u00eancia. Falta solidariedade. Solidariedade com o vizinho, com os idosos, com a rua onde se mora, com a pr\u00f3pria cidade. S\u00f3 assim Feira poder\u00e1 ser melhor no futuro.     Entrevista publicada na vers\u00e3o impressa da revista Sacada.\" target=\"_blank\">S. \u2013 Ao longo desses anos, foram muitas exposi\u00e7\u00f5es. Queria que falasse um pouco sobre a sua trajet\u00f3ria.<\/a><br \/>\nJ.G. \u2013 <\/strong>Quando comecei a expor em Feira, as pessoas passaram a conhecer o meu nome. J\u00e1 tinha sa\u00eddo um pouco do regional&#8230; Foi quando concorri a um cartaz da Micareta, em 1991, ganhando o primeiro pr\u00eamio. Foi um estardalha\u00e7o enorme, saiu em televis\u00e3o, em jornais locais, repercutindo at\u00e9 mesmo no sul do pa\u00eds. E isso me deu um nome. A partir da\u00ed, comecei a me lan\u00e7ar mais como Galeano.<\/p>\n<p><strong><a href=\"adicado%20em Feira de Santana h\u00e1 mais de 20 anos, o artista pl\u00e1stico argentino Jorge Galeano construiu aqui, nas cercanias do bairro Pampalona, o seu pequeno ref\u00fagio tropical, fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o de telas que chamam a aten\u00e7\u00e3o pela exuber\u00e2ncia.  Povoadas por personagens m\u00edticas e paisagens envolventes, pintadas quase sempre com cores quentes e vibrantes, as obras de Galeano ganharam destaque internacional. Em mar\u00e7o de 2014, convidado pela Secretaria de Cultura de Cuenca, o artista exp\u00f4s no Equador a s\u00e9rie Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico, em que voltou a trabalhar o tema do desmatamento e da destrui\u00e7\u00e3o da natureza.  Em entrevista \u00e0 revista Sacada, o artista, que h\u00e1 muito tamb\u00e9m trabalha com arte aplicada \u00e0 decora\u00e7\u00e3o, juntamente com renomados arquitetos que atuam na cidade, falou sobre o in\u00edcio da carreira, sobre a vinda ao Brasil, sobre a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia e sobre as t\u00e9cnicas art\u00edsticas e artesanais que desenvolveu ao longo da carreira, como \u00e9 o caso da azulejaria, do mosaico e da escultura em terracota.  Galeano abordou ainda quest\u00f5es caras ao seu estilo de vida e ao seu cotidiano, como a sustentabilidade, a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e a mobilidade urbana. Em rela\u00e7\u00e3o a Feira de Santana, cidade que escolheu para viver e onde come\u00e7ou a pintar, o artista falou sobre a destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico, sobre o funcionamento da cidade, sobre os projetos art\u00edsticos que desenvolve aqui e sobre o sonho de transformar a sua casa em um centro de artes para crian\u00e7as carentes.   Sacada \u2013 Como come\u00e7ou nas artes pl\u00e1sticas? Jorge Galeano \u2013 Com 17 ou 18 anos, \u00e9poca do movimento hippie, eu tinha uma moto e viajava pela Argentina vendendo artesanato e outras obras. Esse foi meu primeiro contato com a arte. Eu sou um artista que \u2013 por ter sido artes\u00e3o e por ter trabalhado com v\u00e1rios materiais, como madeira, couro e metais \u2013 aprendeu a dominar as pr\u00f3prias m\u00e3os. Se eu tiver que utilizar o ferro para realizar um trabalho, n\u00e3o preciso mandar fazer, porque sei como se faz, sei trabalhar com solda, assim como sei esculpir uma madeira. Ent\u00e3o, isso deu uma versatilidade maior \u00e0 minha obra. Atualmente, estou trabalhando com azulejaria e sei como funciona um forno, sei qual \u00e9 a temperatura, o material que preciso usar, porque j\u00e1 trabalhei com o esmalte de alta temperatura quando era ainda um artes\u00e3o. Isso \u00e9 uma grande vantagem, porque \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea encontrar um artista que domine os materiais, que saiba qual \u00e9 a ferramenta pr\u00f3pria para moldar cada um deles. Muitas vezes, os artistas apenas fazem os projetos e mandam executar tudo.  S. \u2013 Mas, al\u00e9m dessa forma\u00e7\u00e3o autodidata inicial, voc\u00ea tamb\u00e9m cursou a faculdade de Belas Artes na Argentina, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim. Entrei na Escola de Belas Artes com 19 anos. E ali descobri realmente o meu mundo, porque encontrei uma centena de pessoas parecidas comigo. Foi um per\u00edodo maravilhoso. Como era artes\u00e3o, os professores me levavam como ajudante. Foi a\u00ed que comecei a ver como era esculpir, como era fazer um afresco numa parede. A partir disso, comecei a trabalhar restaurando pinturas em igrejas, sempre para pagar meus estudos. Fui adquirindo um conhecimento pr\u00e1tico grande em todas as t\u00e9cnicas, principalmente na aquarela, que hoje utilizo mais. Quando me formei, em 1978, a Argentina estava sob dom\u00ednio militar. Foi a \u00e9poca mais dura vivenciada pelos argentinos (entre 1976 e 1983 os militares assassinaram cerca de 30 mil civis, entre eles crian\u00e7as e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos). Ent\u00e3o, muita gente acabou saindo do pa\u00eds. Eu n\u00e3o sa\u00ed por causa da Ditadura, mas o clima estava t\u00e3o pesado que decidi sair e viajar pelo mundo. Muitos amigos meus foram para a Europa. Eu sa\u00ed junto com um quinteto de m\u00fasica latino-americana, porque tamb\u00e9m sou m\u00fasico. Viajamos pela costa do Brasil, passamos pela Amaz\u00f4nia e entramos no Peru, onde o pessoal come\u00e7ou a se dispersar. Uns foram para o M\u00e9xico, outros para a Europa e eu voltei sozinho para o Brasil, mais especificamente para a Bahia, porque tinha gostado muito daqui. Em Salvador, fiz a minha primeira exposi\u00e7\u00e3o, com a artista pl\u00e1stica L\u00edgia Aguiar. Assim comecei a minha carreira art\u00edstica, ainda sem uma linguagem pr\u00f3pria, com muitas influ\u00eancias... S\u00f3 em Feira de Santana, quando me mudei para c\u00e1 com minha filha, que tinha um ano \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 que comecei realmente a pintar. Posso dizer, ent\u00e3o, que sou um pintor feirense, mas feirense mesmo. \u00c0s vezes, \u00e9 doloroso para mim que fa\u00e7am homenagens a pintores feirenses e n\u00e3o incluam o meu nome. Eu comecei a pintar aqui, como Caryb\u00e9 come\u00e7ou a pintar em Salvador. E ningu\u00e9m diria que Caryb\u00e9 \u00e9 argentino... Caryb\u00e9 \u00e9 um artista baiano. Apesar de a arte ser completamente cosmopolita, internacional e globalizada, fa\u00e7o quest\u00e3o de dizer que comecei a pintar em Feira de Santana.  S. \u2013 Ao longo desses anos, foram muitas exposi\u00e7\u00f5es. Queria que falasse um pouco sobre a sua trajet\u00f3ria. J.G. \u2013 Quando comecei a expor em Feira, as pessoas passaram a conhecer o meu nome. J\u00e1 tinha sa\u00eddo um pouco do regional... Foi quando concorri a um cartaz da Micareta, em 1991, ganhando o primeiro pr\u00eamio. Foi um estardalha\u00e7o enorme, saiu em televis\u00e3o, em jornais locais, repercutindo at\u00e9 mesmo no sul do pa\u00eds. E isso me deu um nome. A partir da\u00ed, comecei a me lan\u00e7ar mais como Galeano.  S. \u2013 Al\u00e9m de trabalhar com pintura tradicional sobre tela, voc\u00ea trabalha com outros suportes. Produz azulejos, mosaicos, esculturas em terracota e interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em bancos de pra\u00e7a, ruas, tapumes. Fale um pouco sobre esses trabalhos. J.G. \u2013 O grafismo de rua nos tapumes que cercam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, atualmente em reforma, foi feito durante o Aberto do CUCA, um evento de arte produzido pelo centro. O interessante \u00e9 que teve a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Fiz um desenho como quem desenha no ar, s\u00f3 com fita adesiva. Depois, convidei as crian\u00e7as e os adultos presentes a pintarem sobre a \u00e1rea que eu tinha coberto. Quando acabaram, tirei as fitas e o resultado foi exatamente um desenho que tinha projetado na mente, mas que, inicialmente, n\u00e3o sabia como iria ficar. Um trabalho fant\u00e1stico! Tenho outras obras em pr\u00e9dios p\u00fablicos, como por exemplo na Capela Nossa Senhora do Carmo, localizada no bairro Serraria Brasil, onde fiz um grande painel em mosaico. Coloquei pedrinha por pedrinha. Eu e o pedreiro ficamos pendurados l\u00e1 uma semana. E olha que morro de medo de altura (risos)! Tamb\u00e9m deveria ter um trabalho monumental meu na rodovi\u00e1ria de Feira de Santana, porque, em 2005, ganhei o Pr\u00eamio Portal do Sert\u00e3o, promovido pela Sinart (Sociedade Nacional de Apoio Rodovi\u00e1rio Tur\u00edstico), Prefeitura de Feira de Santana e Uefs, para criar um painel intitulado Boa viagem. Essa obra teria 30 metros quadrados de \u00e1rea e seria instalado numa das paredes laterais da Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria, na Avenida Presidente Dutra. Uma TV local fez uma mat\u00e9ria comigo, os jornais e sites noticiaram, recebi o pagamento, mas, infelizmente, n\u00e3o viabilizaram a obra. E no lugar constru\u00edram v\u00e1rios boxes comerciais. Tenho obras tamb\u00e9m em pr\u00e9dios privados, como \u00e9 o caso da Galeria Carmac, onde pintei um grande painel, e no Edif\u00edcio Sawaya, onde fiz um trabalho em mosaico.  S. \u2013 Voc\u00ea produziu uma s\u00e9rie de esculturas em terracota. Foi a primeira vez que trabalhou com esse material? J.G. \u2013 Sim. Eu estava trabalhando muito com a natureza, quer dizer, com o que resta da natureza... Criei, ent\u00e3o, um conjunto de esculturas em terracota, ao qual dei o nome de P\u00e1ssaros Furiosos. S\u00e3o p\u00e1ssaros com express\u00f5es de preocupa\u00e7\u00e3o, histeria e f\u00faria, porque s\u00e3o bichos que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais \u00e1rvores, que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam onde morar. \u00c9 uma s\u00e9rie muito legal, uma esp\u00e9cie de Movimento dos P\u00e1ssaros Sem-teto (risos).  S. \u2013 E s\u00e3o pe\u00e7as com uma clara influ\u00eancia da arte andina... J.G. \u2013 Sim, tamb\u00e9m. Mas isso foi bem inconsciente, porque, quando se come\u00e7a a produzir um trabalho, n\u00e3o se pensa na origem, mas, de alguma forma, ela vem \u00e0 tona. S\u00e3o \u00edcones, arqu\u00e9tipos, ra\u00edzes culturais, com os quais voltei a me reencontrar recentemente quando realizei uma exposi\u00e7\u00e3o em Cuenca, no Equador.  S. \u2013 A exposi\u00e7\u00e3o individual Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico trata de que tema, especificamente? J.G. \u2013 Essa s\u00e9rie, composta por 20 telas confeccionadas em pequeno formato (40 cm x 40 cm), nasceu, assim como a Su\u00edte Pampalona, realizada anteriormente a partir do jardim que constru\u00ed em minha casa. Quando cheguei ao bairro onde moro, n\u00e3o havia nada. Era uma terra completamente pelada. Foi ent\u00e3o que tive a ideia de cavar um po\u00e7o artesiano e de replantar as esp\u00e9cies da mata nativa. Comecei a criar o meu mundo. Quando as \u00e1rvores e plantas cresceram, animais como sarigu\u00eas, micos, p\u00e1ssaros e aranhas voltaram naturalmente ao lugar de origem. Hoje, meu jardim \u00e9 um espa\u00e7o vivo, \u00e9 a minha utopia. E \u00e9 nele que me inspiro para criar meus quadros. Mas n\u00e3o criei esse jardim para mim mesmo. Eu o criei para os idosos sentarem, para os jovens namorarem, para as crian\u00e7as brincarem. Por isso, em frente \u00e0 minha casa, fiz tamb\u00e9m uma pequena pra\u00e7a. Pensei que isso iria inspirar os vizinhos a copiarem a ideia, a plantarem mais \u00e1rvores, mas ningu\u00e9m fez isso. Ao contr\u00e1rio, cortaram as outras \u00e1rvores que existiam nas proximidades, de modo que o meu jardim subsistiu como uma esp\u00e9cie de ilha. \u00c9 absurda a rela\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam com a natureza aqui em Feira de Santana. Na cultura andina, as pessoas t\u00eam um respeito muito grande pelo solo, pela Pachamama, como eles chamam a m\u00e3e terra. S\u00e3o incapazes de cortar uma \u00e1rvore, a n\u00e3o ser que seja estritamente necess\u00e1rio. E essa conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma luta constante para mim, de modo que, no futuro, gostaria de transformar a minha casa em uma esp\u00e9cie de funda\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as e adolescentes que vivem nas redondezas e nos bairros mais afastados da cidade. Com isso, eles poderiam ter acesso a uma biblioteca, a aulas de pintura e a outras atividades art\u00edsticas.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, Feira de Santana ainda trabalha mal a quest\u00e3o ambiental? J.G. \u2013 N\u00e3o trabalha! Sinceramente? N\u00e3o trabalha! Uma vez, n\u00e3o lembro quando, vi um secret\u00e1rio de meio ambiente afirmar que \u201cquando algu\u00e9m planta uma \u00e1rvore, est\u00e1 plantando um problema\u201d. Se um secret\u00e1rio de meio ambiente diz isso, o que se pode esperar da popula\u00e7\u00e3o? Se h\u00e1 apenas uma \u00e1rvore, todas as pessoas ficam embaixo, como se ela fosse um guarda-sol. Ningu\u00e9m pensa em plantar outras... Aqui, as \u00e1rvores s\u00e3o podadas no ver\u00e3o. Se as \u00e1rvores nos protegem do sol, como se pode pod\u00e1-las no ver\u00e3o? Essa mentalidade \u00e9 absurda. N\u00e3o consigo entender isso.  S. \u2013 Seu estilo de vida denota n\u00e3o apenas uma grande preocupa\u00e7\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia acerca de um tema que \u00e9 imprescind\u00edvel para o ordenamento do espa\u00e7o urbano de Feira de Santana: a mobilidade. A ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e de outros modais de transporte \u00e9 o caminho para tornar a cidade mais acess\u00edvel e mais humanizada? J.G. \u2013 Seria perfeito se todo mundo andasse de bicicleta, mas as pessoas daqui ainda acham que \u00e9 perigoso. Eu uso a minha bicicleta como meio de transporte h\u00e1 mais de sete anos e jamais tive problemas. Nos pa\u00edses de primeiro mundo, como Holanda e B\u00e9lgica, a bicicleta \u00e9 maioria. Aqui n\u00e3o. Aqui um indiv\u00edduo chega ao absurdo de comprar tr\u00eas carros. Ou\u00e7o reclama\u00e7\u00f5es constantes sobre o tr\u00e2nsito, mas, em geral, quem reclama tem tr\u00eas ou mais carros em casa. Ent\u00e3o, como podem falar mal se n\u00e3o d\u00e3o o exemplo? Quem pode falar mal s\u00e3o pessoas que, como eu, andam de bicicleta diariamente.  S. \u2013 Mas, de qualquer forma, \u00e9 dif\u00edcil transitar de bicicleta aqui, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim, mas se mais pessoas andassem de bicicleta, o poder p\u00fablico seria for\u00e7ado a construir ciclovias. Mas quem anda de bicicleta? Eu e os pedreiros (risos)! As pessoas n\u00e3o associam bicicleta a meio de transporte, e sim a lazer. \u00c9 preciso reverter esse pensamento. Como sou uma pessoa p\u00fablica, espero dar o exemplo, mas \u00e9 uma quest\u00e3o ainda muito complicada.  S. \u2013 E o transporte coletivo? J.G. \u2013 Esse \u00e9 um tema ainda mais pol\u00eamico, porque existe no Brasil uma esp\u00e9cie de apartheid violento, mas velado. A classe m\u00e9dia n\u00e3o anda em transporte coletivo e n\u00e3o o faz para n\u00e3o se misturar aos pobres. Prefere pegar t\u00e1xi ou andar a p\u00e9. Isso \u00e9 claro e not\u00f3rio. Se a classe m\u00e9dia pegasse \u00f4nibus, o transporte seria muito melhor. Em outras cidades, fora do Brasil, pessoas de todas as classes pegam \u00f4nibus e exigem o respeito aos seus direitos. Aqui, o transporte coletivo \u00e9 um dos piores do mundo e as pessoas n\u00e3o reclamam. Se as classes m\u00e9dia e alta pegassem \u00f4nibus, o servi\u00e7o seria melhor; se estudassem em col\u00e9gios p\u00fablicos, o ensino p\u00fablico seria melhor; se andassem a p\u00e9 nas ruas, a cidade n\u00e3o estaria esse caos. As classes mais abastadas simplesmente abandonaram a cidade, por isso ela est\u00e1 t\u00e3o degradada, violenta, suja e ocupada irregularmente por milhares de camel\u00f4s.  S. \u2013 Com algumas solu\u00e7\u00f5es simples, voc\u00ea conseguiu construir uma casa confort\u00e1vel, sustent\u00e1vel e tamb\u00e9m estilizada, j\u00e1 que aplicou nela diversas t\u00e9cnicas art\u00edsticas, como mosaico, pintura, azulejaria e artesanato. Qual a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia? J.G. \u2013 Para mim, uma casa \u00e9 como uma escultura. \u00c9 preciso ser modelada. A minha casa \u00e9 um exemplo disso, porque est\u00e1 em constante mudan\u00e7a. Por isso mesmo, digo que ela \u00e9 uma casa-vida. Eu idealizei um espa\u00e7o humano, onde fosse agrad\u00e1vel morar. Casa \u00e9 isso! Cada animal faz seu ninho \u00e0 sua maneira. O ser humano deveria fazer a mesma coisa. Cada pessoa deveria fazer sua casa de acordo com a sua personalidade. Seria maravilhoso se todos pudessem realizar isso, n\u00e3o? Meu sonho \u00e9 ter uma casa redonda. Uma casa redonda \u00e9 maravilhosa! N\u00e3o h\u00e1 \u00e2ngulos, a vista n\u00e3o esbarra em nada. Vi uma casa assim no Vale do Cap\u00e3o e adorei a ideia. Quero comprar um terreno l\u00e1 para fazer uma casinha assim. E n\u00e3o sai cara. Fica em torno de 11 mil reais. Quando as pessoas pensam numa casa, visualizam logo porcelanato, laje e diversos outros materiais, a\u00ed o or\u00e7amento vai para R$ 200 mil. Mas se a ideia \u00e9 fazer uma casa confort\u00e1vel para morar, isso pode ser feito de maneira mais simples. E nem por isso deixa de ser um espa\u00e7o vital. Casa \u00e9 para ser habitada! Tem gente que constr\u00f3i um pal\u00e1cio e n\u00e3o est\u00e1 em casa nunca. N\u00e3o entendo isso... N\u00e3o me vejo em uma casa convencional, nos moldes das casas que fazem aqui. Jamais viveria em uma casa com laje! Isso \u00e9 uma incoer\u00eancia, sobretudo quando se pensa que os term\u00f4metros marcam 40 graus. Minha casa n\u00e3o tem nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o e mesmo assim \u00e9 um o\u00e1sis no deserto. Fiz espa\u00e7os com grama e com terra, para a \u00e1gua penetrar. Canalizo a \u00e1gua da chuva para um po\u00e7o e a devolvo \u00e0 natureza molhando o jardim. Plantei \u00e1rvores na parte da frente e na parte de tr\u00e1s da casa e alguns arbustos nas laterais. N\u00e3o preciso de ar-condicionado, porque tenho uma casa que favorece a circula\u00e7\u00e3o do ar e, desse modo, consigo uma temperatura mais agrad\u00e1vel que em qualquer outra casa.  S. \u2013 Arte e decora\u00e7\u00e3o quase sempre andaram juntas. Como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o? J.G. \u2013 Eu gosto muito de arte popular, de coisas bonitas que tenham uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Empreguei algumas t\u00e9cnicas na minha casa, como essas que voc\u00ea citou anteriormente. Hoje, estou trabalhando com dois arquitetos em Feira, fazendo fontes para resid\u00eancias e mosaicos. Tamb\u00e9m tenho trabalhado muito com azulejaria, que est\u00e1 em evid\u00eancia no mercado atual. H\u00e1 muitas edifica\u00e7\u00f5es em Feira e \u00e9 um momento muito bom para n\u00f3s, artistas, porque as pessoas est\u00e3o investindo cada vez mais em arte aplicada, como por exemplo azulejos personalizados para espa\u00e7os gourmet, desenhos em mosaico para fundos de piscina. S\u00e3o coisas que antigamente eu n\u00e3o fazia, porque n\u00e3o havia mercado. Hoje, sim. E depois do evento Casa Cor Feira melhorou ainda mais.  S. \u2013 Seus quadros tamb\u00e9m s\u00e3o frequentemente requisitados para decora\u00e7\u00e3o. Algumas revistas de arquitetura, tanto baianas quanto nacionais, j\u00e1 publicaram fotos de espa\u00e7os residenciais decorados com telas de sua autoria. Em Feira, muitas cl\u00ednicas e resid\u00eancias t\u00eam trabalhos seus. O mercado feirense tamb\u00e9m est\u00e1 aberto para esse tipo de obra? J.G. \u2013 De fato, h\u00e1 muitas telas minhas espalhadas pela cidade. E isso desde os anos 90. Eu sempre vendi bem. Teve uma \u00e9poca que fazia cons\u00f3rcio de arte, o que me ajudou muito a sobreviver em per\u00edodos dif\u00edceis, de grande infla\u00e7\u00e3o. Por isso voc\u00ea vai ver muitos quadros meus na cidade. Muitas vezes eu tamb\u00e9m trocava servi\u00e7o, porque, para mim, minhas telas s\u00e3o como uma moeda, de modo que at\u00e9 hoje fa\u00e7o trocas.  S. \u2013 Voc\u00ea trabalha em um ateli\u00ea que est\u00e1 localizado em um dos poucos pr\u00e9dios hist\u00f3ricos da cidade. Como se sente trabalhando nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 A sala onde est\u00e1 situada a OCA, Oficinas de Cria\u00e7\u00e3o Art\u00edstica do Centro Universit\u00e1rio de Cultura e Arte, \u00e9 um por\u00e3o que passou muitos anos aterrado. H\u00e1 outro pr\u00e9dio id\u00eantico do outro lado que ainda est\u00e1 aterrado, s\u00f3 sendo poss\u00edvel entrar nele agachado. Esse daqui foi escavado e disponibilizado, mas ningu\u00e9m quis utilizar, sobretudo por causa do mofo e dos \u00e1caros. Para mim, foi \u00f3timo, porque \u00e9 um espa\u00e7o muito legal, mesmo n\u00e3o sendo muito bom para a pintura, em fun\u00e7\u00e3o da pouca ilumina\u00e7\u00e3o. Tentei compensar isso instalando refletores, mas ainda n\u00e3o \u00e9 o ideal, porque as condi\u00e7\u00f5es de luminosidade mudam muito as cores, mas tem um clima que me agrada, um clima criativo, de mosteiro, de sil\u00eancio. Eu gosto muito de trabalhar aqui.  S. \u2013 Quais projetos s\u00e3o desenvolvidos nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 S\u00e3o realizadas oficinas de pintura, desenho, cer\u00e2mica, escultura, fotografia e arte para crian\u00e7as. Aqui produzi as esculturas da s\u00e9rie P\u00e1ssaros Furiosos e pretendo retomar o trabalho com terracota, porque h\u00e1 um forno maravilhoso, que est\u00e1 sendo subutilizado. Tenho muita vontade de implantar tamb\u00e9m um projeto de cinema, para exibir filmes de arte pelo menos uma vez por semana. Outra ideia \u00e9 utilizar esse espa\u00e7o para realizar lan\u00e7amentos de livros e sess\u00f5es de Jazz. Esses projetos j\u00e1 foram passados para a diretoria da institui\u00e7\u00e3o e est\u00e3o sendo amadurecidos.  S. \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o de Feira de Santana com o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico? J.G. \u2013 Praticamente n\u00e3o h\u00e1 mais patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico em Feira de Santana. Esse pr\u00e9dio, por exemplo, quase foi demolido. Na \u00e9poca, funcionava aqui apenas o Semin\u00e1rio de M\u00fasica de Feira de Santana, mas de modo prec\u00e1rio, j\u00e1 que n\u00e3o havia luz e a estrutura estava caindo aos peda\u00e7os. Foi ent\u00e3o que o professor Josu\u00e9 Mello, ex-reitor da Uefs, tomou a iniciativa de implantar aqui esse centro de artes, uma ideia realmente brilhante, que muito contribui para impulsionar a cultura na cidade. Al\u00e9m desse pr\u00e9dio onde o Cuca est\u00e1 instalado e do Casar\u00e3o Fr\u00f3es da Motta, tamb\u00e9m restaurado, s\u00f3 me lembro de mais duas ou tr\u00eas edifica\u00e7\u00f5es antigas, que n\u00e3o sei at\u00e9 quando permanecer\u00e3o de p\u00e9. Isso \u00e9 um absurdo! Nos anos 90, li, em um famoso jornal da cidade, um artigo de um jornalista que defendia a ideia de que \u201clugar de velharia \u00e9 no museu\u201d. Sob esse argumento desprez\u00edvel, ele afirmava a necessidade de todos os pr\u00e9dios antigos serem demolidos para darem lugar ao \u201cprogresso\u201d. Eu tento dar a minha contribui\u00e7\u00e3o, mas fico realmente horrorizado. Aqui ao lado havia v\u00e1rias casas muito bonitas, que foram demolidas para nada, para darem lugar a prediozinhos quadrados, que n\u00e3o s\u00e3o nada, que se transformaram em lojas chinesas, estacionamentos... Isso \u00e9 terr\u00edvel! A cidade n\u00e3o tem mem\u00f3ria mais. Feira tinha tudo para ser uma cidade \u00fanica, com mananciais de \u00e1gua pura, com casarios antigos... Se os comerciantes fossem minimamente inteligentes, teriam aproveitado as fachadas de todas as casas. Isso atrairia clientes e turistas, que viriam ver a cidade. Essa ideia de moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 equivocada. N\u00e3o \u00e9 moderno destruir o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico. \u00c9 moderno mant\u00ea-lo e harmoniz\u00e1-lo com o tempo presente.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, o que \u00e9 necess\u00e1rio mudar em Feira de Santana? J.G. \u2013 Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada. O tr\u00e2nsito \u00e9 ca\u00f3tico, as pessoas n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo de paci\u00eancia. Falta solidariedade. Solidariedade com o vizinho, com os idosos, com a rua onde se mora, com a pr\u00f3pria cidade. S\u00f3 assim Feira poder\u00e1 ser melhor no futuro.     Entrevista publicada na vers\u00e3o impressa da revista Sacada.\" target=\"_blank\">S. \u2013 Al\u00e9m de trabalhar com pintura tradicional sobre tela, voc\u00ea trabalha com outros suportes. Produz azulejos, mosaicos, esculturas em terracota e interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em bancos de pra\u00e7a, ruas, tapumes. Fale um pouco sobre esses trabalhos.<\/a><br \/>\nJ.G. \u2013 <\/strong>O grafismo de rua nos tapumes que cercam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, atualmente em reforma, foi feito durante o Aberto do CUCA, um evento de arte produzido pelo centro. O interessante \u00e9 que teve a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Fiz um desenho como quem desenha no ar, s\u00f3 com fita adesiva. Depois, convidei as crian\u00e7as e os adultos presentes a pintarem sobre a \u00e1rea que eu tinha coberto. Quando acabaram, tirei as fitas e o resultado foi exatamente um desenho que tinha projetado na mente, mas que, inicialmente, n\u00e3o sabia como iria ficar. Um trabalho fant\u00e1stico! Tenho outras obras em pr\u00e9dios p\u00fablicos, como por exemplo na Capela Nossa Senhora do Carmo, localizada no bairro Serraria Brasil, onde fiz um grande painel em mosaico. Coloquei pedrinha por pedrinha. Eu e o pedreiro ficamos pendurados l\u00e1 uma semana. E olha que morro de medo de altura (risos)! Tamb\u00e9m deveria ter um trabalho monumental meu na rodovi\u00e1ria de Feira de Santana, porque, em 2005, ganhei o Pr\u00eamio Portal do Sert\u00e3o, promovido pela Sinart (Sociedade Nacional de Apoio Rodovi\u00e1rio Tur\u00edstico), Prefeitura de Feira de Santana e Uefs, para criar um painel intitulado Boa viagem. Essa obra teria 30 metros quadrados de \u00e1rea e seria instalado numa das paredes laterais da Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria, na Avenida Presidente Dutra. Uma TV local fez uma mat\u00e9ria comigo, os jornais e sites noticiaram, recebi o pagamento, mas, infelizmente, n\u00e3o viabilizaram a obra. E no lugar constru\u00edram v\u00e1rios boxes comerciais. Tenho obras tamb\u00e9m em pr\u00e9dios privados, como \u00e9 o caso da Galeria Carmac, onde pintei um grande painel, e no Edif\u00edcio Sawaya, onde fiz um trabalho em mosaico.<\/p>\n<p><strong><a href=\"adicado%20em Feira de Santana h\u00e1 mais de 20 anos, o artista pl\u00e1stico argentino Jorge Galeano construiu aqui, nas cercanias do bairro Pampalona, o seu pequeno ref\u00fagio tropical, fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o de telas que chamam a aten\u00e7\u00e3o pela exuber\u00e2ncia.  Povoadas por personagens m\u00edticas e paisagens envolventes, pintadas quase sempre com cores quentes e vibrantes, as obras de Galeano ganharam destaque internacional. Em mar\u00e7o de 2014, convidado pela Secretaria de Cultura de Cuenca, o artista exp\u00f4s no Equador a s\u00e9rie Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico, em que voltou a trabalhar o tema do desmatamento e da destrui\u00e7\u00e3o da natureza.  Em entrevista \u00e0 revista Sacada, o artista, que h\u00e1 muito tamb\u00e9m trabalha com arte aplicada \u00e0 decora\u00e7\u00e3o, juntamente com renomados arquitetos que atuam na cidade, falou sobre o in\u00edcio da carreira, sobre a vinda ao Brasil, sobre a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia e sobre as t\u00e9cnicas art\u00edsticas e artesanais que desenvolveu ao longo da carreira, como \u00e9 o caso da azulejaria, do mosaico e da escultura em terracota.  Galeano abordou ainda quest\u00f5es caras ao seu estilo de vida e ao seu cotidiano, como a sustentabilidade, a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e a mobilidade urbana. Em rela\u00e7\u00e3o a Feira de Santana, cidade que escolheu para viver e onde come\u00e7ou a pintar, o artista falou sobre a destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico, sobre o funcionamento da cidade, sobre os projetos art\u00edsticos que desenvolve aqui e sobre o sonho de transformar a sua casa em um centro de artes para crian\u00e7as carentes.   Sacada \u2013 Como come\u00e7ou nas artes pl\u00e1sticas? Jorge Galeano \u2013 Com 17 ou 18 anos, \u00e9poca do movimento hippie, eu tinha uma moto e viajava pela Argentina vendendo artesanato e outras obras. Esse foi meu primeiro contato com a arte. Eu sou um artista que \u2013 por ter sido artes\u00e3o e por ter trabalhado com v\u00e1rios materiais, como madeira, couro e metais \u2013 aprendeu a dominar as pr\u00f3prias m\u00e3os. Se eu tiver que utilizar o ferro para realizar um trabalho, n\u00e3o preciso mandar fazer, porque sei como se faz, sei trabalhar com solda, assim como sei esculpir uma madeira. Ent\u00e3o, isso deu uma versatilidade maior \u00e0 minha obra. Atualmente, estou trabalhando com azulejaria e sei como funciona um forno, sei qual \u00e9 a temperatura, o material que preciso usar, porque j\u00e1 trabalhei com o esmalte de alta temperatura quando era ainda um artes\u00e3o. Isso \u00e9 uma grande vantagem, porque \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea encontrar um artista que domine os materiais, que saiba qual \u00e9 a ferramenta pr\u00f3pria para moldar cada um deles. Muitas vezes, os artistas apenas fazem os projetos e mandam executar tudo.  S. \u2013 Mas, al\u00e9m dessa forma\u00e7\u00e3o autodidata inicial, voc\u00ea tamb\u00e9m cursou a faculdade de Belas Artes na Argentina, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim. Entrei na Escola de Belas Artes com 19 anos. E ali descobri realmente o meu mundo, porque encontrei uma centena de pessoas parecidas comigo. Foi um per\u00edodo maravilhoso. Como era artes\u00e3o, os professores me levavam como ajudante. Foi a\u00ed que comecei a ver como era esculpir, como era fazer um afresco numa parede. A partir disso, comecei a trabalhar restaurando pinturas em igrejas, sempre para pagar meus estudos. Fui adquirindo um conhecimento pr\u00e1tico grande em todas as t\u00e9cnicas, principalmente na aquarela, que hoje utilizo mais. Quando me formei, em 1978, a Argentina estava sob dom\u00ednio militar. Foi a \u00e9poca mais dura vivenciada pelos argentinos (entre 1976 e 1983 os militares assassinaram cerca de 30 mil civis, entre eles crian\u00e7as e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos). Ent\u00e3o, muita gente acabou saindo do pa\u00eds. Eu n\u00e3o sa\u00ed por causa da Ditadura, mas o clima estava t\u00e3o pesado que decidi sair e viajar pelo mundo. Muitos amigos meus foram para a Europa. Eu sa\u00ed junto com um quinteto de m\u00fasica latino-americana, porque tamb\u00e9m sou m\u00fasico. Viajamos pela costa do Brasil, passamos pela Amaz\u00f4nia e entramos no Peru, onde o pessoal come\u00e7ou a se dispersar. Uns foram para o M\u00e9xico, outros para a Europa e eu voltei sozinho para o Brasil, mais especificamente para a Bahia, porque tinha gostado muito daqui. Em Salvador, fiz a minha primeira exposi\u00e7\u00e3o, com a artista pl\u00e1stica L\u00edgia Aguiar. Assim comecei a minha carreira art\u00edstica, ainda sem uma linguagem pr\u00f3pria, com muitas influ\u00eancias... S\u00f3 em Feira de Santana, quando me mudei para c\u00e1 com minha filha, que tinha um ano \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 que comecei realmente a pintar. Posso dizer, ent\u00e3o, que sou um pintor feirense, mas feirense mesmo. \u00c0s vezes, \u00e9 doloroso para mim que fa\u00e7am homenagens a pintores feirenses e n\u00e3o incluam o meu nome. Eu comecei a pintar aqui, como Caryb\u00e9 come\u00e7ou a pintar em Salvador. E ningu\u00e9m diria que Caryb\u00e9 \u00e9 argentino... Caryb\u00e9 \u00e9 um artista baiano. Apesar de a arte ser completamente cosmopolita, internacional e globalizada, fa\u00e7o quest\u00e3o de dizer que comecei a pintar em Feira de Santana.  S. \u2013 Ao longo desses anos, foram muitas exposi\u00e7\u00f5es. Queria que falasse um pouco sobre a sua trajet\u00f3ria. J.G. \u2013 Quando comecei a expor em Feira, as pessoas passaram a conhecer o meu nome. J\u00e1 tinha sa\u00eddo um pouco do regional... Foi quando concorri a um cartaz da Micareta, em 1991, ganhando o primeiro pr\u00eamio. Foi um estardalha\u00e7o enorme, saiu em televis\u00e3o, em jornais locais, repercutindo at\u00e9 mesmo no sul do pa\u00eds. E isso me deu um nome. A partir da\u00ed, comecei a me lan\u00e7ar mais como Galeano.  S. \u2013 Al\u00e9m de trabalhar com pintura tradicional sobre tela, voc\u00ea trabalha com outros suportes. Produz azulejos, mosaicos, esculturas em terracota e interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em bancos de pra\u00e7a, ruas, tapumes. Fale um pouco sobre esses trabalhos. J.G. \u2013 O grafismo de rua nos tapumes que cercam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, atualmente em reforma, foi feito durante o Aberto do CUCA, um evento de arte produzido pelo centro. O interessante \u00e9 que teve a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Fiz um desenho como quem desenha no ar, s\u00f3 com fita adesiva. Depois, convidei as crian\u00e7as e os adultos presentes a pintarem sobre a \u00e1rea que eu tinha coberto. Quando acabaram, tirei as fitas e o resultado foi exatamente um desenho que tinha projetado na mente, mas que, inicialmente, n\u00e3o sabia como iria ficar. Um trabalho fant\u00e1stico! Tenho outras obras em pr\u00e9dios p\u00fablicos, como por exemplo na Capela Nossa Senhora do Carmo, localizada no bairro Serraria Brasil, onde fiz um grande painel em mosaico. Coloquei pedrinha por pedrinha. Eu e o pedreiro ficamos pendurados l\u00e1 uma semana. E olha que morro de medo de altura (risos)! Tamb\u00e9m deveria ter um trabalho monumental meu na rodovi\u00e1ria de Feira de Santana, porque, em 2005, ganhei o Pr\u00eamio Portal do Sert\u00e3o, promovido pela Sinart (Sociedade Nacional de Apoio Rodovi\u00e1rio Tur\u00edstico), Prefeitura de Feira de Santana e Uefs, para criar um painel intitulado Boa viagem. Essa obra teria 30 metros quadrados de \u00e1rea e seria instalado numa das paredes laterais da Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria, na Avenida Presidente Dutra. Uma TV local fez uma mat\u00e9ria comigo, os jornais e sites noticiaram, recebi o pagamento, mas, infelizmente, n\u00e3o viabilizaram a obra. E no lugar constru\u00edram v\u00e1rios boxes comerciais. Tenho obras tamb\u00e9m em pr\u00e9dios privados, como \u00e9 o caso da Galeria Carmac, onde pintei um grande painel, e no Edif\u00edcio Sawaya, onde fiz um trabalho em mosaico.  S. \u2013 Voc\u00ea produziu uma s\u00e9rie de esculturas em terracota. Foi a primeira vez que trabalhou com esse material? J.G. \u2013 Sim. Eu estava trabalhando muito com a natureza, quer dizer, com o que resta da natureza... Criei, ent\u00e3o, um conjunto de esculturas em terracota, ao qual dei o nome de P\u00e1ssaros Furiosos. S\u00e3o p\u00e1ssaros com express\u00f5es de preocupa\u00e7\u00e3o, histeria e f\u00faria, porque s\u00e3o bichos que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais \u00e1rvores, que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam onde morar. \u00c9 uma s\u00e9rie muito legal, uma esp\u00e9cie de Movimento dos P\u00e1ssaros Sem-teto (risos).  S. \u2013 E s\u00e3o pe\u00e7as com uma clara influ\u00eancia da arte andina... J.G. \u2013 Sim, tamb\u00e9m. Mas isso foi bem inconsciente, porque, quando se come\u00e7a a produzir um trabalho, n\u00e3o se pensa na origem, mas, de alguma forma, ela vem \u00e0 tona. S\u00e3o \u00edcones, arqu\u00e9tipos, ra\u00edzes culturais, com os quais voltei a me reencontrar recentemente quando realizei uma exposi\u00e7\u00e3o em Cuenca, no Equador.  S. \u2013 A exposi\u00e7\u00e3o individual Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico trata de que tema, especificamente? J.G. \u2013 Essa s\u00e9rie, composta por 20 telas confeccionadas em pequeno formato (40 cm x 40 cm), nasceu, assim como a Su\u00edte Pampalona, realizada anteriormente a partir do jardim que constru\u00ed em minha casa. Quando cheguei ao bairro onde moro, n\u00e3o havia nada. Era uma terra completamente pelada. Foi ent\u00e3o que tive a ideia de cavar um po\u00e7o artesiano e de replantar as esp\u00e9cies da mata nativa. Comecei a criar o meu mundo. Quando as \u00e1rvores e plantas cresceram, animais como sarigu\u00eas, micos, p\u00e1ssaros e aranhas voltaram naturalmente ao lugar de origem. Hoje, meu jardim \u00e9 um espa\u00e7o vivo, \u00e9 a minha utopia. E \u00e9 nele que me inspiro para criar meus quadros. Mas n\u00e3o criei esse jardim para mim mesmo. Eu o criei para os idosos sentarem, para os jovens namorarem, para as crian\u00e7as brincarem. Por isso, em frente \u00e0 minha casa, fiz tamb\u00e9m uma pequena pra\u00e7a. Pensei que isso iria inspirar os vizinhos a copiarem a ideia, a plantarem mais \u00e1rvores, mas ningu\u00e9m fez isso. Ao contr\u00e1rio, cortaram as outras \u00e1rvores que existiam nas proximidades, de modo que o meu jardim subsistiu como uma esp\u00e9cie de ilha. \u00c9 absurda a rela\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam com a natureza aqui em Feira de Santana. Na cultura andina, as pessoas t\u00eam um respeito muito grande pelo solo, pela Pachamama, como eles chamam a m\u00e3e terra. S\u00e3o incapazes de cortar uma \u00e1rvore, a n\u00e3o ser que seja estritamente necess\u00e1rio. E essa conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma luta constante para mim, de modo que, no futuro, gostaria de transformar a minha casa em uma esp\u00e9cie de funda\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as e adolescentes que vivem nas redondezas e nos bairros mais afastados da cidade. Com isso, eles poderiam ter acesso a uma biblioteca, a aulas de pintura e a outras atividades art\u00edsticas.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, Feira de Santana ainda trabalha mal a quest\u00e3o ambiental? J.G. \u2013 N\u00e3o trabalha! Sinceramente? N\u00e3o trabalha! Uma vez, n\u00e3o lembro quando, vi um secret\u00e1rio de meio ambiente afirmar que \u201cquando algu\u00e9m planta uma \u00e1rvore, est\u00e1 plantando um problema\u201d. Se um secret\u00e1rio de meio ambiente diz isso, o que se pode esperar da popula\u00e7\u00e3o? Se h\u00e1 apenas uma \u00e1rvore, todas as pessoas ficam embaixo, como se ela fosse um guarda-sol. Ningu\u00e9m pensa em plantar outras... Aqui, as \u00e1rvores s\u00e3o podadas no ver\u00e3o. Se as \u00e1rvores nos protegem do sol, como se pode pod\u00e1-las no ver\u00e3o? Essa mentalidade \u00e9 absurda. N\u00e3o consigo entender isso.  S. \u2013 Seu estilo de vida denota n\u00e3o apenas uma grande preocupa\u00e7\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia acerca de um tema que \u00e9 imprescind\u00edvel para o ordenamento do espa\u00e7o urbano de Feira de Santana: a mobilidade. A ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e de outros modais de transporte \u00e9 o caminho para tornar a cidade mais acess\u00edvel e mais humanizada? J.G. \u2013 Seria perfeito se todo mundo andasse de bicicleta, mas as pessoas daqui ainda acham que \u00e9 perigoso. Eu uso a minha bicicleta como meio de transporte h\u00e1 mais de sete anos e jamais tive problemas. Nos pa\u00edses de primeiro mundo, como Holanda e B\u00e9lgica, a bicicleta \u00e9 maioria. Aqui n\u00e3o. Aqui um indiv\u00edduo chega ao absurdo de comprar tr\u00eas carros. Ou\u00e7o reclama\u00e7\u00f5es constantes sobre o tr\u00e2nsito, mas, em geral, quem reclama tem tr\u00eas ou mais carros em casa. Ent\u00e3o, como podem falar mal se n\u00e3o d\u00e3o o exemplo? Quem pode falar mal s\u00e3o pessoas que, como eu, andam de bicicleta diariamente.  S. \u2013 Mas, de qualquer forma, \u00e9 dif\u00edcil transitar de bicicleta aqui, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim, mas se mais pessoas andassem de bicicleta, o poder p\u00fablico seria for\u00e7ado a construir ciclovias. Mas quem anda de bicicleta? Eu e os pedreiros (risos)! As pessoas n\u00e3o associam bicicleta a meio de transporte, e sim a lazer. \u00c9 preciso reverter esse pensamento. Como sou uma pessoa p\u00fablica, espero dar o exemplo, mas \u00e9 uma quest\u00e3o ainda muito complicada.  S. \u2013 E o transporte coletivo? J.G. \u2013 Esse \u00e9 um tema ainda mais pol\u00eamico, porque existe no Brasil uma esp\u00e9cie de apartheid violento, mas velado. A classe m\u00e9dia n\u00e3o anda em transporte coletivo e n\u00e3o o faz para n\u00e3o se misturar aos pobres. Prefere pegar t\u00e1xi ou andar a p\u00e9. Isso \u00e9 claro e not\u00f3rio. Se a classe m\u00e9dia pegasse \u00f4nibus, o transporte seria muito melhor. Em outras cidades, fora do Brasil, pessoas de todas as classes pegam \u00f4nibus e exigem o respeito aos seus direitos. Aqui, o transporte coletivo \u00e9 um dos piores do mundo e as pessoas n\u00e3o reclamam. Se as classes m\u00e9dia e alta pegassem \u00f4nibus, o servi\u00e7o seria melhor; se estudassem em col\u00e9gios p\u00fablicos, o ensino p\u00fablico seria melhor; se andassem a p\u00e9 nas ruas, a cidade n\u00e3o estaria esse caos. As classes mais abastadas simplesmente abandonaram a cidade, por isso ela est\u00e1 t\u00e3o degradada, violenta, suja e ocupada irregularmente por milhares de camel\u00f4s.  S. \u2013 Com algumas solu\u00e7\u00f5es simples, voc\u00ea conseguiu construir uma casa confort\u00e1vel, sustent\u00e1vel e tamb\u00e9m estilizada, j\u00e1 que aplicou nela diversas t\u00e9cnicas art\u00edsticas, como mosaico, pintura, azulejaria e artesanato. Qual a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia? J.G. \u2013 Para mim, uma casa \u00e9 como uma escultura. \u00c9 preciso ser modelada. A minha casa \u00e9 um exemplo disso, porque est\u00e1 em constante mudan\u00e7a. Por isso mesmo, digo que ela \u00e9 uma casa-vida. Eu idealizei um espa\u00e7o humano, onde fosse agrad\u00e1vel morar. Casa \u00e9 isso! Cada animal faz seu ninho \u00e0 sua maneira. O ser humano deveria fazer a mesma coisa. Cada pessoa deveria fazer sua casa de acordo com a sua personalidade. Seria maravilhoso se todos pudessem realizar isso, n\u00e3o? Meu sonho \u00e9 ter uma casa redonda. Uma casa redonda \u00e9 maravilhosa! N\u00e3o h\u00e1 \u00e2ngulos, a vista n\u00e3o esbarra em nada. Vi uma casa assim no Vale do Cap\u00e3o e adorei a ideia. Quero comprar um terreno l\u00e1 para fazer uma casinha assim. E n\u00e3o sai cara. Fica em torno de 11 mil reais. Quando as pessoas pensam numa casa, visualizam logo porcelanato, laje e diversos outros materiais, a\u00ed o or\u00e7amento vai para R$ 200 mil. Mas se a ideia \u00e9 fazer uma casa confort\u00e1vel para morar, isso pode ser feito de maneira mais simples. E nem por isso deixa de ser um espa\u00e7o vital. Casa \u00e9 para ser habitada! Tem gente que constr\u00f3i um pal\u00e1cio e n\u00e3o est\u00e1 em casa nunca. N\u00e3o entendo isso... N\u00e3o me vejo em uma casa convencional, nos moldes das casas que fazem aqui. Jamais viveria em uma casa com laje! Isso \u00e9 uma incoer\u00eancia, sobretudo quando se pensa que os term\u00f4metros marcam 40 graus. Minha casa n\u00e3o tem nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o e mesmo assim \u00e9 um o\u00e1sis no deserto. Fiz espa\u00e7os com grama e com terra, para a \u00e1gua penetrar. Canalizo a \u00e1gua da chuva para um po\u00e7o e a devolvo \u00e0 natureza molhando o jardim. Plantei \u00e1rvores na parte da frente e na parte de tr\u00e1s da casa e alguns arbustos nas laterais. N\u00e3o preciso de ar-condicionado, porque tenho uma casa que favorece a circula\u00e7\u00e3o do ar e, desse modo, consigo uma temperatura mais agrad\u00e1vel que em qualquer outra casa.  S. \u2013 Arte e decora\u00e7\u00e3o quase sempre andaram juntas. Como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o? J.G. \u2013 Eu gosto muito de arte popular, de coisas bonitas que tenham uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Empreguei algumas t\u00e9cnicas na minha casa, como essas que voc\u00ea citou anteriormente. Hoje, estou trabalhando com dois arquitetos em Feira, fazendo fontes para resid\u00eancias e mosaicos. Tamb\u00e9m tenho trabalhado muito com azulejaria, que est\u00e1 em evid\u00eancia no mercado atual. H\u00e1 muitas edifica\u00e7\u00f5es em Feira e \u00e9 um momento muito bom para n\u00f3s, artistas, porque as pessoas est\u00e3o investindo cada vez mais em arte aplicada, como por exemplo azulejos personalizados para espa\u00e7os gourmet, desenhos em mosaico para fundos de piscina. S\u00e3o coisas que antigamente eu n\u00e3o fazia, porque n\u00e3o havia mercado. Hoje, sim. E depois do evento Casa Cor Feira melhorou ainda mais.  S. \u2013 Seus quadros tamb\u00e9m s\u00e3o frequentemente requisitados para decora\u00e7\u00e3o. Algumas revistas de arquitetura, tanto baianas quanto nacionais, j\u00e1 publicaram fotos de espa\u00e7os residenciais decorados com telas de sua autoria. Em Feira, muitas cl\u00ednicas e resid\u00eancias t\u00eam trabalhos seus. O mercado feirense tamb\u00e9m est\u00e1 aberto para esse tipo de obra? J.G. \u2013 De fato, h\u00e1 muitas telas minhas espalhadas pela cidade. E isso desde os anos 90. Eu sempre vendi bem. Teve uma \u00e9poca que fazia cons\u00f3rcio de arte, o que me ajudou muito a sobreviver em per\u00edodos dif\u00edceis, de grande infla\u00e7\u00e3o. Por isso voc\u00ea vai ver muitos quadros meus na cidade. Muitas vezes eu tamb\u00e9m trocava servi\u00e7o, porque, para mim, minhas telas s\u00e3o como uma moeda, de modo que at\u00e9 hoje fa\u00e7o trocas.  S. \u2013 Voc\u00ea trabalha em um ateli\u00ea que est\u00e1 localizado em um dos poucos pr\u00e9dios hist\u00f3ricos da cidade. Como se sente trabalhando nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 A sala onde est\u00e1 situada a OCA, Oficinas de Cria\u00e7\u00e3o Art\u00edstica do Centro Universit\u00e1rio de Cultura e Arte, \u00e9 um por\u00e3o que passou muitos anos aterrado. H\u00e1 outro pr\u00e9dio id\u00eantico do outro lado que ainda est\u00e1 aterrado, s\u00f3 sendo poss\u00edvel entrar nele agachado. Esse daqui foi escavado e disponibilizado, mas ningu\u00e9m quis utilizar, sobretudo por causa do mofo e dos \u00e1caros. Para mim, foi \u00f3timo, porque \u00e9 um espa\u00e7o muito legal, mesmo n\u00e3o sendo muito bom para a pintura, em fun\u00e7\u00e3o da pouca ilumina\u00e7\u00e3o. Tentei compensar isso instalando refletores, mas ainda n\u00e3o \u00e9 o ideal, porque as condi\u00e7\u00f5es de luminosidade mudam muito as cores, mas tem um clima que me agrada, um clima criativo, de mosteiro, de sil\u00eancio. Eu gosto muito de trabalhar aqui.  S. \u2013 Quais projetos s\u00e3o desenvolvidos nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 S\u00e3o realizadas oficinas de pintura, desenho, cer\u00e2mica, escultura, fotografia e arte para crian\u00e7as. Aqui produzi as esculturas da s\u00e9rie P\u00e1ssaros Furiosos e pretendo retomar o trabalho com terracota, porque h\u00e1 um forno maravilhoso, que est\u00e1 sendo subutilizado. Tenho muita vontade de implantar tamb\u00e9m um projeto de cinema, para exibir filmes de arte pelo menos uma vez por semana. Outra ideia \u00e9 utilizar esse espa\u00e7o para realizar lan\u00e7amentos de livros e sess\u00f5es de Jazz. Esses projetos j\u00e1 foram passados para a diretoria da institui\u00e7\u00e3o e est\u00e3o sendo amadurecidos.  S. \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o de Feira de Santana com o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico? J.G. \u2013 Praticamente n\u00e3o h\u00e1 mais patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico em Feira de Santana. Esse pr\u00e9dio, por exemplo, quase foi demolido. Na \u00e9poca, funcionava aqui apenas o Semin\u00e1rio de M\u00fasica de Feira de Santana, mas de modo prec\u00e1rio, j\u00e1 que n\u00e3o havia luz e a estrutura estava caindo aos peda\u00e7os. Foi ent\u00e3o que o professor Josu\u00e9 Mello, ex-reitor da Uefs, tomou a iniciativa de implantar aqui esse centro de artes, uma ideia realmente brilhante, que muito contribui para impulsionar a cultura na cidade. Al\u00e9m desse pr\u00e9dio onde o Cuca est\u00e1 instalado e do Casar\u00e3o Fr\u00f3es da Motta, tamb\u00e9m restaurado, s\u00f3 me lembro de mais duas ou tr\u00eas edifica\u00e7\u00f5es antigas, que n\u00e3o sei at\u00e9 quando permanecer\u00e3o de p\u00e9. Isso \u00e9 um absurdo! Nos anos 90, li, em um famoso jornal da cidade, um artigo de um jornalista que defendia a ideia de que \u201clugar de velharia \u00e9 no museu\u201d. Sob esse argumento desprez\u00edvel, ele afirmava a necessidade de todos os pr\u00e9dios antigos serem demolidos para darem lugar ao \u201cprogresso\u201d. Eu tento dar a minha contribui\u00e7\u00e3o, mas fico realmente horrorizado. Aqui ao lado havia v\u00e1rias casas muito bonitas, que foram demolidas para nada, para darem lugar a prediozinhos quadrados, que n\u00e3o s\u00e3o nada, que se transformaram em lojas chinesas, estacionamentos... Isso \u00e9 terr\u00edvel! A cidade n\u00e3o tem mem\u00f3ria mais. Feira tinha tudo para ser uma cidade \u00fanica, com mananciais de \u00e1gua pura, com casarios antigos... Se os comerciantes fossem minimamente inteligentes, teriam aproveitado as fachadas de todas as casas. Isso atrairia clientes e turistas, que viriam ver a cidade. Essa ideia de moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 equivocada. N\u00e3o \u00e9 moderno destruir o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico. \u00c9 moderno mant\u00ea-lo e harmoniz\u00e1-lo com o tempo presente.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, o que \u00e9 necess\u00e1rio mudar em Feira de Santana? J.G. \u2013 Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada. O tr\u00e2nsito \u00e9 ca\u00f3tico, as pessoas n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo de paci\u00eancia. Falta solidariedade. Solidariedade com o vizinho, com os idosos, com a rua onde se mora, com a pr\u00f3pria cidade. S\u00f3 assim Feira poder\u00e1 ser melhor no futuro.     Entrevista publicada na vers\u00e3o impressa da revista Sacada.\" target=\"_blank\">S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, Feira de Santana ainda trabalha mal a quest\u00e3o ambiental?<br \/>\n<\/a><\/strong><strong>J.G. \u2013<\/strong> N\u00e3o trabalha! Sinceramente? N\u00e3o trabalha! Uma vez, n\u00e3o lembro quando, vi um secret\u00e1rio de meio ambiente afirmar que \u201cquando algu\u00e9m planta uma \u00e1rvore, est\u00e1 plantando um problema\u201d. Se um secret\u00e1rio de meio ambiente diz isso, o que se pode esperar da popula\u00e7\u00e3o? Se h\u00e1 apenas uma \u00e1rvore, todas as pessoas ficam embaixo, como se ela fosse um guarda-sol. Ningu\u00e9m pensa em plantar outras&#8230; Aqui, as \u00e1rvores s\u00e3o podadas no ver\u00e3o. Se as \u00e1rvores nos protegem do sol, como se pode pod\u00e1-las no ver\u00e3o? Essa mentalidade \u00e9 absurda. N\u00e3o consigo entender isso.<\/p>\n<p><strong><a href=\"adicado%20em Feira de Santana h\u00e1 mais de 20 anos, o artista pl\u00e1stico argentino Jorge Galeano construiu aqui, nas cercanias do bairro Pampalona, o seu pequeno ref\u00fagio tropical, fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o de telas que chamam a aten\u00e7\u00e3o pela exuber\u00e2ncia.  Povoadas por personagens m\u00edticas e paisagens envolventes, pintadas quase sempre com cores quentes e vibrantes, as obras de Galeano ganharam destaque internacional. Em mar\u00e7o de 2014, convidado pela Secretaria de Cultura de Cuenca, o artista exp\u00f4s no Equador a s\u00e9rie Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico, em que voltou a trabalhar o tema do desmatamento e da destrui\u00e7\u00e3o da natureza.  Em entrevista \u00e0 revista Sacada, o artista, que h\u00e1 muito tamb\u00e9m trabalha com arte aplicada \u00e0 decora\u00e7\u00e3o, juntamente com renomados arquitetos que atuam na cidade, falou sobre o in\u00edcio da carreira, sobre a vinda ao Brasil, sobre a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia e sobre as t\u00e9cnicas art\u00edsticas e artesanais que desenvolveu ao longo da carreira, como \u00e9 o caso da azulejaria, do mosaico e da escultura em terracota.  Galeano abordou ainda quest\u00f5es caras ao seu estilo de vida e ao seu cotidiano, como a sustentabilidade, a preserva\u00e7\u00e3o ambiental e a mobilidade urbana. Em rela\u00e7\u00e3o a Feira de Santana, cidade que escolheu para viver e onde come\u00e7ou a pintar, o artista falou sobre a destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico, sobre o funcionamento da cidade, sobre os projetos art\u00edsticos que desenvolve aqui e sobre o sonho de transformar a sua casa em um centro de artes para crian\u00e7as carentes.   Sacada \u2013 Como come\u00e7ou nas artes pl\u00e1sticas? Jorge Galeano \u2013 Com 17 ou 18 anos, \u00e9poca do movimento hippie, eu tinha uma moto e viajava pela Argentina vendendo artesanato e outras obras. Esse foi meu primeiro contato com a arte. Eu sou um artista que \u2013 por ter sido artes\u00e3o e por ter trabalhado com v\u00e1rios materiais, como madeira, couro e metais \u2013 aprendeu a dominar as pr\u00f3prias m\u00e3os. Se eu tiver que utilizar o ferro para realizar um trabalho, n\u00e3o preciso mandar fazer, porque sei como se faz, sei trabalhar com solda, assim como sei esculpir uma madeira. Ent\u00e3o, isso deu uma versatilidade maior \u00e0 minha obra. Atualmente, estou trabalhando com azulejaria e sei como funciona um forno, sei qual \u00e9 a temperatura, o material que preciso usar, porque j\u00e1 trabalhei com o esmalte de alta temperatura quando era ainda um artes\u00e3o. Isso \u00e9 uma grande vantagem, porque \u00e9 dif\u00edcil voc\u00ea encontrar um artista que domine os materiais, que saiba qual \u00e9 a ferramenta pr\u00f3pria para moldar cada um deles. Muitas vezes, os artistas apenas fazem os projetos e mandam executar tudo.  S. \u2013 Mas, al\u00e9m dessa forma\u00e7\u00e3o autodidata inicial, voc\u00ea tamb\u00e9m cursou a faculdade de Belas Artes na Argentina, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim. Entrei na Escola de Belas Artes com 19 anos. E ali descobri realmente o meu mundo, porque encontrei uma centena de pessoas parecidas comigo. Foi um per\u00edodo maravilhoso. Como era artes\u00e3o, os professores me levavam como ajudante. Foi a\u00ed que comecei a ver como era esculpir, como era fazer um afresco numa parede. A partir disso, comecei a trabalhar restaurando pinturas em igrejas, sempre para pagar meus estudos. Fui adquirindo um conhecimento pr\u00e1tico grande em todas as t\u00e9cnicas, principalmente na aquarela, que hoje utilizo mais. Quando me formei, em 1978, a Argentina estava sob dom\u00ednio militar. Foi a \u00e9poca mais dura vivenciada pelos argentinos (entre 1976 e 1983 os militares assassinaram cerca de 30 mil civis, entre eles crian\u00e7as e idosos, segundo estimativas de ONGs argentinas e organismos internacionais de defesa dos Direitos Humanos). Ent\u00e3o, muita gente acabou saindo do pa\u00eds. Eu n\u00e3o sa\u00ed por causa da Ditadura, mas o clima estava t\u00e3o pesado que decidi sair e viajar pelo mundo. Muitos amigos meus foram para a Europa. Eu sa\u00ed junto com um quinteto de m\u00fasica latino-americana, porque tamb\u00e9m sou m\u00fasico. Viajamos pela costa do Brasil, passamos pela Amaz\u00f4nia e entramos no Peru, onde o pessoal come\u00e7ou a se dispersar. Uns foram para o M\u00e9xico, outros para a Europa e eu voltei sozinho para o Brasil, mais especificamente para a Bahia, porque tinha gostado muito daqui. Em Salvador, fiz a minha primeira exposi\u00e7\u00e3o, com a artista pl\u00e1stica L\u00edgia Aguiar. Assim comecei a minha carreira art\u00edstica, ainda sem uma linguagem pr\u00f3pria, com muitas influ\u00eancias... S\u00f3 em Feira de Santana, quando me mudei para c\u00e1 com minha filha, que tinha um ano \u00e0 \u00e9poca, \u00e9 que comecei realmente a pintar. Posso dizer, ent\u00e3o, que sou um pintor feirense, mas feirense mesmo. \u00c0s vezes, \u00e9 doloroso para mim que fa\u00e7am homenagens a pintores feirenses e n\u00e3o incluam o meu nome. Eu comecei a pintar aqui, como Caryb\u00e9 come\u00e7ou a pintar em Salvador. E ningu\u00e9m diria que Caryb\u00e9 \u00e9 argentino... Caryb\u00e9 \u00e9 um artista baiano. Apesar de a arte ser completamente cosmopolita, internacional e globalizada, fa\u00e7o quest\u00e3o de dizer que comecei a pintar em Feira de Santana.  S. \u2013 Ao longo desses anos, foram muitas exposi\u00e7\u00f5es. Queria que falasse um pouco sobre a sua trajet\u00f3ria. J.G. \u2013 Quando comecei a expor em Feira, as pessoas passaram a conhecer o meu nome. J\u00e1 tinha sa\u00eddo um pouco do regional... Foi quando concorri a um cartaz da Micareta, em 1991, ganhando o primeiro pr\u00eamio. Foi um estardalha\u00e7o enorme, saiu em televis\u00e3o, em jornais locais, repercutindo at\u00e9 mesmo no sul do pa\u00eds. E isso me deu um nome. A partir da\u00ed, comecei a me lan\u00e7ar mais como Galeano.  S. \u2013 Al\u00e9m de trabalhar com pintura tradicional sobre tela, voc\u00ea trabalha com outros suportes. Produz azulejos, mosaicos, esculturas em terracota e interven\u00e7\u00f5es art\u00edsticas em bancos de pra\u00e7a, ruas, tapumes. Fale um pouco sobre esses trabalhos. J.G. \u2013 O grafismo de rua nos tapumes que cercam o Museu Regional de Arte de Feira de Santana, atualmente em reforma, foi feito durante o Aberto do CUCA, um evento de arte produzido pelo centro. O interessante \u00e9 que teve a participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Fiz um desenho como quem desenha no ar, s\u00f3 com fita adesiva. Depois, convidei as crian\u00e7as e os adultos presentes a pintarem sobre a \u00e1rea que eu tinha coberto. Quando acabaram, tirei as fitas e o resultado foi exatamente um desenho que tinha projetado na mente, mas que, inicialmente, n\u00e3o sabia como iria ficar. Um trabalho fant\u00e1stico! Tenho outras obras em pr\u00e9dios p\u00fablicos, como por exemplo na Capela Nossa Senhora do Carmo, localizada no bairro Serraria Brasil, onde fiz um grande painel em mosaico. Coloquei pedrinha por pedrinha. Eu e o pedreiro ficamos pendurados l\u00e1 uma semana. E olha que morro de medo de altura (risos)! Tamb\u00e9m deveria ter um trabalho monumental meu na rodovi\u00e1ria de Feira de Santana, porque, em 2005, ganhei o Pr\u00eamio Portal do Sert\u00e3o, promovido pela Sinart (Sociedade Nacional de Apoio Rodovi\u00e1rio Tur\u00edstico), Prefeitura de Feira de Santana e Uefs, para criar um painel intitulado Boa viagem. Essa obra teria 30 metros quadrados de \u00e1rea e seria instalado numa das paredes laterais da Esta\u00e7\u00e3o Rodovi\u00e1ria, na Avenida Presidente Dutra. Uma TV local fez uma mat\u00e9ria comigo, os jornais e sites noticiaram, recebi o pagamento, mas, infelizmente, n\u00e3o viabilizaram a obra. E no lugar constru\u00edram v\u00e1rios boxes comerciais. Tenho obras tamb\u00e9m em pr\u00e9dios privados, como \u00e9 o caso da Galeria Carmac, onde pintei um grande painel, e no Edif\u00edcio Sawaya, onde fiz um trabalho em mosaico.  S. \u2013 Voc\u00ea produziu uma s\u00e9rie de esculturas em terracota. Foi a primeira vez que trabalhou com esse material? J.G. \u2013 Sim. Eu estava trabalhando muito com a natureza, quer dizer, com o que resta da natureza... Criei, ent\u00e3o, um conjunto de esculturas em terracota, ao qual dei o nome de P\u00e1ssaros Furiosos. S\u00e3o p\u00e1ssaros com express\u00f5es de preocupa\u00e7\u00e3o, histeria e f\u00faria, porque s\u00e3o bichos que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam mais \u00e1rvores, que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam onde morar. \u00c9 uma s\u00e9rie muito legal, uma esp\u00e9cie de Movimento dos P\u00e1ssaros Sem-teto (risos).  S. \u2013 E s\u00e3o pe\u00e7as com uma clara influ\u00eancia da arte andina... J.G. \u2013 Sim, tamb\u00e9m. Mas isso foi bem inconsciente, porque, quando se come\u00e7a a produzir um trabalho, n\u00e3o se pensa na origem, mas, de alguma forma, ela vem \u00e0 tona. S\u00e3o \u00edcones, arqu\u00e9tipos, ra\u00edzes culturais, com os quais voltei a me reencontrar recentemente quando realizei uma exposi\u00e7\u00e3o em Cuenca, no Equador.  S. \u2013 A exposi\u00e7\u00e3o individual Tr\u00f3pico Ut\u00f3pico trata de que tema, especificamente? J.G. \u2013 Essa s\u00e9rie, composta por 20 telas confeccionadas em pequeno formato (40 cm x 40 cm), nasceu, assim como a Su\u00edte Pampalona, realizada anteriormente a partir do jardim que constru\u00ed em minha casa. Quando cheguei ao bairro onde moro, n\u00e3o havia nada. Era uma terra completamente pelada. Foi ent\u00e3o que tive a ideia de cavar um po\u00e7o artesiano e de replantar as esp\u00e9cies da mata nativa. Comecei a criar o meu mundo. Quando as \u00e1rvores e plantas cresceram, animais como sarigu\u00eas, micos, p\u00e1ssaros e aranhas voltaram naturalmente ao lugar de origem. Hoje, meu jardim \u00e9 um espa\u00e7o vivo, \u00e9 a minha utopia. E \u00e9 nele que me inspiro para criar meus quadros. Mas n\u00e3o criei esse jardim para mim mesmo. Eu o criei para os idosos sentarem, para os jovens namorarem, para as crian\u00e7as brincarem. Por isso, em frente \u00e0 minha casa, fiz tamb\u00e9m uma pequena pra\u00e7a. Pensei que isso iria inspirar os vizinhos a copiarem a ideia, a plantarem mais \u00e1rvores, mas ningu\u00e9m fez isso. Ao contr\u00e1rio, cortaram as outras \u00e1rvores que existiam nas proximidades, de modo que o meu jardim subsistiu como uma esp\u00e9cie de ilha. \u00c9 absurda a rela\u00e7\u00e3o que as pessoas t\u00eam com a natureza aqui em Feira de Santana. Na cultura andina, as pessoas t\u00eam um respeito muito grande pelo solo, pela Pachamama, como eles chamam a m\u00e3e terra. S\u00e3o incapazes de cortar uma \u00e1rvore, a n\u00e3o ser que seja estritamente necess\u00e1rio. E essa conscientiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma luta constante para mim, de modo que, no futuro, gostaria de transformar a minha casa em uma esp\u00e9cie de funda\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as e adolescentes que vivem nas redondezas e nos bairros mais afastados da cidade. Com isso, eles poderiam ter acesso a uma biblioteca, a aulas de pintura e a outras atividades art\u00edsticas.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, Feira de Santana ainda trabalha mal a quest\u00e3o ambiental? J.G. \u2013 N\u00e3o trabalha! Sinceramente? N\u00e3o trabalha! Uma vez, n\u00e3o lembro quando, vi um secret\u00e1rio de meio ambiente afirmar que \u201cquando algu\u00e9m planta uma \u00e1rvore, est\u00e1 plantando um problema\u201d. Se um secret\u00e1rio de meio ambiente diz isso, o que se pode esperar da popula\u00e7\u00e3o? Se h\u00e1 apenas uma \u00e1rvore, todas as pessoas ficam embaixo, como se ela fosse um guarda-sol. Ningu\u00e9m pensa em plantar outras... Aqui, as \u00e1rvores s\u00e3o podadas no ver\u00e3o. Se as \u00e1rvores nos protegem do sol, como se pode pod\u00e1-las no ver\u00e3o? Essa mentalidade \u00e9 absurda. N\u00e3o consigo entender isso.  S. \u2013 Seu estilo de vida denota n\u00e3o apenas uma grande preocupa\u00e7\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia acerca de um tema que \u00e9 imprescind\u00edvel para o ordenamento do espa\u00e7o urbano de Feira de Santana: a mobilidade. A ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e de outros modais de transporte \u00e9 o caminho para tornar a cidade mais acess\u00edvel e mais humanizada? J.G. \u2013 Seria perfeito se todo mundo andasse de bicicleta, mas as pessoas daqui ainda acham que \u00e9 perigoso. Eu uso a minha bicicleta como meio de transporte h\u00e1 mais de sete anos e jamais tive problemas. Nos pa\u00edses de primeiro mundo, como Holanda e B\u00e9lgica, a bicicleta \u00e9 maioria. Aqui n\u00e3o. Aqui um indiv\u00edduo chega ao absurdo de comprar tr\u00eas carros. Ou\u00e7o reclama\u00e7\u00f5es constantes sobre o tr\u00e2nsito, mas, em geral, quem reclama tem tr\u00eas ou mais carros em casa. Ent\u00e3o, como podem falar mal se n\u00e3o d\u00e3o o exemplo? Quem pode falar mal s\u00e3o pessoas que, como eu, andam de bicicleta diariamente.  S. \u2013 Mas, de qualquer forma, \u00e9 dif\u00edcil transitar de bicicleta aqui, n\u00e3o? J.G. \u2013 Sim, mas se mais pessoas andassem de bicicleta, o poder p\u00fablico seria for\u00e7ado a construir ciclovias. Mas quem anda de bicicleta? Eu e os pedreiros (risos)! As pessoas n\u00e3o associam bicicleta a meio de transporte, e sim a lazer. \u00c9 preciso reverter esse pensamento. Como sou uma pessoa p\u00fablica, espero dar o exemplo, mas \u00e9 uma quest\u00e3o ainda muito complicada.  S. \u2013 E o transporte coletivo? J.G. \u2013 Esse \u00e9 um tema ainda mais pol\u00eamico, porque existe no Brasil uma esp\u00e9cie de apartheid violento, mas velado. A classe m\u00e9dia n\u00e3o anda em transporte coletivo e n\u00e3o o faz para n\u00e3o se misturar aos pobres. Prefere pegar t\u00e1xi ou andar a p\u00e9. Isso \u00e9 claro e not\u00f3rio. Se a classe m\u00e9dia pegasse \u00f4nibus, o transporte seria muito melhor. Em outras cidades, fora do Brasil, pessoas de todas as classes pegam \u00f4nibus e exigem o respeito aos seus direitos. Aqui, o transporte coletivo \u00e9 um dos piores do mundo e as pessoas n\u00e3o reclamam. Se as classes m\u00e9dia e alta pegassem \u00f4nibus, o servi\u00e7o seria melhor; se estudassem em col\u00e9gios p\u00fablicos, o ensino p\u00fablico seria melhor; se andassem a p\u00e9 nas ruas, a cidade n\u00e3o estaria esse caos. As classes mais abastadas simplesmente abandonaram a cidade, por isso ela est\u00e1 t\u00e3o degradada, violenta, suja e ocupada irregularmente por milhares de camel\u00f4s.  S. \u2013 Com algumas solu\u00e7\u00f5es simples, voc\u00ea conseguiu construir uma casa confort\u00e1vel, sustent\u00e1vel e tamb\u00e9m estilizada, j\u00e1 que aplicou nela diversas t\u00e9cnicas art\u00edsticas, como mosaico, pintura, azulejaria e artesanato. Qual a sua concep\u00e7\u00e3o de moradia? J.G. \u2013 Para mim, uma casa \u00e9 como uma escultura. \u00c9 preciso ser modelada. A minha casa \u00e9 um exemplo disso, porque est\u00e1 em constante mudan\u00e7a. Por isso mesmo, digo que ela \u00e9 uma casa-vida. Eu idealizei um espa\u00e7o humano, onde fosse agrad\u00e1vel morar. Casa \u00e9 isso! Cada animal faz seu ninho \u00e0 sua maneira. O ser humano deveria fazer a mesma coisa. Cada pessoa deveria fazer sua casa de acordo com a sua personalidade. Seria maravilhoso se todos pudessem realizar isso, n\u00e3o? Meu sonho \u00e9 ter uma casa redonda. Uma casa redonda \u00e9 maravilhosa! N\u00e3o h\u00e1 \u00e2ngulos, a vista n\u00e3o esbarra em nada. Vi uma casa assim no Vale do Cap\u00e3o e adorei a ideia. Quero comprar um terreno l\u00e1 para fazer uma casinha assim. E n\u00e3o sai cara. Fica em torno de 11 mil reais. Quando as pessoas pensam numa casa, visualizam logo porcelanato, laje e diversos outros materiais, a\u00ed o or\u00e7amento vai para R$ 200 mil. Mas se a ideia \u00e9 fazer uma casa confort\u00e1vel para morar, isso pode ser feito de maneira mais simples. E nem por isso deixa de ser um espa\u00e7o vital. Casa \u00e9 para ser habitada! Tem gente que constr\u00f3i um pal\u00e1cio e n\u00e3o est\u00e1 em casa nunca. N\u00e3o entendo isso... N\u00e3o me vejo em uma casa convencional, nos moldes das casas que fazem aqui. Jamais viveria em uma casa com laje! Isso \u00e9 uma incoer\u00eancia, sobretudo quando se pensa que os term\u00f4metros marcam 40 graus. Minha casa n\u00e3o tem nenhuma sofistica\u00e7\u00e3o e mesmo assim \u00e9 um o\u00e1sis no deserto. Fiz espa\u00e7os com grama e com terra, para a \u00e1gua penetrar. Canalizo a \u00e1gua da chuva para um po\u00e7o e a devolvo \u00e0 natureza molhando o jardim. Plantei \u00e1rvores na parte da frente e na parte de tr\u00e1s da casa e alguns arbustos nas laterais. N\u00e3o preciso de ar-condicionado, porque tenho uma casa que favorece a circula\u00e7\u00e3o do ar e, desse modo, consigo uma temperatura mais agrad\u00e1vel que em qualquer outra casa.  S. \u2013 Arte e decora\u00e7\u00e3o quase sempre andaram juntas. Como voc\u00ea v\u00ea essa rela\u00e7\u00e3o? J.G. \u2013 Eu gosto muito de arte popular, de coisas bonitas que tenham uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Empreguei algumas t\u00e9cnicas na minha casa, como essas que voc\u00ea citou anteriormente. Hoje, estou trabalhando com dois arquitetos em Feira, fazendo fontes para resid\u00eancias e mosaicos. Tamb\u00e9m tenho trabalhado muito com azulejaria, que est\u00e1 em evid\u00eancia no mercado atual. H\u00e1 muitas edifica\u00e7\u00f5es em Feira e \u00e9 um momento muito bom para n\u00f3s, artistas, porque as pessoas est\u00e3o investindo cada vez mais em arte aplicada, como por exemplo azulejos personalizados para espa\u00e7os gourmet, desenhos em mosaico para fundos de piscina. S\u00e3o coisas que antigamente eu n\u00e3o fazia, porque n\u00e3o havia mercado. Hoje, sim. E depois do evento Casa Cor Feira melhorou ainda mais.  S. \u2013 Seus quadros tamb\u00e9m s\u00e3o frequentemente requisitados para decora\u00e7\u00e3o. Algumas revistas de arquitetura, tanto baianas quanto nacionais, j\u00e1 publicaram fotos de espa\u00e7os residenciais decorados com telas de sua autoria. Em Feira, muitas cl\u00ednicas e resid\u00eancias t\u00eam trabalhos seus. O mercado feirense tamb\u00e9m est\u00e1 aberto para esse tipo de obra? J.G. \u2013 De fato, h\u00e1 muitas telas minhas espalhadas pela cidade. E isso desde os anos 90. Eu sempre vendi bem. Teve uma \u00e9poca que fazia cons\u00f3rcio de arte, o que me ajudou muito a sobreviver em per\u00edodos dif\u00edceis, de grande infla\u00e7\u00e3o. Por isso voc\u00ea vai ver muitos quadros meus na cidade. Muitas vezes eu tamb\u00e9m trocava servi\u00e7o, porque, para mim, minhas telas s\u00e3o como uma moeda, de modo que at\u00e9 hoje fa\u00e7o trocas.  S. \u2013 Voc\u00ea trabalha em um ateli\u00ea que est\u00e1 localizado em um dos poucos pr\u00e9dios hist\u00f3ricos da cidade. Como se sente trabalhando nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 A sala onde est\u00e1 situada a OCA, Oficinas de Cria\u00e7\u00e3o Art\u00edstica do Centro Universit\u00e1rio de Cultura e Arte, \u00e9 um por\u00e3o que passou muitos anos aterrado. H\u00e1 outro pr\u00e9dio id\u00eantico do outro lado que ainda est\u00e1 aterrado, s\u00f3 sendo poss\u00edvel entrar nele agachado. Esse daqui foi escavado e disponibilizado, mas ningu\u00e9m quis utilizar, sobretudo por causa do mofo e dos \u00e1caros. Para mim, foi \u00f3timo, porque \u00e9 um espa\u00e7o muito legal, mesmo n\u00e3o sendo muito bom para a pintura, em fun\u00e7\u00e3o da pouca ilumina\u00e7\u00e3o. Tentei compensar isso instalando refletores, mas ainda n\u00e3o \u00e9 o ideal, porque as condi\u00e7\u00f5es de luminosidade mudam muito as cores, mas tem um clima que me agrada, um clima criativo, de mosteiro, de sil\u00eancio. Eu gosto muito de trabalhar aqui.  S. \u2013 Quais projetos s\u00e3o desenvolvidos nesse espa\u00e7o? J.G. \u2013 S\u00e3o realizadas oficinas de pintura, desenho, cer\u00e2mica, escultura, fotografia e arte para crian\u00e7as. Aqui produzi as esculturas da s\u00e9rie P\u00e1ssaros Furiosos e pretendo retomar o trabalho com terracota, porque h\u00e1 um forno maravilhoso, que est\u00e1 sendo subutilizado. Tenho muita vontade de implantar tamb\u00e9m um projeto de cinema, para exibir filmes de arte pelo menos uma vez por semana. Outra ideia \u00e9 utilizar esse espa\u00e7o para realizar lan\u00e7amentos de livros e sess\u00f5es de Jazz. Esses projetos j\u00e1 foram passados para a diretoria da institui\u00e7\u00e3o e est\u00e3o sendo amadurecidos.  S. \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o de Feira de Santana com o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico? J.G. \u2013 Praticamente n\u00e3o h\u00e1 mais patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico em Feira de Santana. Esse pr\u00e9dio, por exemplo, quase foi demolido. Na \u00e9poca, funcionava aqui apenas o Semin\u00e1rio de M\u00fasica de Feira de Santana, mas de modo prec\u00e1rio, j\u00e1 que n\u00e3o havia luz e a estrutura estava caindo aos peda\u00e7os. Foi ent\u00e3o que o professor Josu\u00e9 Mello, ex-reitor da Uefs, tomou a iniciativa de implantar aqui esse centro de artes, uma ideia realmente brilhante, que muito contribui para impulsionar a cultura na cidade. Al\u00e9m desse pr\u00e9dio onde o Cuca est\u00e1 instalado e do Casar\u00e3o Fr\u00f3es da Motta, tamb\u00e9m restaurado, s\u00f3 me lembro de mais duas ou tr\u00eas edifica\u00e7\u00f5es antigas, que n\u00e3o sei at\u00e9 quando permanecer\u00e3o de p\u00e9. Isso \u00e9 um absurdo! Nos anos 90, li, em um famoso jornal da cidade, um artigo de um jornalista que defendia a ideia de que \u201clugar de velharia \u00e9 no museu\u201d. Sob esse argumento desprez\u00edvel, ele afirmava a necessidade de todos os pr\u00e9dios antigos serem demolidos para darem lugar ao \u201cprogresso\u201d. Eu tento dar a minha contribui\u00e7\u00e3o, mas fico realmente horrorizado. Aqui ao lado havia v\u00e1rias casas muito bonitas, que foram demolidas para nada, para darem lugar a prediozinhos quadrados, que n\u00e3o s\u00e3o nada, que se transformaram em lojas chinesas, estacionamentos... Isso \u00e9 terr\u00edvel! A cidade n\u00e3o tem mem\u00f3ria mais. Feira tinha tudo para ser uma cidade \u00fanica, com mananciais de \u00e1gua pura, com casarios antigos... Se os comerciantes fossem minimamente inteligentes, teriam aproveitado as fachadas de todas as casas. Isso atrairia clientes e turistas, que viriam ver a cidade. Essa ideia de moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 equivocada. N\u00e3o \u00e9 moderno destruir o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico. \u00c9 moderno mant\u00ea-lo e harmoniz\u00e1-lo com o tempo presente.  S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, o que \u00e9 necess\u00e1rio mudar em Feira de Santana? J.G. \u2013 Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada. O tr\u00e2nsito \u00e9 ca\u00f3tico, as pessoas n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo de paci\u00eancia. Falta solidariedade. Solidariedade com o vizinho, com os idosos, com a rua onde se mora, com a pr\u00f3pria cidade. S\u00f3 assim Feira poder\u00e1 ser melhor no futuro.     Entrevista publicada na vers\u00e3o impressa da revista Sacada.\" target=\"_blank\">S. \u2013 Seu estilo de vida denota n\u00e3o apenas uma grande preocupa\u00e7\u00e3o ambiental, mas tamb\u00e9m a consci\u00eancia acerca de um tema que \u00e9 imprescind\u00edvel para o ordenamento do espa\u00e7o urbano de Feira de Santana: a mobilidade. A ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e de outros modais de transporte \u00e9 o caminho para tornar a cidade mais acess\u00edvel e mais humanizada?<\/a><br \/>\nJ.G. \u2013<\/strong> Seria perfeito se todo mundo andasse de bicicleta, mas as pessoas daqui ainda acham que \u00e9 perigoso. Eu uso a minha bicicleta como meio de transporte h\u00e1 mais de sete anos e jamais tive problemas. Nos pa\u00edses de primeiro mundo, como Holanda e B\u00e9lgica, a bicicleta \u00e9 maioria. Aqui n\u00e3o. Aqui um indiv\u00edduo chega ao absurdo de comprar tr\u00eas carros. Ou\u00e7o reclama\u00e7\u00f5es constantes sobre o tr\u00e2nsito, mas, em geral, quem reclama tem tr\u00eas ou mais carros em casa. Ent\u00e3o, como podem falar mal se n\u00e3o d\u00e3o o exemplo? Quem pode falar mal s\u00e3o pessoas que, como eu, andam de bicicleta diariamente.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/revistasacada.com.br\/noticias\/533\/feira-de-santana-precisa-se-tornar-uma-cidade-mais-humanizada-alerta-o-artista-plastico-jorge-galeano.html\" target=\"_blank\">S. \u2013 Mas, de qualquer forma, \u00e9 dif\u00edcil transitar de bicicleta aqui, n\u00e3o?<\/a><br \/>\nJ.G. \u2013<\/strong> Sim, mas se mais pessoas andassem de bicicleta, o poder p\u00fablico seria for\u00e7ado a construir ciclovias. Mas quem anda de bicicleta? Eu e os pedreiros (risos)! As pessoas n\u00e3o associam bicicleta a meio de transporte, e sim a lazer. \u00c9 preciso reverter esse pensamento. Como sou uma pessoa p\u00fablica, espero dar o exemplo, mas \u00e9 uma quest\u00e3o ainda muito complicada.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/revistasacada.com.br\/noticias\/533\/feira-de-santana-precisa-se-tornar-uma-cidade-mais-humanizada-alerta-o-artista-plastico-jorge-galeano.html\" target=\"_blank\">S. \u2013 E o transporte coletivo?<\/a><br \/>\nJ.G. \u2013<\/strong> Esse \u00e9 um tema ainda mais pol\u00eamico, porque existe no Brasil uma esp\u00e9cie de apartheid violento, mas velado. A classe m\u00e9dia n\u00e3o anda em transporte coletivo e n\u00e3o o faz para n\u00e3o se misturar aos pobres. Prefere pegar t\u00e1xi ou andar a p\u00e9. Isso \u00e9 claro e not\u00f3rio. Se a classe m\u00e9dia pegasse \u00f4nibus, o transporte seria muito melhor. Em outras cidades, fora do Brasil, pessoas de todas as classes pegam \u00f4nibus e exigem o respeito aos seus direitos. Aqui, o transporte coletivo \u00e9 um dos piores do mundo e as pessoas n\u00e3o reclamam. Se as classes m\u00e9dia e alta pegassem \u00f4nibus, o servi\u00e7o seria melhor; se estudassem em col\u00e9gios p\u00fablicos, o ensino p\u00fablico seria melhor; se andassem a p\u00e9 nas ruas, a cidade n\u00e3o estaria esse caos. As classes mais abastadas simplesmente abandonaram a cidade, por isso ela est\u00e1 t\u00e3o degradada, violenta, suja e ocupada irregularmente por milhares de camel\u00f4s.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/revistasacada.com.br\/noticias\/533\/feira-de-santana-precisa-se-tornar-uma-cidade-mais-humanizada-alerta-o-artista-plastico-jorge-galeano.html\" target=\"_blank\">S. \u2013 Seus quadros tamb\u00e9m s\u00e3o frequentemente requisitados para decora\u00e7\u00e3o. Algumas revistas de arquitetura, tanto baianas quanto nacionais, j\u00e1 publicaram fotos de espa\u00e7os residenciais decorados com telas de sua autoria. Em Feira, muitas cl\u00ednicas e resid\u00eancias t\u00eam trabalhos seus. O mercado feirense tamb\u00e9m est\u00e1 aberto para esse tipo de obra?<\/a><br \/>\n<\/strong><strong>J.G. \u2013 <\/strong>De fato, h\u00e1 muitas telas minhas espalhadas pela cidade. E isso desde os anos 90. Eu sempre vendi bem. Teve uma \u00e9poca que fazia cons\u00f3rcio de arte, o que me ajudou muito a sobreviver em per\u00edodos dif\u00edceis, de grande infla\u00e7\u00e3o. Por isso voc\u00ea vai ver muitos quadros meus na cidade. Muitas vezes eu tamb\u00e9m trocava servi\u00e7o, porque, para mim, minhas telas s\u00e3o como uma moeda, de modo que at\u00e9 hoje fa\u00e7o trocas.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/revistasacada.com.br\/noticias\/533\/feira-de-santana-precisa-se-tornar-uma-cidade-mais-humanizada-alerta-o-artista-plastico-jorge-galeano.html\" target=\"_blank\">S. \u2013 Como voc\u00ea v\u00ea a rela\u00e7\u00e3o de Feira de Santana com o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico?<\/a><br \/>\n<\/strong><strong>J.G. \u2013 <\/strong>Praticamente n\u00e3o h\u00e1 mais patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico em Feira de Santana. Esse pr\u00e9dio, por exemplo, quase foi demolido. Na \u00e9poca, funcionava aqui apenas o Semin\u00e1rio de M\u00fasica de Feira de Santana, mas de modo prec\u00e1rio, j\u00e1 que n\u00e3o havia luz e a estrutura estava caindo aos peda\u00e7os. Foi ent\u00e3o que o professor Josu\u00e9 Mello, ex-reitor da Uefs, tomou a iniciativa de implantar aqui esse centro de artes, uma ideia realmente brilhante, que muito contribui para impulsionar a cultura na cidade. Al\u00e9m desse pr\u00e9dio onde o Cuca est\u00e1 instalado e do Casar\u00e3o Fr\u00f3es da Motta, tamb\u00e9m restaurado, s\u00f3 me lembro de mais duas ou tr\u00eas edifica\u00e7\u00f5es antigas, que n\u00e3o sei at\u00e9 quando permanecer\u00e3o de p\u00e9. Isso \u00e9 um absurdo! Nos anos 90, li, em um famoso jornal da cidade, um artigo de um jornalista que defendia a ideia de que \u201clugar de velharia \u00e9 no museu\u201d. Sob esse argumento desprez\u00edvel, ele afirmava a necessidade de todos os pr\u00e9dios antigos serem demolidos para darem lugar ao \u201cprogresso\u201d. Eu tento dar a minha contribui\u00e7\u00e3o, mas fico realmente horrorizado. Aqui ao lado havia v\u00e1rias casas muito bonitas, que foram demolidas para nada, para darem lugar a prediozinhos quadrados, que n\u00e3o s\u00e3o nada, que se transformaram em lojas chinesas, estacionamentos&#8230; Isso \u00e9 terr\u00edvel! A cidade n\u00e3o tem mem\u00f3ria mais. Feira tinha tudo para ser uma cidade \u00fanica, com mananciais de \u00e1gua pura, com casarios antigos&#8230; Se os comerciantes fossem minimamente inteligentes, teriam aproveitado as fachadas de todas as casas. Isso atrairia clientes e turistas, que viriam ver a cidade. Essa ideia de moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 equivocada. N\u00e3o \u00e9 moderno destruir o patrim\u00f4nio arquitet\u00f4nico. \u00c9 moderno mant\u00ea-lo e harmoniz\u00e1-lo com o tempo presente.<\/p>\n<p><strong>S. \u2013 Em sua opini\u00e3o, o que \u00e9 necess\u00e1rio mudar em Feira de Santana?<br \/>\nJ.G. \u2013<\/strong> Feira de Santana precisa se tornar uma cidade mais humanizada. O tr\u00e2nsito \u00e9 ca\u00f3tico, as pessoas n\u00e3o t\u00eam o m\u00ednimo de paci\u00eancia. Falta solidariedade. Solidariedade com o vizinho, com os idosos, com a rua onde se mora, com a pr\u00f3pria cidade. S\u00f3 assim Feira poder\u00e1 ser melhor no futuro.<\/p>\n<div id=\"blogd-795247090\" class=\"blogd-final-post blogd-entity-placement\"><a href=\"https:\/\/www.feiradesantana.ba.leg.br\/\" target=\"_blank\" aria-label=\"BANNER-SITE-ENTREGADECHEQUE-CAMARADEFEIRA\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/BANNER-SITE-ENTREGADECHEQUE-CAMARADEFEIRA.gif\" alt=\"\"  class=\"no-lazyload\" width=\"728\" height=\"90\"   \/><\/a><\/div><p><a href=\"http:\/\/revistasacada.com.br\/home\/\" target=\"_blank\">Entrevista publicada na vers\u00e3o impressa e on line da revista Sacada (clique)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por \u00cdsis Moraes O artista pl\u00e1stico feirense Jorge Galeano\u00a0(na foto, com a poetisa Clarissa Macedo no Beco da Energia, em Feira)\u00a0nasceu na Argentina mas est\u00e1 radicado em Feira de Santana h\u00e1 cerca de 20 anos e aqui \u00a0construiu, nas cercanias do bairro Pampalona, o seu pequeno ref\u00fagio tropical, fonte inesgot\u00e1vel de inspira\u00e7\u00e3o para a composi\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"cybocfi_hide_featured_image":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15906","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-raiz"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p3niVf-48y","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":24255,"url":"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/2016\/11\/12\/jorge-galeano-vai-expor-trabalhos-em-paises-da-europa\/","url_meta":{"origin":15906,"position":0},"title":"Jorge Galeano vai expor trabalhos em pa\u00edses da Europa","author":"Blog da Feira","date":"12\/11\/2016","format":false,"excerpt":"O artista pl\u00e1stico Jorge Galeano estar\u00e1 viajando no pr\u00f3ximo domingo para expor os seus trabalhos na Europa. 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