{"id":40721,"date":"2020-09-26T12:33:50","date_gmt":"2020-09-26T15:33:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/?p=40721"},"modified":"2023-05-22T16:55:20","modified_gmt":"2023-05-22T19:55:20","slug":"feirense-de-umbigo-enterrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/2020\/09\/26\/feirense-de-umbigo-enterrado\/","title":{"rendered":"Feirense de umbigo enterrado"},"content":{"rendered":"<div id=\"blogd-56733062\" class=\"blogd-fim-do-post-mobile blogd-entity-placement\" style=\"margin-left: auto;margin-right: auto;text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.feiradesantana.ba.gov.br\/servico.asp?s=a&#038;titulo=Solenidade-festiva-marca-centen%C3%A1rio-do-Pa%C3%A7o-Municipal-Maria-Quit%C3%A9ria.html&#038;id=1&#038;link=secom\/noticias.asp&#038;idn=42892#noticias\" target=\"_blank\" aria-label=\"728&#215;90 (5)\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/728x90-5.gif\" alt=\"\"  class=\"no-lazyload\" width=\"728\" height=\"90\"  style=\"display: inline-block;\" \/><\/a><\/div><p style=\"text-align: justify;\"><em>Minha terra n\u00e3o \u00e9 mo\u00e7a, minha terra \u00e9 menino, que atira badogue, que mata moc\u00f3, que arma arapuca e sabe aboiar\u201d (<\/em><strong>Eurico Alves Boaventura)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201c A carreta de Oscar grande como a rua\u201d Cine \u00cdris e a certeza de ter nascido antes\u201d (<\/em><strong>Iderval<\/strong><strong> Miranda)<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>\u201cVoc\u00ea pode, em Feira, recitar versos logo de manh\u00e3 e n\u00e3o parecer pedante. Voc\u00ea diz: parem de jogar cad\u00e1veres na minha porta.\u201d (<\/em><strong>Ederval Fernandes)<\/strong><\/p>\n<div id=\"attachment_4532\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"text-align: justify;\">Costumo dizer que sou <em>feirense de umbigo enterrado<\/em>, express\u00e3o popular baseada na tradi\u00e7\u00e3o de enterrar o umbigo da crian\u00e7a no local onde nasce, simbolizando sua perten\u00e7a eterna com aquele peda\u00e7o de ch\u00e3o.<\/div>\n<div class=\"wp-caption alignleft\" style=\"text-align: justify;\">O meu foi enterrado no bairro da Mangabeira (ainda zona rural naquele mar\u00e7o de 1975) onde mor\u00e1vamos em uma ch\u00e1cara, misto de casa e com\u00e9rcio de meu pai. Nasci nessa casa de parto normal pelas m\u00e3os da parteira M\u00e3e Maria e da enfermeira Maria Augusta e meu umbigo foi enterrado no curral onde \u00e9 hoje \u00e9 um condom\u00ednio. Aos dez anos fui morar na Rua Edelvira de Oliveira, uma rua muito movimentada entre a Av. Maria Quit\u00e9ria e Jo\u00e3o Durval e ali fiquei at\u00e9 me casar em 2005 e vir morar no SIM, bem antes do que o bairro ser o que \u00e9 hoje.<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascida e criada nessa terra me sinto uma tabaroa de Feira com todo orgulho e gosto de reafirmar essa filia\u00e7\u00e3o por outras terras por onde vou, sempre com a passagem de volta marcada. Como boa feirense, tenho o h\u00e1bito\/costume ou at\u00e9 v\u00edcio de \u201cbater perna na rua\u201d, como os franceses dizem, sou uma\u00a0<em>flaneur<\/em>. Para quem n\u00e3o \u00e9 baiano, ir \u00e0 rua significa ir ao centro da cidade, parte viva e pulsante de toda urbe. O motivo pouco importa, desde a compra prosaica de um presente at\u00e9 a resolu\u00e7\u00e3o de um problema burocr\u00e1tico, o prazer \u00e9 andar pelo centro vendo as novidades, parando em carrinhos de frutas, comendo amendoim ou milho assado, apreciando o corre-corre das pessoas, ouvindo retalhos de conversa e imaginando suas hist\u00f3rias de vida, escolhendo bugigangas que \u00e0 primeira vista parecem essenciais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gosto disso desde crian\u00e7a. Pela m\u00e3o de minha m\u00e3e, \u00edamos comprar tecido na Violeta, aviamentos no Armarinho Marta, p\u00e3o na Padaria da F\u00e9, caf\u00e9 e fub\u00e1 no Tabajara, bijuterias em Z\u00e9 do Fusca. Recordo do encantamento quando entrei pela primeira vez nas Lojas Brasileiras, meu primeiro Shopping, com aquele mundo de doces a granel, ou o frio na barriga ao subir as escadas rolantes das Pernambucanas. Quando era necess\u00e1rio \u00edamos sacar algum dinheiro na ASPEB, da poupan\u00e7a que minha fazia com os seus caixas e trocos de feira, e \u00edamos comprar roupas na Sheila ou sapatos na Bezerra e Santana sempre no Natal ou S\u00e3o Jo\u00e3o, essa \u00faltima muito chic, fazia sorteios de pipocar a bola, uma vez ganhei uma Sand\u00e1lia Karat\u00ea.\u00a0 Quando n\u00e3o t\u00ednhamos a carona de meu pai, \u00edamos no \u00f4nibus da Autossel. O \u00e1pice desses bordejos era merendar um coco espumante no Predileto ou o coroamento de um almo\u00e7o no Boiadeiro. E essa redondeza era toda beleza, havia ali no in\u00edcio da Sales Barbosa um pipoqueiro e um freezer da Kibon, al\u00e9m de um jardim com bancos para tomar nosso sorvete confortavelmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu estudei no prim\u00e1rio no Col\u00e9gio Dalle Nogare, do hoje meu amigo e colega de UEFS Humberto Oliveira, que funcionava em um sobrado em frente \u00e0 Pra\u00e7a do Nordestino, bem no burburinho do centro, ent\u00e3o comecei a dar minhas escapulidas para ver a rua bem crian\u00e7a, descobri ali pertinho uma banca de revistas, Sadel, nome em raz\u00e3o de funcionar no passeio dessa loja, ainda hoje de p\u00e9, e uma loja de discos,\u00a0 a S\u00f3 Discos, volta e meia eu corria l\u00e1 rapidinho na hora da sa\u00edda. Ainda lembro-me de uns m\u00f3veis de bonecas, miniaturas de uma mob\u00edlia, que eram vendidos na esquina da Marechal com a pra\u00e7a da Bandeira, no passeio onde funcionava o Banco Bamerindus (O tempo passa, o tempo voa), t\u00e3o lindas que ainda guardo nas gavetas da mem\u00f3ria o cheiro de madeira daquela minha primeira casinha.<\/p>\n<div id=\"attachment_4533\" class=\"wp-caption alignleft\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 adolescente, de \u201ccangote grosso e ferrado limpo\u201d como dizia minha v\u00f3 Lili, comecei a ir para rua sozinha e n\u00e3o parei mais. Eu me transformei em uma esp\u00e9cie de \u201cquebra-faca\u201d da fam\u00edlia, tudo que era preciso fazer na rua, \u201cmanda Alana que ela gosta\u201d, \u201cmanda Alana que ela sabe achar\u201d, cargo que ainda ocupo na medida do poss\u00edvel da vida adulta. Recordo-me da\u00a0 alegria de minhas compras do material escolar na Nossa Papelaria ou na Livraria Dom Pedro, do simpatic\u00edssimo Sr. Amadeu do Banco do Brasil, que recebia pessoalmente seus clientes, levava na porta e chamava o t\u00e1xi se fosse preciso. A Ottan Center e CF Carvalho Magazine\u00a0 era t\u00e3o lindas,\u00a0 lojas de departamentos by Princesa do Sert\u00e3o, com suas sess\u00f5es diversificadas e vendedoras muito elegantes. E havia o \u00cdris e o Timbira onde aprendi a amar o cinema nas matin\u00eas com gosto de Mentex e bala Kids. Depois descobri a Galeria Carmac que tinha uma lanchonete maravilhosa na esquina e quando veio a Luciana Center, o Arnold Silva e o Pedro Falc\u00e3o foi a gl\u00f3ria, at\u00e9 hoje quando passo por eles n\u00e3o resisto a cruz\u00e1-los, o m\u00e1ximo em mat\u00e9ria de cortar caminho vendo vitrine bonita no percurso. O Pedro virou Drogasil, nesse processo bizarro de farmacifica\u00e7\u00e3o de nossa terra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dessa fase, final dos anos 80 comecinho dos 90, tamb\u00e9m guardo boas lembran\u00e7as dos domingos. Eu e minha turma do Col\u00e9gio Nobre com nosso cabelos de Chit\u00e3ozinho e Choror\u00f3 e cal\u00e7as bag, de tardinha \u00edamos para a Gelateria Italiana, ali ao lado do Col\u00e9gio S\u00e3o Francisco, hoje Safra. O legal era tomar sorvete e depois ficar na porta resenhando e paquerando, \u00e0s vezes atravess\u00e1vamos a rua para um sandu\u00edche no Gauch\u00e3o que ficava ali no meio ou para comer uma fatia de pizza na lanchonete do Malibu Shopping, hoje Shopping das F\u00e1bricas. Enfim, o verbo dos domingos era \u201cGetuliar\u201d e quando era perto da Micareta ent\u00e3o, rolava por ali o que se chamava de Grito de Micareta e na Micareta mesmo existia a rivalidade dos bailes T\u00eanis x Cajueiro, um mais popular, um mais elitizado. E em setembro era a Expofeira que agitava nossa cidade, botar bota e muita banca de fazendeiro sem nunca ter sido e ir para o Parque de Exposi\u00e7\u00e3o era o m\u00e1ximo, quem n\u00e3o lembra do locutor de voz empostada: Fazendas Bahia, Fazendas Pau da Rola\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A menina cresceu, ficou sabendo que passou no vestibular para Letras pela R\u00e1dio Antares e pelo jornal Feira Hoje, virou professora, virou esposa de um comerciante, filho de \u00e1rabes que por aqui chegaram e ficaram como muitos outros imigrantes que nossa terra acolhe, virou m\u00e3e de Miguel, mas ainda guarda essa menina que um dia se perdeu no centro da cidade e foi localizada numa barraquinha de doces na porta da Violeta batendo altos papos com os fregueses e n\u00e3o entendeu o desespero de seu pai e um monte de gente que a procurava, ela s\u00f3 estava dando umas voltas\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Praticamente de tudo que falei aqui pouca coisa resta de concreto nessa Feira de hoje, mas ainda quando vou para rua (um dos meus piores mart\u00edrios do isolamento social, h\u00e1 quase seis meses sem uma incurs\u00e3o na Sales Barbosa) essas mem\u00f3rias me invadem junto com aquele cheiro de coco queimado com rapadura que era vendido ali na Bernardino Bahia ou do gosto do sorvete da Princesinha, das seriguelas da Festa da Kalil\u00e2ndia e da ma\u00e7\u00e3 do amor da Festa da Matriz onde passei muito mal um dia por medo de Monga. \u00a0Dentro de uma cidade cabem muitas cidades e dentro de nossas mem\u00f3rias cabem muitos mundos, n\u00e3o vejo a hora de ouvir de novo Chip Tim, Oi, Claro, Vivo, Cart\u00e3o, Senhora?, Dentista?, Empr\u00e9stimo?, Capinha, pel\u00edcula? Olha a \u201cAcelora\u201d\u2026 Essa \u00e9 a minha Feira e sei que cada um tem a sua\u2026Eurico Alves, Godofredo Filho, Joaquim Gouveia, Hugo Navarro, Iderval Miranda, Ederval Fernandes, Beto Pitombo, Carlos Pita, Z\u00e9 Coi\u00f3, Raymundo Luiz, Adilson Simas, Z\u00e9 Maria, Ant\u00f4nio de Josino, Clovis Ramaiana, Augusto Sp\u00ednola, J\u00e2nio Rego, Cintia Portugal, e voc\u00ea de umbigo enterrado ou n\u00e3o\u2026<\/p>\n<div id=\"blogd-50915799\" class=\"blogd-final-post blogd-entity-placement\"><a href=\"https:\/\/www.feiradesantana.ba.leg.br\/\" target=\"_blank\" aria-label=\"BANNER-SITE-ENTREGADECHEQUE-CAMARADEFEIRA\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/BANNER-SITE-ENTREGADECHEQUE-CAMARADEFEIRA.gif\" alt=\"\"  class=\"no-lazyload\" width=\"728\" height=\"90\"   \/><\/a><\/div><p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>Alana de O. Freitas El Fahl, p<\/em><\/strong><strong><em>rofessora Titular de Literatura da Universidade Estadual de Feira de Santana e tabaroa de Feira de Santana com umbigo enterrado com muito orgulho!<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha terra n\u00e3o \u00e9 mo\u00e7a, minha terra \u00e9 menino, que atira badogue, que mata moc\u00f3, que arma arapuca e sabe aboiar\u201d (Eurico Alves Boaventura) \u201c A carreta de Oscar grande como a rua\u201d Cine \u00cdris e a certeza de ter nascido antes\u201d (Iderval Miranda) \u201cVoc\u00ea pode, em Feira, recitar versos logo de manh\u00e3 e n\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":56,"featured_media":35314,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"cybocfi_hide_featured_image":"","_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[592,1],"tags":[],"class_list":["post-40721","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunistas","category-raiz"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/Screenshot_2020-02-10-21-53-47.png","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p3niVf-aAN","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack-related-posts":[{"id":40819,"url":"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/2020\/09\/29\/marlede-enterra-colbert-governo-diz-que-aplb-causa-transtornos\/","url_meta":{"origin":40721,"position":0},"title":"Marlede &#8216;enterra&#8217; Colbert; governo diz que APLB &#8216;causa transtornos&#8217;","author":"Blog da Feira","date":"29\/09\/2020","format":false,"excerpt":"A presidenta da APLB de Feira de Santana, professora Marlede Oliveira, liderou mais uma manifesta\u00e7\u00e3o nesta ter\u00e7a-feira no centro da cidade, dessa vez teatralizando na entrada da C\u00e2mara de Vereadores o \"enterro simb\u00f3lico\" do governo de Colbert Filho. 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