{"id":53478,"date":"2022-07-26T18:28:32","date_gmt":"2022-07-26T21:28:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/?p=53478"},"modified":"2022-10-12T12:15:23","modified_gmt":"2022-10-12T15:15:23","slug":"antonio-brasileiro-uma-voz-invulgar-na-producao-poetica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/2022\/07\/26\/antonio-brasileiro-uma-voz-invulgar-na-producao-poetica-brasileira\/","title":{"rendered":"Antonio Brasileiro: uma voz invulgar na produ\u00e7\u00e3o po\u00e9tica brasileira"},"content":{"rendered":"<div id=\"blogd-996984033\" class=\"blogd-fim-do-post-mobile blogd-entity-placement\" style=\"margin-left: auto;margin-right: auto;text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/www.sefaz.feiradesantana.ba.gov.br\/\" target=\"_blank\" aria-label=\"728&#215;90 (6)\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/728x90-6.gif\" alt=\"\"  class=\"no-lazyload\" width=\"728\" height=\"90\"  style=\"display: inline-block;\" \/><\/a><\/div><p>&#8220;Para penetrar uma obra de arte nada pior do que as palavras da cr\u00edtica, que somente levam a mal-entendidos mais ou menos felizes. Nem tudo se pode saber ou dizer, como nos querem fazer acreditar. Quase tudo o que sucede \u00e9 inexprim\u00edvel e decorre num espa\u00e7o que a palavra jamais alcan\u00e7ou. E nada mais dif\u00edcil de definir do que as obras de arte \u2013 seres misteriosos cuja vida imperec\u00edvel acompanha nossa vida ef\u00eamera.&#8221; Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta<\/p>\n<p>Inicio esse texto evocando o lugar essencial que a cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica ocupa na vida de Antonio Brasileiro. Se a ele lhe fosse endere\u00e7ada a c\u00e9lebre pergunta que Rainer Maria Rilke formulou na sua carta ao \u00ab jovem poeta \u00bb Frans Kappus, \u00ab Morreria se n\u00e3o me fosse permitido escrever?\u00bb, a resposta seria certamente afirmativa. E seria (seguramente o \u00e9) po\u00e9tica. Criar \u00e9 a maneira de ser do poeta-fil\u00f3sofo e artista pl\u00e1stico Antonio Brasileiro. Certamente a singularidade desconcertante que emana de cada um de seus poemas procede dessa entrega radical \u00e0 experi\u00eancia po\u00e9tica, em perfeita sintonia com o pensamento do poeta de Praga: \u00ab Uma obra de arte \u00e9 boa quando nasceu por necessidade: \u00e9 a natureza da sua origem que a julga \u00bb.<\/p>\n<p>A dupla condi\u00e7\u00e3o de homem e poeta, verso e reverso do mesmo ser, inquietante lugar de uma identidade cindida entre a efemeridade da condi\u00e7\u00e3o humana e a perenidade da arte, sempre constituiu uma preocupa\u00e7\u00e3o fulcral da grande poesia, como podemos ler nas palavras de Rilke, reproduzidas na ep\u00edgrafe acima, que ecoam no poema \u201cDas coisas memor\u00e1veis\u201d, de Antonio Brasileiro: \u201cUm dia o mundo inteiro vai ser mem\u00f3ria [&#8230;] Eu, sentado aqui, \/ serei s\u00f3 estes versos que dizem haver um eu \/ sentado aqui.\u201d Ou no poema \u201cA dan\u00e7a e a alma\u201d, inclu\u00eddo em Viola de Bolso de Carlos Drummond de Andrade, imenso escritor que marcou a produ\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios poetas no Brasil, inclusive a de Antonio Brasileiro: \u201cNo solo n\u00e3o, no \u00e9ter pairamos, \/ nele amar\u00edamos ficar. \/ A dan\u00e7a \u2013 n\u00e3o vento nos ramos: \/ seiva, for\u00e7a, perene estar.\u201d Evidentemente, poder\u00edamos reproduzir ao infinito os exemplos, mas n\u00e3o vem ao caso aqui; o certo \u00e9 que toda uma tradi\u00e7\u00e3o da poesia ocidental explora esse antagonismo entre finitude da condi\u00e7\u00e3o humana e perenidade da arte, o logos como percurso inici\u00e1tico da tentativa de ordena\u00e7\u00e3o do caos, itiner\u00e1rio compartilhado por Antonio Brasileiro.<\/p>\n<p>Diferentemente de tantos outros \u00ab poetas \u00bb, bem instalados no lugar comum, o ato de criar n\u00e3o \u00e9, para Antonio Brasileiro, um ato trivial. Fazer poesia n\u00e3o significa, para ele, juntar versos, tampouco implica num simples exerc\u00edcio est\u00e9tico. \u00c9 um ato insepar\u00e1vel do seu inquietante estar-no-mundo que encontra sua raz\u00e3o de ser no desejo de escavar a impenetrabilidade do ser e do mundo, um ato in\u00fatil &#8211; porque o enigma persiste para al\u00e9m das revela\u00e7\u00f5es fugazes -, mas sincero: \u00ab Meus versos s\u00e3o da pura ess\u00eancia \/ dos poemas inessenciais\u201d escreve em \u201cArte po\u00e9tica\u201d. Dessa aporia nascem os mais humanos e belos poemas de Antonio Brasileiro: \u00ab A tudo vi e meditei e clamo: \/ \u00f3 saber-se divino e ser s\u00f3 homem!\u201d (\u201cEstudo 123\u201d). Nestes versos, a aguda capacidade de percep\u00e7\u00e3o do sujeito po\u00e9tico esbarra na impossibilidade de obter respostas que o situem face aos enigmas do mundo, assinalando o poder e os limites da experi\u00eancia po\u00e9tica. \u00c0 dificuldade de discernir o sentido do ser e do estar-no-mundo que servem de leitmotiv \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o de seus poemas, o poeta-fil\u00f3sofo dedicou os ensaios A est\u00e9tica da sinceridade (EDUEFS, 2000) e Da inutilidade da poesia (EDUFBA, 2002) aos quais recorremos, neste texto, com o objetivo de iluminar alguns aspectos da cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica do autor, pelo vi\u00e9s de sua reflex\u00e3o ensa\u00edstica sobre a poesia.<\/p>\n<p>Comentei, em um outro momento,1 a constru\u00e7\u00e3o do pensamento po\u00e9tico de Brasileiro embasada na figura do paradoxo, que, em alguns poemas, se aplica em negar, ironicamente, a fun\u00e7\u00e3o, que desempenha, de procurar desentranhar o absoluto do real. A recusa (aparente) do sujeito po\u00e9tico, como constatei naquela ocasi\u00e3o, justifica-se pelo desassossego que dele se apossa. O tumulto que o invade o transforma em v\u00edtima da pr\u00f3pria acuidade do olhar na percep\u00e7\u00e3o do mundo. No entanto, o poema se constr\u00f3i e ao faz\u00ea-lo, afirma o que est\u00e1 negando, \u00ab porque n\u00e3o h\u00e1 est\u00e9tica sem dor. E, no entanto, toda obra de arte \u00e9 uma liberta\u00e7\u00e3o da dor \u00bb, assinala o ensa\u00edsta Antonio Brasileiro seguindo a trilha de Arist\u00f3teles (Brasileiro :2000 :72). A experi\u00eancia po\u00e9tica origina-se desse movimento dial\u00e9tico que, ao mesmo tempo que alimenta, devora o sujeito po\u00e9tico, t\u00e3o bem expresso nos versos de Ferreira Gullar, \u00ab eu colho a aus\u00eancia que me queima as m\u00e3os \u00bb, com os quais a obra do poeta baiano encontra-se em sintonia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9, portanto, de se estranhar que o paradoxo que alimenta a po\u00e9tica de Antonio Brasileiro inaugure o vi\u00e9s metadiscursivo de sua produ\u00e7\u00e3o, imprimindo um estilo e delineando atitudes afetivas. Decorre da\u00ed, um certo car\u00e1ter teatral que instaura um di\u00e1logo tenso com o destinat\u00e1rio, jogando com efeitos de distanciamento, ao exteriorizar de maneira ostentat\u00f3ria um pensamento aparentemente il\u00f3gico e contradit\u00f3rio (\u00ab O esquecimento \u00e9 a mem\u00f3ria mais n\u00edtida. Sabe-se \/ n\u00e3o saber. Sabe-se n\u00e3o ser\u201d, \u201cSe todas as verdades\u201d) ou ao projetar a figura do sujeito po\u00e9tico como um ser de distinta cepa (\u00ab Eu, com meus poemas indevass\u00e1veis \/ v\u00f3s, com vossas gravatas coloridas\u201d, \u201cDivisor de \u00e1guas\u201d). Num movimento oposto, procura despertar o processo de identifica\u00e7\u00e3o com o interlocutor, atrav\u00e9s de atitudes afetivas marcadas por um lirismo intenso (\u00ab Amiga, \/ escrevo-te. \/ Para nada, talvez. Que \u00e9 a poesia, \/ sen\u00e3o o n\u00e3o sabermos de n\u00f3s mesmos, \/ o incorrig\u00edvel jamais nos conhecermos!\u201d, \u201cEscrevo-te\u201d). A linguagem po\u00e9tica de Antonio Brasileiro busca a palavra essencial, precisa, assumindo a fun\u00e7\u00e3o heur\u00edstica de desvelamento e investiga\u00e7\u00e3o dos fatos, mimetizando o mundo inacess\u00edvel, profundamente marcada pelo conv\u00edvio com a obra de Ernest Cassirer e de Heidegger, como revelam a leitura de seus poemas e ensaios:<\/p>\n<p>A casa do Ser, sob cujo abrigo mora o homem (na famosa defini\u00e7\u00e3o heideggeriana da linguagem) n\u00e3o parecia, portanto, nada s\u00f3lida; qualquer vento estranho poderia ser uma amea\u00e7a. Dar corpo \u00e0s formas de coisas desconhecidas \u2013 essa fun\u00e7\u00e3o que julgamos exclusiva dos poetas, no reino das palavras \u2013 \u00e9, em larga medida, arriscar-se a essas intemp\u00e9ries. (Antonio Brasileiro, A est\u00e9tica da sinceridade)<\/p>\n<p>Correr o risco da aventura po\u00e9tica centrada no questionamento sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, interrogando a natureza profunda da exist\u00eancia, exige do sujeito po\u00e9tico a capacidade de desnudar-se (o homem diante de si mesmo), de desdobrar-se em m\u00faltiplas figuras, procurando situar-se nas suas rela\u00e7\u00f5es com o Outro, ou encontrar seu caminho enquanto sujeito da hist\u00f3ria. A essa dimens\u00e3o metaf\u00edsica heideggeriana, voltada para o homem em suas estruturas existenciais, acopla-se uma indaga\u00e7\u00e3o sobre um movimento de energia criadora que d\u00e1 origem aos seres e \u00e0s coisas, uma inquisi\u00e7\u00e3o sobre uma ordem c\u00f3smica inacess\u00edvel que a poesia procura incansavelmente desvelar. Da\u00ed, as m\u00faltiplas figuras do poeta (\u201cMas que adeus, Cavaleiro? \/ O de si mesmo? O da m\u00e1scara \/ de si mesmo? O da triste figura \/ de si mesmo?\u201d, \u201cCavaleiro\u201d 26.) e os diferentes caminhos percorridos na tentativa de \u201cdar corpo \u00e0s formas desconhecidas\u201d.<\/p>\n<p>O Poeta-Cavaleiro n\u00e3o est\u00e1 sempre a deslocar-se fisicamente, a agitar-se pelas estradas e mares enquanto sujeito agindo para mudar o mundo, perscrustando o sentido da historicidade. Outros percursos s\u00e3o evocados para se situar diante do mundo, sendo o ato de contemplar, um dos privilegiados pelo sujeito-po\u00e9tico: \u201cSer como um buda e n\u00e3o ter mais t\u00e9dio \/ &#8211; eis como hei de ser. \/ Can\u00e7\u00f5es no bolso e um ar revolto. \/ Minhas irm\u00e3s dir\u00e3o que estou fugindo \/ minhas amadas dir\u00e3o que fiquei louco \/ \/ mas os amigos bem sabem: n\u00e3o perdi \/ nem estarei perdido \u2013 \/ ausculto o mundo do alto da minha torre.\u201d, \u201cO Estilita\u201d.<\/p>\n<p>A solid\u00e3o do poeta que se traduz no seu afastamento do conv\u00edvio social surge como condi\u00e7\u00e3o privilegiada favorecendo a observa\u00e7\u00e3o atenta e l\u00facida do mundo, como se para melhor decifr\u00e1-lo fosse necess\u00e1rio dele se abster. O Poeta-Estilita dedica-se ao ato de contemplar como um caminho imprescind\u00edvel para alcan\u00e7ar um certo \u201csentimento do mundo\u201d, o pre\u00e7o a pagar para especular sobre as verdades multiformes do real. Nesse sentido, ele se diferencia do homem-comum, propondo uma outra forma de habitar o mundo. Mas o poema \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de incitar o leitor a abandonar a rotina e ir al\u00e9m dos limites do vis\u00edvel, penetrando num universo inesperado ao qual ele s\u00f3 pode ascender atrav\u00e9s da palavra po\u00e9tica.<\/p>\n<p>O Poeta-Estilita \u00e9 tamb\u00e9m o Poeta-S\u00edsifo, incans\u00e1vel no seu persistente e obsessivo meditar sobre as coisas do mundo para traduzi-lo em palavras, contribuindo assim para perpetuar, no presente, um ato que se perde na mem\u00f3ria ancestral do homem, a exemplo do poema \u201cO mundo, que deste pequeno quarto vejo e n\u00e3o compreendo\u201d que se constr\u00f3i apesar do mundo, contra o mundo, para o mundo. Constitui a um s\u00f3 tempo, um ato de desespero e de esperan\u00e7a, de maneira semelhante a esses versos extra\u00eddos de \u201cRutil\u00e2ncia\u201d: \u201cpois tudo \u00e9 rutil\u00e2ncia e n\u00f3s, passantes, \/ com nossa pressa e gula \/ para nada. \/ Mas justo porque o mundo \u00e9 mesmo imenso \/ e imensa \u00e9 a alma, \/ eis que escrevo e escrevo e escrevo e escrevo. \/ Por certo, para nada. Sim. Por certo, para nada\u201d Em \u201cRutil\u00e2ncia\u201d, o ato de escrever est\u00e1 relacionado com o tema da passagem inexor\u00e1vel do tempo expondo a precariedade da condi\u00e7\u00e3o humana. O logos tentando ordenar o caos: escrever para domar a morte, para permanecer, num ato insano que encontra sua fundamenta\u00e7\u00e3o no desejo v\u00e3o de exorciz\u00e1-la, pela ilumina\u00e7\u00e3o da palavra po\u00e9tica que tamb\u00e9m tem o poder de revelar ao homem sua complexa composi\u00e7\u00e3o. \u00c9 o caso de \u201cEstudo 165\u201d, um dos mais emocionantes e bem constru\u00eddos poemas de Antonio Brasileiro do qual reproduzimos os \u00faltimos versos: \u201ccompor um homem \/ da crian\u00e7a que h\u00e1 no homem, do homem \/ a adivinhar-se em antiqu\u00edssimas retinas; \/ compor um homem \/ com seus solu\u00e7os, gram\u00e1ticas, teogonias \/ \u2013 e recit\u00e1-lo perante os outros homens.<\/p>\n<p>\u201cEstudo 165\u201d \u00e9, a meu ver, um dos mais belos poemas escritos em homenagem \u00e0 experi\u00eancia po\u00e9tica como forma de desvelar a complexidade do ser humano e ao mesmo tempo de exalt\u00e1-la. Um poema de celebra\u00e7\u00e3o ao fazer po\u00e9tico atravessado por uma intensa carga l\u00edrica. A figura do poeta n\u00e3o duvida do poder do seu of\u00edcio: magn\u00e2nimo, como um deus, ele cria a sua criatura, num instante de \u201crutil\u00e2ncia\u201d. Poema epif\u00e2nico que celebra a magia da poesia: \u201ctodos os poetas n\u00e3o visam sen\u00e3o ao di\u00e1logo mais amoroso. H\u00e1 que mostrar o homem ao homem, creem eles. (Brasileiro: 2000: 28).<\/p>\n<p>M\u00faltiplos s\u00e3o os registros do discurso po\u00e9tico de Antonio Brasileiro, diversas as formas que assume. O poeta exprime-se em textos mais longos ou minimalistas, imprimindo \u00e0 sua poesia um tom melanc\u00f3lico e comovente (\u201cN\u00e3o passar. Ficar para semente. \/ N\u00e3o era isto que meu pai queria? \/ Sentava-se na rede e adormecia \/ julgando ter domado a dama ausente.\u201d, \u201cQue Deus guarde meu pai\u201d) intensamente l\u00edrico (\u201cFurtava as cores de todas as paisagens \/ que colhia. \/ Um dia morreu \/ e um arco-\u00edris bebia \/ seus olhos.\u201d, \u201cLoucura e poesia\u201d) ou, ao contr\u00e1rio, adotando o humor, a ironia amarga, o tom provocador e iconocl\u00e1stico para subverter a banalidade do olhar sobre a realidade do universo propondo ins\u00f3litas e l\u00facidas vis\u00f5es sobre o real. Assim \u00e9 que, \u00e9 poss\u00edvel observar a transforma\u00e7\u00e3o da figura do Poeta-Estilita em Poeta-auto-exilado no momento em que a contempla\u00e7\u00e3o serena cede lugar \u00e0 ironia amarga, em poemas que encenam a viol\u00eancia cega das guerras e do terrorismo (\u201cGoverno e terroristas \/ defrontam-se na avenida\u201d, \u201cVis\u00f5es dos anos 80\u201d), ou a atmosfera asfixiante da ditadura militar (\u201cO olho verde da cadela dorme. \/ E vela\u201d, \u201cEstudo 91\u201d). Num poema recente, \u201cRelato\u201d, percebe-se a op\u00e7\u00e3o por uma dic\u00e7\u00e3o po\u00e9tica capaz de marcar, de maneira contundente, a rejei\u00e7\u00e3o do Poeta-auto-exilado \u00e0 nossa ca\u00f3tica temporalidade. Colocando-se como testemunha malgr\u00e9 lui do seu tempo, adota a descri\u00e7\u00e3o realista como recurso para expor a natureza cruel das imagens traum\u00e1ticas das cat\u00e1strofes e viol\u00eancias que devastam o quotidiano do homem urbano contempor\u00e2neo. Reproduzo apenas seus versos finais: \u201c\u00c9 quando de um furg\u00e3o descem soldados \/ a metralhar os bichos \/ e os homens e as crian\u00e7as e os turistas \/ e os jornalistas e os motoristas e as vidra\u00e7as. \/ Desta janela o mundo \u00e9 confort\u00e1vel; \/ n\u00e3o ponho a cara de fora, \/ s\u00f3 relato.\u201d<\/p>\n<p>O discurso objetivamente mim\u00e9tico de cenas da vida urbana de \u201cRelato\u201d (2011) inaugura, surpreendentemente, uma atmosfera surreal. Ele expulsa o \u201cdi\u00e1logo amoroso\u201d que o sujeito po\u00e9tico sustenta em \u201cEstudo 165\u201d (1974). Ao compararmos os dois poemas observa-se que a \u201ctorre de marfim\u201d na qual o poeta se refugia n\u00e3o traduz a mesma disposi\u00e7\u00e3o l\u00edrica: n\u00e3o se trata mais de \u201crecitar\u201d, mas de \u201crelatar\u201d o homem. Em \u201cEstudo 165\u201d, o Poeta-Estilita quando ausculta o mundo do alto de sua torre imagina-se fazendo parte dele enquanto que em \u201cRelato\u201d o sujeito po\u00e9tico se distancia, protegendo-se, rompendo qualquer possibilidade de identifica\u00e7\u00e3o com o universo bestial que erige nos seus versos. A op\u00e7\u00e3o do registro prosaico no lugar do po\u00e9tico ajusta-se \u00e0 realidade degradada revelada no poema, fixada nas imagens que exp\u00f5em a mediocridade consumista, a viol\u00eancia est\u00fapida que toma de assalto o quotidiano, o homem desumanizado, metamorfoseado em besta-fera. Dessa forma, o poeta compartilha um repert\u00f3rio de imagens que correspondem ao imagin\u00e1rio apocal\u00edptico da contemporaneidade.<\/p>\n<p>Esta antologia bilingue apresenta as m\u00faltiplas facetas de uma das vozes mais singulares da poesia brasileira contempor\u00e2nea. A singularidade tamb\u00e9m \u00e9 uma forma de reler, de reinventar a tradi\u00e7\u00e3o, como bem demonstrou T. S. Eliot. O leitor poder\u00e1 ent\u00e3o descobrir as afinidades po\u00e9ticas de Antonio Brasileiro, atrav\u00e9s do di\u00e1logo que, consciente ou inconscientemente, sua produ\u00e7\u00e3o mant\u00e9m com obras de grandes representantes da poesia ocidental como Rainer Maria Rilke, Paul Val\u00e9ry, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Jo\u00e3o Cabral de Mello Neto, Ferreira Gullar, seus pares, entre outros, na percuciente problematiza\u00e7\u00e3o do estar-no-mundo e\/ou no fulgor dos momentos de epifania, em \u00e9pocas e territ\u00f3rios diversos:<\/p>\n<p>Vou cativar um beija-flor.<br \/>\nE sairemos por a\u00ed:<br \/>\nele faz poesias, eu voo.<\/p>\n<p>(\u201cConcerto para flauta de canudo de mam\u00e3o\u201d)<\/p>\n<div id=\"blogd-3978895254\" class=\"blogd-final-post blogd-entity-placement\"><a href=\"https:\/\/www.feiradesantana.ba.leg.br\/\" target=\"_blank\" aria-label=\"BANNER-SITE-ENTREGADECHEQUE-CAMARADEFEIRA\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogdafeira.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/BANNER-SITE-ENTREGADECHEQUE-CAMARADEFEIRA.gif\" alt=\"\"  class=\"no-lazyload\" width=\"728\" height=\"90\"   \/><\/a><\/div><p><strong>Rita Olivieri-Godet<\/strong><br \/>\n(Universit\u00e9 de Rennes 2<br \/>\nInstitut Universitaire de France)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Para penetrar uma obra de arte nada pior do que as palavras da cr\u00edtica, que somente levam a mal-entendidos mais ou menos felizes. 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