PRAça juraciFeira é dessas cidades que carregam o fardo do “nada a se fazer”, mesmo já tendo muito mais que antes. O que tem pra fazer em Feira? Pergunte isso e ouvirá, de pronto, “Nada!”. Uma resposta que, convenhamos, cabia há uns 10 anos.

Mas, hoje, se você quer: pedalar em avenidas, sentar no parque, beber num bar arrojado ou num boteco de bairro, passear pela feira, ouvir samba, rock, reggae, choro, jazz, forró universitário, brega, sem falar nos grandes nomes nacionais que têm passado por nossa cidade… Quer ir ao teatro, ouvir música em praça… A cidade tem. Nem sempre com a frequência que você gostaria, mas tem.

Eu te entendo.

Sei que é vergonhosa a quantidade e a qualidade das salas de cinema. Que, mesmo uma ciclovia não sendo uma panaceia, ela enche os olhos e a vida das pessoas que pensam pra frente.

Sei que ver a Getúlio Vargas devastada pelo poder público, mesmo a cidade se manifestando pelo contrário, faz com que seus sentimentos mais primitivos sejam revolvidos aí dentro.

A rua sente nos nervos essa miséria da criação”, já disse João do Rio.

Isso sem falar de quando se preocupam mais com o sal na mesa dos restaurantes do que com, por exemplo, uma conscientização mais urgente, como a coleta seletiva do lixo. Fico imaginando a minha briga com o saleiro, ele insistindo, contra a minha vontade, em pular pra dentro do meu prato. “Garçom, por favor, tira urgente esse sal daqui, que hoje eu vim na paz”. #vergonhaalheia

Eu estava falando que entendo tudo isso. Como também entendo que o quintal do vizinho é cheio de buracos, como o nosso. E que o nosso pode ter até mais potencialidades do que as que enxergamos no quintal do lado.

Mas perdemos tempo reclamando do que falta, do que poderia ser, de como poderia ser.

Gosto muito do pensamento do antropólogo (baiano) Antonio Risério, que é o mesmo do ex-presidente uruguaio Mujica, quando dizem que não dá mais pra pensar na cidade ideal, numa sociedade melhor pensada para amanhã.

Risério diz que “Não existe uma catástrofe a caminho. A merda já aconteceu”. E Mujica completa “Temos de lutar para que as pessoas vivam mais felizes hoje”.

Trazendo isso pra cá, pra esta terra importante dos livros de Antônio Torres, da música de Uyatã Raíra, do pincel de Galeano, da escultura de Juraci Dórea, da poesia de Ederval Fernandes e de tantos outros que sabem olhar o nosso quintal, é preciso descartar o choroso lamento e abrir os olhos para a cidade, para a nossa cidade.

Essa que, é preciso lembrar, é a maior vítima de todas.

Ena Lélis/ Feirenses