Acordei terça-feira, semana passada, com a obrigação de escrever algumas palavras para nossos alunos do 3º ano do Ensino Médio que formariam na quinta. Por força de hábito deveria discorrer sobre o momento atual e augurar sucesso e boas realizações nas suas vidas acadêmica e profissional. Alvíssaras! Recebi via WhatsApp o poema Sinto Vergonha de Mim, da poetisa Cleide Canton, paulista de Assis. Ao final ela introduziu um pequeno texto de discurso de Rui Barbosa (1849-1923), proferido no Senado da República em 1914, há mais de cem anos, intitulado Vergonha. Os textos de Cleide e Rui eram declamados por Rolando Boldrin, um ícone do brasileirismo. Se por um lado me emocionei ao ouvir/ler textos tão inspiradores, caí em prostração ao perceber que um século depois, os brasileiros, continuamos os mesmos. Afundados na corrupção, na desídia, na ausência de futuro.

Fugi do poema de Cleide/Rui, mas não deixei de recomendá-lo aos alunos. Resolvi, então, contar história de vidas de duas Marias – Marie Curie e Maria Rita Lopes – exemplos de determinação, perseverança, trabalho focado e, sobretudo, liderança. Queria acentuar essa habilidade tão essencial ao trabalho de equipe e à boa convivência social. Em todos os cantos do mundo, povos, nações, grupos humanos, países, cidades passam por momentos de crise, de dificuldades naturais ou sociais e, de alguma forma, por força de lideranças proativas, conseguem avançar para soluções que, às vezes provisórias, possibilitam o início de processos evolutivos. Personalidades como Winston Churchill, Abraam Lincoln, Mahatma Ghandi, Charles de Gaule, David Ben-Gurion, Ho Chi Minh, Mikhail Gorbachev, Martin Luther King, Ruhollah Khomeini, Vladimir Lenin, Nelson Mandela, Papa João Paulo II, Ronald Reagan, Franklin Delano Roosevelt, Margaret Thatcher, Mao Zedong, Louis Armstrong, The Beatles, Marlon Brando, Coco Chanel, Charlie Chaplin,

Rui Barbosa

Le Corbusier, Bob Dylan, T.S. Eliot, James Joyce, Pablo Picasso, Frank Sinatra, Steven Spielberg, Igor Stravinsky, Oprah Winfrey, Walt Disney, Henry Ford, Bill Gates, Akio Morita, Francis Crick and James Watson, Albert Einstein, Enrico Fermi, Alexander Fleming, Sigmund Freud, Robert Goddard, John Maynard Keynes and Jean Piaget, Alan Turing, Muhammad Ali, Diana, Princess of Wales, Anne Frank, Billy Graham, Kennedy, Bruce Lee, Charles Lindbergh, Marilyn Monroe, Madre Teresa, Pelé, Andrei Sakharov formam uma constelação de astros de primeira grandeza no universo das celebridades. Neste rol, temos cientistas, artistas, políticos, arquitetos, escritores, líderes religiosos; americanos franceses, ingleses, chineses, alemães, russos e, por fim, um futebolista brasileiro. Essa é a triste constatação: Um país tão rico culturalmente, formado por várias etnias com costumes e visões do mundo tão diversas, quase não tem representantes no conjunto de pessoas que contribuíram notoriamente para mudá-lo de alguma forma.

Cleide Canton

A verdade é que nossas elites, políticas, intelectuais, econômicas são parvas. Eventualmente destaca-se um ou outro elemento que é tragado de volta à mediocridade ao embevecer-se com os elogios fáceis da patota amiga, ignara ou então sucumbe aos vitupérios dos invejosos que não suportam o sucesso alheio. É isso! A boa semente que consegue germinar, crescer morre na primeira florada, confinada ao pântano da parvoíce que habitamos. O Brasil não tem um único prêmio Nobel em qualquer área, seja científica, econômica, social ou literária. Quando em vez, algum futebolista é alçado ao rol de celebridades, mas, não tarda muito, desminlingue-se como figura pública, em razão da falta de educação básica.

Maria Rita Lopes

Nossos políticos são verdadeiras lástimas. A última dúzia de Presidentes da República, incluindo aqueles do regime militar, formam um rol de asnos, beócios, desonestos, inconsequentes, estúpidos, motivos para chacotas, zombarias, chistes e desconsiderações de todos os tipos. Fazemos troça de todos eles. Com isso, rimos de nós mesmos. Esse hábito indulgente que temos de nos deliciarmos com o próprio infortúnio. Havia um quadro em programa humorístico na televisão – Primo Rico e Primo Pobre – com os saudosos Brandão Filho e Paulo Gracindo, que sintetizava muito bem esta situação de autocomiseração.

Marie Curie

O ministro da Educação acaba de anunciar que seremos os últimos colocados, na América Latina, no exame internacional PISA realizado pela OCDE, uma organização da qual fazem parte os países mais desenvolvidos do mundo e que desejamos tanto pertencer. Por enquanto somos simples observadores que devem ficar do lado de fora aprendendo como fazem e vivem os educados. Essa mesma organização enviou para o Brasil representantes credenciados para verificarem a lambança realizada pelo presidente do STF, um analfabeto jurídico, consagrado por duas reprovações em concursos públicos, que destruiu com uma só medida o sistema de controle financeiro internacional implantado aqui no país, com objetivo de evitar fraudes e lavagem de dinheiro. A comissão voltou para Europa estarrecida e a cotação do dólar subiu cravando recorde desde a criação do real. A dejeção foi tão feia e malcheirosa que vassouras, rodos, baldes e desinfetantes serão insuficientes para restaurar a limpeza, a credibilidade. A analogia é proposital e necessária. A ignorância quando se alia à má-fé provoca estragos irreparáveis, dizia minha avó Emília. Esse personagem tem, para nossa infelicidade, formado quarteto malévolo com outros presidentes tão ignominiosos quanto ele próprio. Enquanto um engaveta qualquer iniciativa que vise à moralização da vida pública, pois isso não se coaduna com seus princípios, o terceiro faz aprovar, na calada da noite, medidas que atentam contra o bolso e a integridade física do contribuinte. O quarto e último, porém não menos danoso, mudou seu slogan de campanha tão logo foi eleito. Agora o lema é: “Meus filhos acima de todos. Eu acima de tudo!” No início do mandato já é candidato à reeleição. Desgraças! Mal afastamos uma, estamos a imaginar como sair de outra e uma terceira se afigura e nos assombra. É a danação eterna! Desconfio que sofremos do mal que William Shakespeare (1564-1616) descreveu em Otelo, o Mouro de Veneza: “Não chore sobre desgraças passadas, pois é a maneira mais segura de atrair outras!” O Brasil, os brasileiros precisamos virar definitivamente estas tristes páginas recorrentes que vivemos.

Continua na próxima semana.

Prof. Teomar Soledade Júnior