
No meio da tarde de segunda-feira (31) caiu uma chuva sobre a Feira de Santana. Chuva breve – eu sei – mas que serviu para lembrar ao feirense o que é chuva e que elas existem. Na madrugada desta quarta-feira, caiu nova chuva. Faz tempo, por aqui, que não se vive uma temporada chuvosa. “Um inverno”, como diria o sertanejo, que, em sua sabedoria, divide as estações no semiárido em apenas duas: prolongado estio com calor tórrido, o verão; e invernos curtos e espasmódicos, às vezes caudalosos, mas sempre breves.
No passado chovia muito mais por aqui. Havia as trovoadas sertanejas na primavera/verão e as garoas prateadas mais afeitas às regiões de mata atlântica no outono/inverno. Nem todos os anos eram chuvosos – é verdade – mas a aflição com o plantio e a colheita era menor. Isso apesar de todo o desamparo que cercava o sertanejo, sem quaisquer benefícios sociais.
Hoje – sem benefícios sociais – viveríamos indescritíveis tragédias. Afinal, o que se ouve é que as chuvas sertão afora escassearam, estão mais irregulares e, às vezes, violentas, caindo como torrentes. Nada disso contribui para a mais elementar cultura de subsistência, que aposta no milho, no feijão e na mandioca. Chovendo nestes termos, a lavoura não sobrevive.
Além da escassez de chuvas, há o calor tormentoso. Formalmente, o verão se foi em meados de março. Mas as temperaturas seguem elevadas, permanecer em áreas livres é desafiador até no início da manhã. Como sempre se comenta, são os sinais das mudanças climáticas, que só não enxerga quem não quer ver.
Quem acompanha o noticiário sabe que a reversão do atual modelo de uso de recursos energéticos é inviável no curto prazo. Mesmo para o médio prazo não há otimismo. Assim, frear o uso de combustíveis fósseis vai demorar e é bom – desde já – pensar alternativas para, coletivamente, conviver – e sobreviver – com as temperaturas mais elevadas.
Campanhas massivas incentivando o consumo de água para hidratação são bacanas, mas representam pouco para a gravidade do cenário atual. É preciso mais e é necessário mobilizar-se – coletivamente – para buscar alternativas. Por enquanto, pouco se vê. Até aquelas intermináveis discussões cessaram, a partir do avanço da extrema-direita.
Muita gente já sofre pela Feira de Santana em função do persistente calor que bordeja os 40°C todo o verão. Invariavelmente são os mais pobres que residem em locais pouco ventilados ou desempenham suas modestas funções em espaços abertos, ao ar livre. Estão mais expostos ao sol e aos nefastos efeitos da exposição excessiva.
Não, por enquanto ninguém fala nada sobre esta questão. Segue ignorada, como se já não constituísse emergência…
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