Famoso Lucas da Feira (1807-1849), negro escravizado que fugiu da senzala em busca da liberdade e por isso foi obrigado a
abraçar a vida de crimes, tornou-se uma lenda em Feira de Santana.
Foi preso e morreu enforcado, em 25 de setembro de 1849. Para uns, ele foi herói. Para outros, foi bandido. Mas o fato é que acabou se
tornando personagem do que é, possivelmente, a primeira obra literária de Feira de Santana: o ABC de Lucas da Feira.
Segundo o cordelista e pesquisador feirense Franklin Maxado, o ABC, escrito no ano do enforcamento de Lucas, teria como autor um
oficial de Justiça feirense chamado Souza Velho, contemporâneo de Lucas.
Mas, tanto quanto o próprio Lucas, o ABC também é controvertido. Pois existem três versões dele.
Uma, mais conhecida, foi publicada em folheto de cordel por Rodolfo Coelho Cavalcante (alagoano radicado na Bahia (1919-1987), com adaptações dele próprio, que acrescentou mais dois versos a cada estrofe, transformando-a de quadra (quatro versos em cada estrofe) em sextilha (seis versos em cada estrofe). E atribuiu o original ao próprio Lucas da Feira, o que é muito improvável.
Outra versão foi publicada pelo cordelista baiano (de Jaguarari) Antonio Teodoro dos Santos (1916-1981), que manteve o formato de quadra. Esta versão também seria atribuída a Souza Velho.
Mas uma terceira versão, pouco conhecida, pode ser mais antiga que essas duas versões. Pois, enquanto as duas primeiras já tratam o enforcamento de Lucas como decisão da Justiça, esta terceira parece ser anterior ao veredito. Mas é apócrifa, não se sabe quem é o autor.
Ela consta na edição de 27 de junho de 1849 (três meses antes do enforcamento de Lucas) do jornal A Marmota, que circulou na Bahia em 1849. Curiosamente, não inclui as letras I e U. Quem a encontrou foi a historiadora feirense Eliane de Jesus Costa, em pesquisa realizada na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
Existem coincidências de versos entre as três versões. Esta, porém, apócrifa, mas possivelmente escrita por algum feirense, pode ser a obra fundadora da literatura de Feira de Santana, já que não se conhece nenhuma obra literária anterior a ela.
A seguir, a terceira versão:
3ª VERSÃO
(Autor desconhecido)
(Escrito no português da época. Os versos das estrofes X e Z tem palavras ilegíveis, pois o exemplar do jornal A Marmota, onde ele foi encontrado, apresenta rasuras)
O A.B.C. DO LUCAS
A todos os meos senhores
Licença quero pedir
Por meio d`um A.B.C.
Eu quero me despedir:
A
Adeus saco de limão
Logar onde eu nasci,
Vou me embora para baixo
Levo saudades de ti.
B
Bem dizião meos Amigos
Q’eu acabasse a função,
Q’o Cazumbá por dinheiro
Faria as artes do cão.
C
Cuidava que a minha vida
Nunca havia de ter fim,
Por que julguei que na Feir
Houvesse hum homem por mim.
D
Descendo para Cachoeira
Muita gente se alegrou,
Outros dizião baxinho
O Lucas já se mudou.
E
Esperanças malogradas
Me poserão neste estado.
Mas com tudo inda pretendo
Ser livre n’outro jurado.
F
Foi tanta a minha mizeria
Q’tudo fez abismar,
Stive tanto tempo prezo
Sem ninguem me visitar.
G
Ganhar eu tanto dinheiro
Para os outros se arranjarem,
Para deixarem me preso
E nunca mais me soltarem!!
H
Hum dia dei um gemido
Q’se ouvio em toda parte
De grande dor que sofria
Do tiro d’um bacamarte.
J
José Pereira Cazumbá,
Foi quem me fez a traição
Livrou-se, ganhou dinheiro
Só com minha prisão.
L
Lastimando sempre estou
Com remorços do que fiz
Passando mal na prisão
Entregue a tanto Juiz.
M
Muito tenho suportado
Ángustia, e pena tão forte.
Q’além do braço cortado
Me derão pena de morte.
N
Não digo quaes são meus socios
E nem eu devo dizer,
Q’por me ver eu perdido
Não devo os outros a perder.
O
Ouvi dizer que na Feira
Forca se vai levantar,
Assim mesmo inda alejado
Me pretendem inforcar?!?!
P
Peço aos meus Amigos da Feira
Q’ sejão de mim lembrados,
Q’roguem pra ver si eu posso
Sair livre nos jurados.
Q
Quando eu me fui embora
Fizerão grande funcção
– Agora sim stamos livre
Da quelle grande ladrão.
R
Resguardarão sempre os pobres
Q’ não tinhão que furtar,
Mas dos ricos as carteiras
Nunca deixando escapar.
S
Saltando eu na Bahia
Vi muita gente faceira
Pretos e brancos gritando:
Ahi vem Lucas da Feira.
T
Tantos apertos que tive
De todos eles sahi,
Na balla de Cazumbá
Somente he que me perdi.
V
Varias veses tenho estado
Com grande melancolia
Por ter deixado o meu matto.
E vir parar na Bahia.
X
Xoro agora arrependido
Ter eu sido malfeitor
A minha fama [ilegível]
Te ao próprio [ilegível]
Z
Zombão [ilegível]
Por me t [ilegível]
E nada [ilegível]
A gente [ilegível]
O til por ser mais pequeno
Ficou para derradeiro,
Não sei se furtarei mais
Dinheiro do passageiro.
Se eu tivesse arrecadado
Muito dinheiro em porção,
Era logo absorvido
Fazião-me até Barão.
No livro azul que sumio-se
Stavão muitos assentados,
Mas como erão figurões
Stão hoje bem discançados.
Muita gente entrou na dança
Gente seria, e gente branca,
O pobre Lucas apenas
Carrega com toda tranca.
Se eu soubesse que ao depois
Querião me perseguir
Guardava no meu buraco,
Dinheiro pra repartir.
Mas em paga d’isto tudo
Eu tomei huma lição,
Quem tem padrinho é honrado
Quem se prende é que é ladrão.
(autor não assinou)
(BN Hemeroteca Digital. A Marmota. Bahia:
Quarta-feira 27 de junho de 1849.
Foto: capa de uma versão, do poeta Rodolpho Coelho Cavalcanti.
Textos transcritos do livro “Grandes Poetas da Feira”

