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André Pomponet
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026 / Publicado em Colunistas, Destaques, Home

Feira e a visita de Tristão de Athayde

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Muitas personalidades de destaque visitaram a antiga feira-livre que acontecia no centro da Feira de Santana às segundas-feiras. Um dos relatos foi o do escritor, crítico literário e membro da Academia Brasileira de Letras, Tristão de Athayde, pseudônimo de Alceu Amoroso Lima. Colunista do prestigiado “Jornal do Brasil”, Athayde visitou a Feira de Santana em companhia do jornalista Zitelmann de Oliva. A viagem rendeu a crônica batizada com o singelo nome de “Feira”, na edição de 29 de março de 1962 do JB.

A visita aconteceu numa segunda-feira, depois de uma viagem pela rodovia que o escritor descreveu como “perfeita e moderna, quase em linha reta”. Ele prossegue, já descrevendo a feira-livre: “O mercado, propriamente dito, é apenas o centro da grande feira, que se estende pela Cidade inteira, enchendo ruas e praças a perder de vista. Dizem que outrora, quando havia também a feira de gado, hoje suprimida, as proporções eram incomparavelmente maiores”.

Na sequência, Tristão de Athayde revela suas impressões sobre o comércio e louva a farinha de mandioca: “A indústria é primitiva, os principais produtos industriais mais elaborados vem de fora. (…) Mas as farinhas, especialmente estas, são maravilhosas, perfumadas, coloridas, quentes de aspecto e fresquinhas das mãos que as prepararam nas humildes casas sertanejas de farinha”.

A descrição segue, vívida: “Os inhambus, os galos de catinga, os teiús, as próprias cobras [sic] ali estão espalhados pelo chão, esventrados, espetados em bambus”. As frutas também mereceram atenção: “Os licores de frutos, esses mesmos, os umbus, as mangabas, os maracujás, outros frutos silvestres de nomes inéditos e gosto adocicado”.

Outros produtos das feiras-livres nordestinas são notados: “Ao lado das barraquinhas da rústica cerâmica, em que os bonecos de barro do Vitalino e de seus discípulos e já numerosos imitadores, nos dão uma mostra primitiva dos costumes populares”. As ervas e a medicina popular não escaparam à sua observação: “As ervas medicinais constituem um capítulo saboroso, cada qual com sua direta aplicação para o peito, para os rins, para o estômago, até para os males da alma”.

Não faltaram também – é claro – referências à literatura de cordel: “a barraquinha dos folhetos de cordel, com suas capas decalcadas de cromos sentimentais da belle époque europeia, que ali continuam a alimentar o sentimentalismo sertanejo”. Havia fartura, mas havia miséria, como bem notou o pensador católico: “E no meio de toda aquela fartura – a miséria, os trapos, o reflexo trágico da seca, que há meses assola todo o sertão”.

Na sequência, Tristão de Athayde foi almoçar na fazenda do empresário e jornalista feirense João Falcão, – “figura típica de nordestino adiantado” – onde notou os efeitos da seca sobre uma lagoa e louvou a carne de sol servida na refeição. No retorno, comenta o ritmo lento dos sertanejos que retornam da feira: “Sertanejos que à tarde encontramos pela estrada, de volta da agitação acalorada da feira, com os cajás vazios, ao choto modorrento dos seus esqueléticos rocinantes”.

Tristão de Athayde – ou Alceu Amoroso Lima – foi uma dos mais destacados intelectuais brasileiros do século passado. Atuou em frentes diversas e a crônica em que rememora sua passagem pela Feira de Santana reflete suas qualidades literárias.

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André Pomponet
André Pomponet
Economista pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2002), mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (2012), exerce o jornalismo desde 1995, quando ingressou no extinto jornal Feira Hoje. Posteriormente, atuou em outros órgãos de comunicação e foi Chefe de Redação da Assessoria de Comunicação Social da Câmara Municipal de Feira de Santana.É colunista do Blog da Feira.
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