Numa de suas crônicas mais líricas – com o perdão da redundância – Rubem Braga narra as desventuras do poeta Carlos Drummond de Andrade com a falta d’água em sua casa, na rua Joaquim Nabuco, em Ipanema. Com humor e ironia, o cronista menciona as reclamações dos moradores, a vizinhança ilustre – o então presidente Café Filho morava lá também – e os esforços infrutíferos do poeta para dispor do líquido, como a instalação de uma bomba.
Como o problema continuava, o Velho Braga resolveu encaminhar, arrematando o texto, um pedido ao prefeito carioca: “Se a sua intenção é castigar o presidente Café Filho pelo fato de havê-lo nomeado prefeito desta bagunça e por isto não lhe dá água, tudo bem; mas este castigo envolve muitas outras pessoas inocentes da rua Joaquim Nabuco, inclusive um grande poeta que esta cidade deveria respeitar e honrar, e não perturbar, empobrecer, irritar e deprimir, como está fazendo”.
Não conheço nenhum poeta ilustre, nem estou às voltas com falta d’água, mas resolvi copiar o método do grande cronista para resolver junto à prefeitura um problema bem mais simples – é o que imagino. Trata-se do botão do dispositivo que aciona o sinal vermelho do semáforo na Avenida Maria Quitéria, na altura de uma loja de veículos que fica defronte à Associação Cristã Feminina.
Alguém vandalizou o dispositivo, arrancando o botão. Quem vai atravessar ali, sofre: os carros avançam, velozes, e raramente, surge uma chance segura de atravessar; o jeito então é torcer para que alguém acione o dispositivo do outro lado da avenida – ainda não quebraram o que há lá – para cruzar a via em segurança.
O trecho é movimentado e, por ali, circulam crianças, adolescentes, idosos, além de gente que dispõe de satisfatórias condições físicas, mas que não se arrisca a atravessar desafiando os automóveis que descem desembestados do viaduto da Fraga Maia. Até um cachorro peludo, encardido – e já manco – impacientava-se ontem à tarde, tentando a travessia. Acionei o dispositivo e ele, calmamente, atravessou na faixa, para espanto de uma motociclista que passava no momento.
Enfim, peço coisa pouca e o interesse é coletivo. A escola que funciona na Associação Cristã Feminina está em reformas, mas mesmo assim passam por lá crianças e idosos e o sufoco tem sido grande. Nem vou reivindicar a pintura da faixa de pedestres, porque li notícias sobre as dificuldades.
É isso. Fico no aguardo do reparo e agradeço desde já.
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