O dia 14 de março – Dia da Poesia – guarda uma daquelas rimas ricas que apenas o tempo sabe declamar: exatos 89 anos separam o nascimento de dois gigantes da nossa literatura, o baiano Castro Alves, o “Poeta dos Escravos”, nascido em 1847, e o paraibano Chico Pedrosa, mestre incontestável da poesia matuta, que veio ao mundo em 1936.
“É como se a musa da poesia, tendo espalhado seus versos na Bahia imperial, fizesse questão de retornar ao Nordeste, no interior da Paraíba, quase um século depois para abençoar outro filho ilustre”.
O Nordeste é realmente o que dizem, um celeiro inesgotável de poesia e mestres na palavra. Chico Pedrosa é um desses, “lenda viva” da cultura popular nordestina.
A marca maior de Chico Pedrosa é a “poesia matuta”, cheia de humor, rimas ricas e causos do interior. Um dos seus poemas famosos é “A Briga na Procissão” (também conhecido como Jesus na Cadeia), que narra a confusão de um figurante que interpretava Jesus e perdeu a paciência com as chicotadas na Sexta-Feira da Paixão.
“Todo ano era um Jesus,
um Caifaz e um Pilatos
só não mudavam a cruz,
o verdugo e os maus-tratos,
o Cristo daquele ano
foi o Quincas Beija-Flor,
Caifaz foi o Cipriano,
e Pilatos foi Nicanor.
(…)
Cristo dizia: ‘Ôh, rapaz,
vê se bate devagar.
já tô todo encalombado,
assim não vou aguentar.
tá com a gota pra doer,
ou tu para de bater
ou a gente vai brigar!'”
E o desfecho:
“Desmancharam a procissão,
o cacete foi pesado
São Tomé levou um tranco
que ficou desacordado,
acertaram um cocorote
na careca de Timóteo
que até hoje é aluado.
(…)
Desde que o mundo se fez,
foi essa a primeira vez
que Cristo foi pro xadrez,
mas não foi crucificado.”
Outro clássico seu repertório é “O Erro da Vendedora”, que conta a história de um rapaz que tenta mandar luvas para a namorada, mas a vendedora se confunde e embala uma calcinha de renda. Ele envia a carta achando que está falando das luvas:
“Ela também garantiu
que não mancha nem desbota,
a mão entrando e saindo
não rasga nem amarrota,
eu comprei larga na frente
pra mão chegar livremente…”
Chico Pedrosa é um gênio na arte de fazer o povo rir e refletir através da métrica do cordel, da poesia matuta mas também de poemas brilhantes e melancólicos como o que fez, de improviso, no Mercado da Madalena, em Recife, quando soube da morte do seu conterrâneo e amigo, Ronaldo Cunha Lima, o ex- governador da Paraiba conhecido também por ser poeta.
A ligação entre Chico Pedrosa e o poeta e político Ronaldo Cunha Lima é muito grande e há também uma “coincidência poetica entre ambos: além de nascerem na mesma cidade, fii no mesmo ano e no mesmo mês, com apenas quatro dias de diferença! Chico nasceu em 14 de março de 1936, e Ronaldo em 18 de março de 1936. Chico Pedrosa gravou o famoso e hilário poema “Habeas Pinho” (de autoria de Ronaldo) em seu CD Retalhos do meu Sertão (2010).

Pedrosa é reverenciado tanto pelos mestres antigos quanto pela nova geração. A banda pernambucana Cordel do Fogo Encantado costumava declamar seus poemas em shows pelo Brasil afora.
Publicou obras aclamadas como Pilão de Pedra (Volumes I e II) e Raízes da Terra, e lançou CDs onde imortalizou sua voz declamando seus versos, como Sertão Caboclo, Paisagem Sertaneja e No meu sertão é assim.
Patrimônio itinerante do Nordeste, Pedrosa mora em Feira de Santana, mas viaja constantemente, a convite, para eventos culturais e homenagens que lhe prestam em todos os estados nordestinos. Em Pernambuco, recebeu o título de “Cidadão Pernambucano” numa sessão da Assembleia Legislativa lotada de poetas e escritores. Participa de diversas bienais de livro, em Recife, Fortaleza, Natal, João Pessoa, e outras cidades e capitais da região.
Quando está em Feira frequenta o Mercado de Arte Popular. A não ser sua intensa participação na Feira do Livro, neste município, Chico Pedrosa ainda não recebeu nem o mínimo das homenagens que merece. Pedrosa faz 90 anos.

