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Ana Mendes
segunda-feira, 16 de março de 2026 / Publicado em Colunistas, Destaques

Sotaque Potiguar, Quintal de Sapoti

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O tempo e a saudade das histórias e memórias que se fizeram dentro dela, fez com que a nossa casa se revelasse como primeira moradora de si mesma. Hoje vemos o quanto ela tinha vida e se mostra imortal, replicando versos, poesias e causos encharcados de um saudosismo: ora glorioso, ora penoso em nossas mentes. Afinal era uma casa e como tantas outras, cheias de extremos de alegrias e conflitos de uma família potiguar que enveredou a sorte em terra baiana.

Localizada na Praça da Matriz, endereço nobre da cidade, a vastidão verde e bela à sua frente destoava da singela arquitetura da sua fachada com uma porta, minúsculas portinholas e mais duas janelas ao lado. Durante um tempo, o da ditadura militar, éramos proibidos de abrir as portinholas. Com um irmão preso por seu engajamento em causas sociais, a família também se tornou refém do medo. Ainda assim, tarde da noite, aquelas portinholas abrigavam os olhares piedosos da sua matriarca, que não poupava esforços para tratar e acolher os mendigos e as grávidas daquela Praça.

A vista ao abrir a porta revelava o leito de um grande e estreito corredor, cheios de samambaias penduradas e seguido por 4 quartos, que desembocava em uma ampla sala de estar e jantar. À esquerda uma entrada sem porta para a cozinha, à direita uma porta de vidro com armação de ferro branca, que se destacava como o detalhe mais moderno da arquitetura antiga, com vigas e telhado alto, o que nos proporcionava uma boa ventilação e a vasta criação de lagartixas: distração certa na hora de dormir ou olhar para o alto.

Para o filho primogênito da casa, aquele telhado, sempre pintado de branco, apresentava um modelo arquitetônico exemplar e, assim, as aulas sobre “a massa de ar de zona maior” nos eram dadas durante o verão. Até porque, no inverno toda aquela altura não era bem vinda.

A elegante porta de vidro se abria para os espaços de maior vida da casa: uma varanda e um quintal. A varanda era repleta de passarinhos, com destaque para um papagaio que cantava o hino nacional e assobiava quando passávamos para ir ao banheiro. Ali havia uma espreguiçadeira de ferro e tubo de plástico, comprada por carnê nas mãos de um vendedor ambulante, e uma mesa na qual a matriarca batia seus bolos e preparava cocadas de forno e doces de tacho. Ao longo desses rituais culinários, tinha aos seus pés o cachorro Bolinha e o gato Naninho. Também nessa mesa, anotava-se a lista da trouxa de roupas que partiam dali junto com as lavadeiras da Rua Nova.

Ao fim daquela varanda havia uma meia parede, com uma abertura para o quintal, uma das partes mais abençoadas da casa. Nele havia um enorme pé de sapoti que estendia seus galhos e frutos para os vizinhos. Embaixo dele se destacavam as palmeiras, rendas portuguesas, fetos e tantas outas espécies de vida, além de dois toneis de latão, adquiridos da antiga CEDEP, comércio vizinho marcante.

Da varanda e olhando para o verde, ao fundo no quintal, a nossa mãe amava assistir o dia envelhecer: era um espaço de vida, por isso de esperança! Ele não era grande, mas no meu vulto de criança era uma floresta para as brincadeiras. Nas memórias da infância, se faz intacta a visão do vento embalando as folhas daquele sapotizeiro e o afeto conduzido pelo afago de mãe, quando juntas sentadas em um banco branco de madeira. Essa é a memória do meu refúgio, tantas vezes perseguido e tão facilmente encontrado. O exercício da busca mapeou o caminho do encontro da nossa casa e do nosso quintal, hoje presentes em nosso interior que voa em versos e pousa nessa poesia.

Ana Mendes é professora doutora do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Ouro Preto – MG.

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