Surpreende-nos a capacidade de renovação de Salvador – a velha Cidade da Bahia, São Salvador da Baía de Todos os Santos. Ela sempre se reinventa quando os propósitos são verdadeiros, sobretudo quando se trata de arte contemporânea.
A exposição coletiva *477 ANOS DA CIDADE DA BAHIA*, instalada na sala de exposições do *Museu da Misericórdia*, é uma das provas vivas desta renovação. Nela o novo se apresenta como horizonte. As janelas que se abrem sobre a Baía de Todos os Santos nos sinalizam o quanto a cidade inteira torna-se, ela própria, matéria estética — um corpo antigo que insiste em pulsar o futuro, inspirando incessantemente o movimento da arte.
Nesta edição inaugural, *62 artistas baianos ou naturalizados baianos* ocupam o espaço para afirmar que a contemporaneidade é um território que já nos pertence. A mostra reúne 51 obras bidimensionais em linguagens e técnicas que ousam sem pedir licença, desde o desenho, a pintura, a fotografia e a joalheria, até as artes digitais e outros híbridos — além de 11 esculturas em metal, madeira, cerâmica e poliuretano. Entre elas, uma que utiliza o Raku, milenar técnica japonesa de emendar pedaços de cerâmica com ouro verdadeiro.

Quando a proposta da mostra foi lançada, em novembro de 2025, a adesão dos artistas foi imediata, intensa e renovadora. Não apenas pela potência criativa do grupo, mas também porque a Salvador de hoje, depois de um longo hiato de ausências e carências, estava faminta de arte que a celebrasse sem nostalgia e a representasse como ela merece.
Com o aval dos artistas, *a curadoria presta ainda tributo ao mestre Carybé* expondo duas de suas obras que se integram à nossa mostra, evocando sua devoção à Cidade da Bahia e sua imersão sagrada como *obá de Xangô, iniciado no Ilê Axé Opô Afonjá*. Nele a criação artística e a força ancestral, mais que em qualquer outro, se encontram para louvar e bendizer a nossa terra.
Mas esta exposição, na verdade, não se encerra em si. Ela se pretende semente a partir da qual os passos dados hoje tornar-se-ão caminho contínuo, encontro marcado, celebração que retorna. Por isso desejamos que a cada ano, no aniversário da cidade, ela e a arte voltem a se encontrar num espaço como este – reafirmando a renovação e a reinvenção, tão sinalizadoras da contemporaneidade.
Afinal, *Salvador* já não se define mais pela sua idade, mas por sua capacidade infinita de recomeçar..
Pois que seja sempre nova. Sempre contemporânea. Sempre a Cidade da Bahia. E que retome o carinho aos seus artistas, como sempre acontecia!
As fotos são de trabalhos de Guache Marques
Chico Mazzoni e Angela Petitinga são Curadores da exposição_

