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Marcionílio Prado é um dos nomes fundamentais na história do Axé Music, sendo um dos primeiros cantores negros a protagonizar um trio elétrico na Bahia. Também foi cantor da Banda Eva, trio Tapajós e eleito Cantor Revelação da maior festa de rua do mundo. Este ano, o artista realiza três apresentações no Carnaval de Salvador. Em 1º de março, às 22h, ele sobe ao palco da Praça Tieta, no Pelourinho. No dia 2, às 13h, comanda o Pranchão em Vista Alegre, no subúrbio ferroviário de Salvador. Mais tarde, às 18h, retorna ao Pelourinho para se apresentar na Praça das Artes.
A história do artista, que sempre viveu da música, passa pelo interior da Bahia, pelas ruas do Pelourinho – de onde foi resgatado por uma comunidade rastafari, pela Argentina e também por espaços importantes do carnaval de Salvador.
Nascido em Itabuna, no sul da Bahia, em 9 de abril de 1960, Marcionílio Prado cresceu em um ambiente profundamente musical. filho do locutor de rádio, cantor e compositor Romilton Teles Santos, e da cantora Neide Prado Santos, conhecida como a morena dos olhos verdes, cresceu na Mangabinha, localidade que tornou-se um polo de talentos e ajudou a moldar o que, anos depois, seria conhecido como Axé Music. Nomes como Luiz Caldas, Norberto e Zé Paulo fizeram parte dessa efervescência cultural.
“O bairro se tornou musical, vieram músicos de todo lado. Dentre eles, estão artistas da Axé Music. Luiz Caldas e a família inteira migraram pra lá pro meu bairro. O cantor Zé Paulo também, porque passou a ser cantor de uma banda. O movimento musical por lá fazia tanto sucesso, que quem estava próximo era sinônimo de que em algum momento ia ter trabalho e ia tocar“, relembra Marcionílio.
Nos anos 1980, Marcionílio começou a cantar em trios elétricos e rapidamente se tornou uma figura de destaque no cenário musical. Em uma época em que os trios eram dominados por cantores brancos, ele foi um dos primeiros negros a se destacar, enfrentando resistência e até repressão policial.
“Nessa época que eu apareci cantando num trio elétrico, não existiam negros cantando em trio elétrico, rasta, com o cabelo dread porque era perigoso. A polícia pegava as pessoas negras, assim como eu, e prendia simplesmente para cortar o cabelo de facão“, conta.
Banda Eva – Marcionílio passou por trios importantes, como o Tapajós, antes de ser convidado para ser vocalista da Banda Eva, que era um dos blocos mais elitizados do Carnaval de Salvador. Sua entrada representou uma mudança significativa, já que o bloco era frequentado majoritariamente por brancos e escolhia seus membros a partir da aparência.
“O Bloco Eva, que era um bloco de ricos, brancos, escolhiam os associados pela fotografia, pela aparência. E eu fui contratado para cantar ali, onde não existiam negros. Então, o paradigma aí foi maior ainda. No Carnaval de 86, eu fui escolhido o melhor cantor do Carnaval de Salvador. O cantor revelação, no primeiro ano, com o Eva“, lembra o artista.
Posicionamento artístico – A postura combativa de Marcionílio dentro da indústria musical acentuou ainda mais os desafios. Em 1988, ele lançou “Queira ou Não Queira”, música de Jorge Portugal e Roberto Mendes, que trazia uma crítica explícita ao racismo estrutural.
“Essa música foi um marco. ‘Você desbota a minha cor para colorir seu carnaval’. O que é bom para você não é bom para mim. Quando eu começar a ser, será o seu fim’. Pronto, isso foi o bastante para a minha relação com os blocos de carnaval ficarem complicadas e eu nunca mais, depois dessa música, consegui fazer mais nada com os blocos“, conta.
Nos anos 1990, Marcionílio viu sua presença no cenário baiano diminuir e decidiu buscar oportunidades no exterior. Ele se mudou para a Argentina, onde permaneceu por sete anos, tocando e compondo.
“Eu fui viver fora do Brasil nesse momento. Fui para Argentina cantar minhas músicas, compus e cantei com um guitarrista argentino e tentei montar uma banda em Salvador na década de 90, mas não foi possível porque não nos deram importância, porque o Axé Music é que estava em alta“, explica.
Ao retornar ao Brasil, enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua vida: sem espaço na indústria musical, acabou vivendo nas ruas do Pelourinho.
“Vinte anos depois de ter cantado no Eva, eu também vivi nas ruas do Centro Histórico de Salvador. Terminei ficando numa situação bem complicada. E fui acolhido por uma favela que tinha no Pelourinho, chamada Rocinha do Pelourinho, onde havia uma comunidade rasta. E aí eu fui conhecer o gueto e me transformei num músico dos pobres, do gueto da favela”, relembra.
Apesar das dificuldades, Marcionílio seguiu na música. Em 2003, lançou “Caluda Banda Nave”, um álbum que mistura flamenco, soul, rock n roll e Axé Music. Nos últimos anos, tem se dedicado à produção independente e ao resgate de sua trajetória musical.
Com mais de 40 anos de carreira, Marcionílio Prado segue como uma das figuras mais autênticas e combativas da música baiana. A história do artista se confunde com a própria origem do Axé Music. Atualmente, Marcionílio trabalha em novas composições e se mantém firme no propósito de preservar sua arte e história.
*Agenda*:
01/03 (sábado): 22h – Praça Tieta, Pelourinho
02/03 (domingo): 13h – Pranchão, Vista Alegre (Subúrbio Ferroviário)
02/03 (domingo): 18h – Praça das Artes, Pelourinho