Em meio à velocidade das notícias, à sobrecarga de informação e às pressões inerentes ao exercício da profissão, um tema urgente ganhou espaço para escuta e reflexão em Feira de Santana: a saúde mental dos jornalistas. Na noite da última segunda-feira (4), comunicadores da cidade, da região e também de Salvador se reuniram no NH Feira de Santana para participar da palestra “Quem cuida de quem informa? O jornalismo na era da sobrecarga de informação”, conduzida pelo neurologista Ivar Brandi, mestre em Medicina e Saúde com atuação em Neurologia da Cognição e Comportamento.
Mais do que uma homenagem ao Dia do Jornalista, celebrado em 7 de abril, o encontro se consolidou como um convite à pausa, rara na rotina da categoria, para refletir sobre os impactos emocionais e psicológicos de uma profissão que vive em constante estado de alerta.
Durante a palestra, Ivar Brandi contextualizou o cenário contemporâneo em que o jornalista está inserido, marcado por conceitos como “sociedade do cansaço”, “sociedade do desempenho”, “economia da atenção” e “sociedade hiperconectada”. No Brasil, essas pressões se somam a fatores como violência urbana, desigualdade social e instabilidade, ampliando os riscos de adoecimento mental.

Os dados apresentados reforçam a gravidade do quadro: levantamento da Agência Senado (2024) aponta que cerca de 472 mil jornalistas brasileiros foram afastados por transtornos mentais; um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Nos Estados Unidos, 84% dos profissionais da área relataram questões relacionadas à saúde mental no mesmo período.
Diante desse cenário, o especialista propôs uma reflexão coletiva sobre responsabilidade e cuidado. “Quem cuida de quem informa são todos nós. Jornalistas, gestores, colegas de profissão. Não existe uma receita individual, o cuidado é coletivo”, destacou.
Ao final, deixou uma provocação que ecoou entre os presentes: “Como construir uma cultura em que ninguém precise adoecer para provar que é competente, comprometido ou apaixonado pelo que faz? Nós não precisamos adoecer em razão do amor pela nossa profissão”.
A identificação com o tema foi imediata entre os participantes. A radialista Lis Braga, de Santo Estêvão, destacou a sensibilidade da iniciativa. “É muito importante reconhecer que essa situação existe e precisa ser discutida. Trazer um profissional com tanta didática e profundidade fez toda a diferença. Valeu muito a pena participar”.
Já o jornalista Danilo Guerra ressaltou a importância de criar espaços de acolhimento dentro da própria categoria. “A gente vive produzindo e consumindo informação o tempo todo. Parar para respirar é essencial. Se não cuidarmos de nós mesmos, como vamos cuidar dos outros? O evento trouxe esse olhar de empatia e reforçou que precisamos cuidar uns dos outros. Os organizadores estão de parabéns pela sensibilidade na escolha do tema e acolhimento proporcionado”.

O diretor da Minor Hotels (rede internacional de hoteis ao qual o NH pertence) no Nordeste brasileiro, João Corte-Real, afirmou que “todos nós sentimos, em algum momento, pressão, cansaço, até sinais de burnout. E, no caso dos jornalistas, isso é ainda mais intenso”. Esse, segundo ele, foi o motivo pelo qual o tema – importante, atual e necessário – foi escolhido para homenagear os profissionais de comunicação.
Além do conteúdo e das reflexões, o encontro também teve um papel afetivo: foi uma oportunidade de reencontro entre colegas e amigos que, na correria do dia a dia, nem sempre conseguem parar para conversar. O ambiente favoreceu trocas, escuta e conexão; elementos fundamentais quando se fala em saúde mental.
“Embora os desafios sejam reais, vimos na palestra que há caminhos possíveis. O autocuidado, o apoio entre colegas, a responsabilidade das empresas em promover ambientes mais saudáveis e a busca por ajuda profissional são passos essenciais para transformar a realidade”, acrescentou João Corte-Real.



