Todas as quintas-feiras, na casa do poeta Antonio Brasileiro e da artista plástica Nanja Brasileiro, um grupo de pessoas entre 20 e 80 anos toma seus lugares. Alguns lugares já são cativos como é o lugar do poeta Roberval e o do anfitrião “Imperador” Antonio Brasileiro. E a reunião se inicia e se estende até altas horas da noite.
Esses encontros já vêm acontecendo desde os anos de 1970, quando um professor de 27 anos, vestindo camiseta Hering, calças de veludo apertadas e alparcatas franciscanas com meias, apareceu para revolucionar a estudantada. Com uns óculos à John Lennon e o andar saltitante, ele atraía olhares curiosos por onde passava. Começou a ensinar no colégio Estadual de Feira de Santana e não pedia permissão para usar as salas de aula como meio de compartilhar os seus sonhos e a sua história com aqueles alunos ainda adolescentes e cheios de brilho nos olhos.
E, logo atraiu um grupo dos mais interessados e deslumbrados com o que transmitia o professor-poeta. Na sala de aula só se falava de História, poesia, filosofia, música e tudo mais. A plateia ficava atenta e o ator se realizava nesse palco onde as aulas iam além do conhecimento da matéria propriamente dita (Educação Moral e Cívica); elas formavam vocações e opiniões.
Pouco tempo depois, o professor levou aqueles alunos que mais se aproximavam da poesia e das artes para a sua casa e lá se reuniam uma vez por semana para discutir assuntos da vida, da poesia, das artes e sobre o estar no mundo. A sede do conhecimento estava ali, nos ouvidos atentos e os olhares encantados daqueles jovens que iam se aprimorando a cada encontro. Ali tudo se questionava, ali se trocavam ideias e conhecimentos. O poeta sempre trazia novas leituras, mostrava e emprestava livros e autores de vários ramos da literatura e da filosofia.

Hoje, muitos daqueles jovens se tornaram poetas, professores universitários e, acima de tudo, homens do bem. E o poeta Antonio Brasileiro faz 82 anos com o mesmo entusiasmo ao acordar no dia da reunião do Império das Mangueiras. Hoje ele se tornou o Imperador, como determinou o nosso cronista-mor Cezar Oliveira, e essa que aqui, vos relata, a Imperatriz (que nada tem que se parece com uma). Mas o que importa é que ainda existe nesse canto do mundo, pessoas que se reúnem para ouvir, falar, discutir, compartilhar mas, principalmente estar em companhia uns dos outros. Entre esses amigos, sempre estão os veteranos Roberval Pereyr, um poeta dos melhores; o nosso Trazibolo Henrique Pardo Casas (o Lorde, como eu o chamo); e, mais espaçadamente, o nosso artista plástico Juraci Dórea. E dos novos súditos, o historiador-mor, Wellington, o juiz Nunes, o procurador gentil Antonio Carlos e os meninos do Império, Dudu e Lucas. Recentemente, temos presenciado a participação de mulheres, que são extremamente raras, e que às vezes comparecem, mas desaparecem por motivos desconhecidos. Os homens alegam que elas desaparecem porque Nanja não permite a presença de mulheres nas reuniões. Ao longo dos anos, sempre surgia uma ou outra mulher que tentava participar, mas que não voltavam outras vezes. Nos últimos meses surgiram Fabiana, Leila e Nildecir. Espero que elas continuem frequentando o Império das Mangueiras.
E eu só sei que, enquanto houver esse império, o poeta Antonio Brasileiro vai acordar com entusiasmo.

Nanja Brasileiro é artista plástica, casada com Antônio Brasileiro. Esse texto está publicado originalmente no Facebook.



