Hoje é aniversário de Anchieta e me parece um absurdo que o mundo continue funcionando como se isso não fosse importante.
Há onze anos, ninguém compra um presente para ele. ninguém lhe pergunta o que gostaria de jantar. e, ainda assim, acordo todos os anos com a sensação de que esta continua sendo uma data sagrada. Porque hoje é aniversário do meu pai.
Anchieta merecia ter envelhecido, merecia os cabelos brancos, as histórias repetidas, os jogos do Bahia, mais fins de tarde e mais tempo conosco. Há onze anos, sou eu quem acende as luzes da casa.
Acho que é assim que o amor continua: repetindo os gestos de quem partiu. Às vezes, ainda penso em lhe contar alguma coisa. uma alegria pequena, um dia difícil, alguma bobagem que só faria sentido para nós dois. a morte levou muitas coisas, mas não conseguiu me fazer deixar de ser sua filha.
Gosto de imaginar que, onde quer que esteja, está rodeado dos bons e daqueles que ama. gosto, sobretudo, de imaginar que minha mãe está lá, sentada ao seu lado.
E gosto de pensar que alguém percebeu a data. que alguém apareceu com um bolo simples e disse: “hoje é aniversário de Anchieta”.
Porque os homens que amam assim merecem ser celebrados. Feliz aniversário, pai. Você me ensinou que tudo passa. E tudo passou. Menos você.
Maíra Nery é filha do jornalista Anchieta Nery, que faria hoje 77 anos.

