Lembro do entusiasmo das pessoas com o Orkut há cerca de duas décadas. Foi a pioneira entre as chamadas redes sociais e, portanto, uma grande novidade. Atraiu a gente mais jovem, mas também pessoas mais maduras, encantadas com a possibilidade de reconectar-se a amizades antigas, pessoas que moravam longe ou que, simplesmente, tinham ficado estacionadas no passado. Começava, naquele tempo, o fenômeno que, hoje, ocupa posição central na vida de muita gente.
Mais afeito à vida real – era possível uma rotina analógica naqueles tempos – demorei a ingressar na plataforma. Usava pouco, até por óbvia falta de tempo. Mas não foi isso que despertou certa indiferença. É que, basicamente, encontrava por ali bobagens infantis ou a nostalgia de um passado emoldurado. Nem tão jovem, mas nem tão velho, não enxergava atrativos.
Pouco depois houve o boom de redes sociais. Surgiram plataformas mais aprimoradas, conectando os mesmos amigos em novos ambientes, surgiram plataformas de relacionamentos amorosos, de conexões de trabalho, enfim, de tudo que pode representar afinidade entre pessoas e – mais que isso – lucro para os donos das plataformas. Por fim, com a evolução dos aparelhos celulares, as mídias chegaram à palma da mão.
Junto com tudo isso veio o ódio, no vácuo do fortalecimento dos extremismos. É claro que o ódio, o rancor, o ressentimento, a raiva e o niilismo sempre existiram nestes ambientes digitais. Mas, após sua massificação, veio um direcionamento assustador, certamente impulsionado pelos algoritmos, que foram se sofisticando. O ódio, nestes espaços, só perde para as propagandas.
Às vezes, na imprensa, vê-se alguma notícia alvissareira: as pessoas estão cansadas do ódio, da discórdia, dos ressentimentos, dos algoritmos. É bom saber: pensava que lidava sozinho com o desconforto. O que elas fazem, então, para manter a sanidade, impedir que sua saúde mental seja ainda mais comprometida? Em grande medida e dentro do possível, desconectam-se.
É um exercício valioso. Fazê-lo dá uma indescritível sensação de liberdade. Sobretudo porque, em todos os lugares, o que se vê são pessoas reféns das telas, dos vídeos, dos áudios, do mundo inteiro que cabe no celular e na palma da mão. É de se imaginar qual a relação ideal com a tecnologia, dados os excessos que se veem por aí. Inclusive os que atingem as crianças.
Depois de tantos avanços tecnológicos, alcançáveis com uns poucos cliques, muitas pessoas tornaram-se ansiosas, nervosas, neuróticas, adoecidas pela exposição excessiva ao universo digital. Chegou, portanto, o momento de lidar de maneira equilibrada com as redes, seja no âmbito do trabalho, seja no das relações pessoais. Passou o momento da ânsia de integrar-se ao digital e chegou a hora de equilibrá-lo com os muitos prazeres que a vida analógica oferece.
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