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André Pomponet
quinta-feira, 16 de abril de 2026 / Publicado em Colunistas, Destaques

O Ferry Boat na subida do Sobradinho

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Naquele tempo, na famosa subida do Sobradinho, havia pouco comércio. Predominavam as fachadas sisudas das antigas residências, algumas delas já desgastadas pelo tempo. O vaivém dos antigos ônibus sinalizava que a cidade se expandia em direção à periferia, mas não eram incomuns boiadas pisando os paralelepípedos azulados, com seu passo lento. Pastavam nas áreas baldias do bairro, que iam escasseando. Depois, subiam, mansas, tocadas por aboios.

No cruzamento, no alto da ladeira, bem no acesso ao estádio Joia da Princesa, pulsava o coração comercial do Sobradinho. Ali havia pequenas farmácias, uma fábrica de tubaína já extinta, supermercado, padaria, bares minúsculos, antigos, e o badalado Ferry Boat, um bar em formato de embarcação, que se destacava naquele tempo de edificações térreas e telhados acanhados. Hoje há, lá, um posto de combustíveis.

Na quina da calçada triangular do Ferry Boat, bem na bifurcação, instalou-se uma banca de jornais que, passando por donos diferentes, subsistiu por muito tempo. Era fascinante passar por lá e conferir, semanalmente, as novas publicações disponíveis, os jornais do dia empilhados à espera dos leitores. O cheiro de papel novo das revistas era inebriante.

Às vezes o Ferry Boat fechava e a pintura descascava-se, desfazia-se sob a ação do sol e das chuvas. A garotada aproveitava os muros baixos e, com um curto salto acrobático, ocupava os espaços largos, correndo pra lá e pra cá na balbúrdia típica da infância. À época as brincadeiras eram analógicas, os primeiros jogos eletrônicos só chegavam às mãos das crianças abastadas.

Mas durante parte do tempo o Ferry Boat funcionava à noite, nos finais de semana. De casa, era possível ouvir canções fragmentadas que o vento trazia. Não sei se pelo repertório ou pela ação do vento, o fato é que as músicas soavam como profundos lamentos soturnos. Sobretudo nos domingos à noite, quando reinava o silêncio denso que antecedia as manhãs de segunda-feira.

Raros automóveis passavam produzindo aquele ruído característico sobre o calçamento liso. A vizinhança, pacata, recolhia-se cedo. Rádios e aparelhos de tevê funcionavam no volume compatível com os hábitos vigentes. As canções que rolavam no Ferry Boat, então, irradiavam-se ao sabor do vento, subindo e baixando, esticando-se, encurtando-se, numa melancolia mortificante.

Durante muito tempo alimentei o desejo juvenil de saber quem cantava aquelas músicas que atiçavam a tristeza domingueira, mais intensa nos dias frios, quando uma névoa leitosa insinuava-se antes da madrugada. Lembrava, então, da aula na manhã seguinte e o mal-estar crescia, corrosivo.

Pensava que, um dia, de alguma maneira, exprimiria aquelas sensações. Pois aí vai o texto, inesperado, depois de tê-lo começado com a intenção de apresentar números que revelam como o Sobradinho se tornou um bairro de idosos ao longo dos anos…

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André Pomponet
André Pomponet
Economista pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2002), mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia (2012), exerce o jornalismo desde 1995, quando ingressou no extinto jornal Feira Hoje. Posteriormente, atuou em outros órgãos de comunicação e foi Chefe de Redação da Assessoria de Comunicação Social da Câmara Municipal de Feira de Santana.É colunista do Blog da Feira.
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