A campanha eleitoral na Bahia em 2026 vai ser marcada, em parte, pelas discussões sobre a Ponte Salvador-Itaparica. Prometido há quase duas décadas, o equipamento parece que se aproxima da fase de início das obras. Pelo menos é o que sinaliza a movimentação na Ilha de Itaparica, com a montagem de um canteiro. Montar canteiro, no entanto, não é garantia de que a ponte estará concluída no médio prazo, como se estima.
Na Bahia, as discussões sobre grandes intervenções logísticas costumam anteceder, em muito, o efetivo início das obras. Passeando pela Internet, descobri, por exemplo, uma pérola: um artigo no Jornal do Brasil de 5 de dezembro de 1928, tratando do “Esboço de um systema rodoviário na Bahia”. Publicado na página 13, o texto tinha um subtítulo esclarecedor: “Como o governo deste Estado procura resolver o importante problema”.
O texto defendia a adoção do modal rodoviário como alternativa às ferrovias, consideradas mais caras e de mais difícil execução: “É por isso que se nota um grande ‘afan’ em construir novas estradas ou adaptar as velhas picadas boiadeiras ao trânsito de automóveis, ligando-se todas umas com as outras”.
No habitual contexto de escassez de recursos, o governo estadual formulou uma pitoresca sugestão para implantar uma rede de rodovias na Bahia: “Os doutores Nélson Spínola Teixeira e Matta Barros concertaram um plano econômico de acção, no qual, dando-se aos municípios a execução dos trabalhos, deixam-se ao governo e ao seu corpo technico, a fiscalização e a orientação dos trabalhos”.
O artigo traz, também, a sugestão das rodovias que deveriam ser construídas: “Feira de Sant’Ana e Almas [Anguera]; Almas a Camisão [Ipirá]; Camisão a Baixa Grande; Baixa Grande a Monte Alegre [Mairi]; Monte Alegre a Jacobina; Baixa Grande a Mundo Novo; Mundo Novo a Morro do Chapéo; Baixa Grande a Capivary [Macajuba]; Capivary a Orobó [Ruy Barbosa]”.
No plano, não foi esquecida a rodovia entre a capital, Salvador, e Feira de Santana: “A estrada Bahia a Feira constitue o tronco natural do plano fixado. Feira de Sant’Anna é o grande centro rodoviário. Dali devem partir três grandes linhas mestras”. As linhas mestras ligariam a Bahia ao Nordeste, via Pernambuco e Ceará; ao Oeste [Centro-Oeste] e ao Sul [Sudeste].
Das linhas mestras, pelo menos uma das projeções não se consumou conforme o proposto: a do Oeste, passando por Camisão, Baixa Grande, Mundo Novo, Morro do Chapéo, Barra do Rio Grande, constituindo a grande artéria em demanda de Goyaz”. Como se sabe, a ligação com Goiás se deu com a construção da BR 242, mais ao Sul; a rodovia original proposta se transformou na rodovia BA 052, a conhecida Estrada do Feijão, sem ligação com o Centro-Oeste.
O artigo, à época, era muito otimista: “E tudo nos leva a crer que o plano será fielmente executado, pois, à frente delle encontram-se personalidades de grande valor e tenacidade, como os Drs. Nélson Spínola Teixeira e Matta Barros”. Como se sabe, não foi o que se verificou nas décadas seguintes.
O modelo de governança – a expressão não se usava à época – proposto pelos dirigentes não vingou. Paupérrimos, os municípios não arcaram com a incumbência, que se converteu mais tarde em atribuições dos governos estadual e federal. As obras, aliás, só foram se tornando realidade décadas depois da elaboração do ousado plano.
O episódio refresca a memória sobre como são custosas e demoradas as grandes intervenções logísticas. Sobretudo as que almejam transformações profundas, mudanças radicais. É óbvio que o futuro não necessariamente vai reproduzir o passado. Mas a Ponte Salvador-Itaparica – e a própria retomada do modal ferroviário que, esporadicamente, se anuncia – mostram que é bom resgatar o passado, que sempre traz lições lapidares. Justamente para evitar que o futuro repita o passado.
Ontem (09) aconteceu um debate entre candidatos a governador da Bahia, promovido pela Rede Bandeirantes. Como não podia deixar de ser, a Ponte Salvador-Itaparica foi mencionada nas discussões. Candidato a governador, ACM Neto (União) reconheceu a importância da iniciativa, direcionando suas críticas à demora na execução da obra; o governador Jerônimo Rodrigues (PT), obviamente, defendeu a obra e seu governo.
Como se viu, a necessidade da obra é consensual. Resta saber quando estará pronta. Lembra um pouco o episódio do antigo sistema rodoviário de há cerca de 100 anos…
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