Durante muito tempo fiz matérias da editoria de Geral. Por sua diversidade de temas, estas costumavam ser as mais desafiadoras, tanto no trabalho de apuração, quanto na redação do texto. Num dia, o repórter podia sair com uma pauta sobre um evento acadêmico e também cobrir uma manifestação qualquer, por exemplo. Ou a inauguração de uma obra, a falta d’água na periferia, a visita de uma personalidade qualquer e por aí vai. Enfim, uma amplitude de temas e situações que punha a cabeça quente enquanto se retornava para a redação.
Boa parte das pautas são protocolares: depois de um tempo vão para os escaninhos da memória e, de lá, nunca mais retornam. Algumas, porém, são marcantes, não apenas por teimar na lembrança, mas até mesmo por mudar a forma de se enxergar a vida. Passei por experiências singulares, desta gênero, algumas vezes.
Certa vez, no Subaé Notícias, da Subaé AM, um casal deu entrevista no começo da manhã. Solicitava atenção para o problema de saúde do filho. Subaé e o Jornal Feira Hoje integravam o Sistema Nordeste de Comunicação. Partilhavam-se, nos ambientes comuns das duas empresas, pautas, mas também amizades que se perpetuaram ao longo de décadas. E que, hoje, evocam boas lembranças.
Mas o fato é que saí com a pauta numa manhã escaldante, dessas de setembro ou outubro. Localizamos a residência humilde do casal no bairro Gabriela, num daqueles antigos conjuntos habitacionais, creio que o Alvorada. Depois de uma breve apresentação, eu e o fotógrafo Jorge Magalhães fomos convidados a entrar na sala acanhada, de poucos móveis.
O casal negro de pele escura tinha um filho jovem, portador de uma doença cujo nome nunca me saiu da cabeça: oligofrenia profunda. Vivia confinado num quartinho nos fundos da casa. Disseram que a agitação do rapaz era recorrente, o que testemunhamos. Fiquei com a impressão de que o rapaz entendia muito pouco do que se passava em torno.
Sem rancor, sem ódio, sem amargura, sem ressentimento – com uma serena grandeza que até hoje me espanta – o casal relatou seu calvário. As instituições psiquiátricas públicas da Feira de Santana não abrigavam o rapaz; a família vivia de um parco salário mínimo, absorvida pelos cuidados incessantes com o filho especial. “A gente não tem nem como comprar um leite para ele”, lamentou o pai, que para si não reivindicava nada: só algum amparo para o filho.
Lembro que, depois, ouvi um médico do então Hospital Colônia Lopes Rodrigues. Pelo que recordo, um portador de oligofrenia profunda não podia permanecer internado, convivendo com os demais pacientes. Hoje a Internet me ensina que a doença é “o grau mais severo de comprometimento do sistema mental e cognitivo”. Quem sofre dela, precisa de “assistência contínua e integral”.
Nunca esqueci daquela reportagem. Sobretudo, nunca esqueci da dignidade daquele casal sentado no sofá pobre, relatando suas agruras. Não percebi, em toda a conversa, uma palavra de revolta. Havia apenas aceitação, uma profunda aceitação, calculo que só possível nas mais sublimes relações de amor entre seres humanos. Na agitação da vida cotidiana, das pautas que se sucediam, não obtive mais informações sobre aquele casal e seu filho.
Quando fiz a matéria, era muito jovem, pouco mais que um garoto. Normalmente, os jovens confiam muito na vida, vivem inteiramente imersos na vida. Creio que era um pouco assim. Mas aquela experiência foi fundamental para começar a entender que, no fundo, a vida é só um sopro…
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