Em meados dos anos 1990 debutei no jornalismo policial no extinto Jornal Feira Hoje. Naquele tempo a cobertura se dava, sobretudo, nas ruas: era nelas que os fatos aconteciam e veículo de comunicação bem reputado precisava do flagrante fotográfico, da entrevista colhida no calor dos acontecimentos, dos detalhes que só a presença in loco oferecia. Aventurar-se pela editoria envolvia deslocamentos constantes, diários, pelos diversos ambientes policiais.
O Complexo Policial Investigador Bandeira, a 2ª Delegacia no Sobradinho, o Conjunto Penal de Feira de Santana, o Hospital Clériston Andrade, em todos estes ambientes as visitas eram praticamente diárias na virada do século. Isso para não mencionar os bolsões de pobreza e a imensa periferia feirense, onde eram recorrentes os episódios de violência. Nela, o fotógrafo flagrava o cadáver no chão, a cena de violência; o repórter colhia declarações da gente humilde, exposta ao crime.
É bom lembrar que, apesar da escalada contínua, havia muito menos homicídios que neste sangrento século XXI. Nas matérias, ouviam-se eventuais vítimas, testemunhas, os suspeitos, réus confessos e, claro, as autoridades policiais. Quando o fato despertava o interesse do leitor, reportagens posteriores acompanhavam os desdobramentos das investigações.
Em duas décadas a realidade mudou muito. Jornalismo policial virou coisa de gabinete: no máximo, ouve-se o delegado, às vezes a equipe envolvida. Redigem-se notas curtas, quase sempre com informações restritas ao boletim de ocorrência. Mesmo em casos escabrosos, que exigiriam uma apuração mais criteriosa. A mudança coincidiu, em parte, com o avanço vertiginoso das mídias digitais.
Os novos formatos impõem conteúdo mais curto, aderente às novas mídias? Ou foram os custos mais elevados da apuração criteriosa que levaram ao encurtamento das matérias, sem muitos detalhes? As indagações são pistas boas, que podem conduzir a debates interessantes. Mas não se trata só disso, infelizmente.
Creio que o fato mais relevante está nas sensíveis mudanças que aconteceram no ecossistema do crime. Avulsos ou organizados em quadrilhas precárias, pulverizados em espaços descontínuos, os bandidos estavam longe do nível de organização que alcançaram nas últimas décadas.
Hoje, Brasil afora, integram facções com territórios demarcados e com identidades muito nítidas, num sistema hierárquico que se tornou difícil de ser repelido pelos governos. Tornaram-se, pois ameaça à atividade jornalistica. A Lei de Abuso de Autoridade, de 2019, somou-se como obstáculo adicional.
No noticiário, é recorrente a constatação de que o crime impõe o horror às comunidades que habitam as áreas por ele controladas. É, indiscutivelmente, verdade. Mas o crime também conquistou um outro êxito, este raramente lembrado: o de, acuando o jornalismo policial e aumentando seus riscos, bloquear o acesso da sociedade a informações de interesse público.
É algo que raramente se discute, mas que figura no passivo do avanço do crime organizado no Brasil.
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