Calor e corrida eleitoral cansam
André Pomponet*
Faz já uns três anos que, exaustivamente, abordamos neste espaço a questão das mudanças climáticas. Mais ainda: do El Niño que, neste 2026, retornou à Europa com toda a força e, ao que tudo indica, será um dos mais severos já registrados. Na Feira de Santana fronteiriça ao sertão inóspito e que, ao mesmo tempo, margeia a Mata Atlântica e não fica distante do litoral, o calor já é descomunal neste fim de setembro. Lembra muito os terríveis anos de 2023 e 2024, bem recentes, mas que ficaram na memória pela intensidade de suas temperaturas.
A exemplo daqueles anos, sair ao meio-dia pela Feira de Santana tem sido exercício de resistência. Vê-se pouca gente pela rua: quem pode, se poupa, antecipa ou retarda a saída. Quem sai, esgueira-se pelas sombras escassas com o sol a pino ou recorre a providenciais guarda-sois, artigos que se tornaram comuns nos últimos anos, comercializados em todo lugar.
Este 2026, porém, traz uma diferença fundamental em relação aos anos anteriores: por aqui, no Brasil, é o momento de eleger o presidente da República. Não existe ocasião mais oportuna para se descobrir o que se pretende para o País, no médio e longo prazos, em relação às mudanças climáticas. Mas não, não pretendo contribuir para o debate.
Confesso que o calor provoca uma imensa letargia em relação a pesquisar, ler, entender, selecionar, explicar o que pretendem os candidatos à presidência sobre as mudanças climáticas. Um ou outro se compromete com alguma coisa, outros investem em platitudes e há quem seja positivamente negacionista. Quem lê vai perdoar quem escreve, mas se quiser detalhes, pode pesquisar por iniciativa própria. Na Feira de Santana, as temperaturas estão estafantes.
Mas não é só o calor que cansa. É também este clima eleitoral beligerante, com unhas afiadas e dentes cerrados. Qualquer frase dá margem a mil interpretações – muitas delas delirantes – e qualquer análise converte-se em rótulo, em amarra ideológica que define quem escreve de maneira irrevogável, incontornável e, sobretudo, imperdoável.
Em suma, atravessam-se dias atrozes. Sob a perspectiva de clima, resta a convicção de que, no curto prazo, nada vai mudar: as temperaturas seguirão elevadas, no mínimo até uma trégua incerta já em 2027. Sob a ótica das eleições, o que já não está uma maravilha pode piorar sensivelmente.
Então, é melhor encerrar por aqui e deixar quem lê livre para lidar com o calor à sua maneira e pensar um pouco mais sobre o que fazer diante das urnas no próximo domingo…
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