Arremato o carneiro cozido no Centro de Abastecimento e enveredo por ruas e quadras do Shopping Popular Cidade das Compras. Começo da tarde, sol a pino. Vias vazias de pedestres, um ou outro permissionário oferecendo bermuda, camiseta, mochila, sandália. Ao fim dos corredores, a luz intensa, estourada, e o calor apenas intuído. Afinal, o horizonte se dispersa na luminosidade trêmula.
Na passarela sobre a Olímpio Vital a claridade é tão perfeita que é possível ver as ranhuras nas montanhas que se projetam bem distantes, por detrás da Rua Nova. Nenhuma nuvem no céu: a amplidão feirense lembra – sei que a descrição vai se tornando enfadonha – cena de cinema.
Sobre a passarela, uma surpresa: vem gente de lá, do lado do Terminal Central. Duas meninas “farmando aura”, mais um cidadão que me examina, surpreso. Deve estranhar tanta atenção com as cercanias que se descortinam sob a passarela. Mais à frente, sobre um colchão imundo, repousa um desafortunado que improvisa moradia. Junto a ele, um cãozinho dócil, filhote, muito branco, abana a cauda. Aquele ainda não conhece as asperezas da vida nas ruas.
O letreiro luminoso do “088 – Uefs/Sobradinho” desafia o sol encandeante. Embarca-se nele, sob o calor senegalesco. O roteiro, então, reaviva antigas memórias que vão se desfazendo: a Avenida Canal ardente, o cruzamento congestionado no antigo Posto Moura, antigos e novos letreiros na Voluntários da Pátria e na Arivaldo de Carvalho, quase desertas de pedestres, mas impregnadas de recordações.
Uns poucos meses de distanciamento já produzem estranhamentos: um novo prédio surge aqui, uma obra recente desfaz a lembrança de um imóvel ali, negócios fecham, outros abrem, no vaivém do espaço urbano em permanente mutação. Logo depois do Colégio Assis Chateaubriand, a silhueta acinzentada do viaduto impressiona e produz mais estranhamento.
Mas estranho mesmo é o concreto cinza e o asfalto luzidio no trecho da Avenida Contorno, que conduz ao Cemitério São Jorge. Há 40 anos havia capim verdejante, poeiras superpostas, silêncios que só os roncos dos caminhões rompiam, cansados e aflitos. O muro branco substituiu a antiga cerca de arame farpado do Instituto Bíblico Batista do Nordeste há muitos anos.
Uma placa verde indicando o retorno para o Rio de Janeiro reativa a imaginação solta da infância, fantasias inesquecíveis de infinitas viagens que um dia se realizariam. Naquele tempo o sol também era forte, mas estava longe de matar a imaginação.
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