“…mesmo ganhando o salário [mínimo] não dá. Tem gás, tem água, tem energia, tem comida, comprar alimento mesmo. Aí como é que não vai pegar dinheiro emprestado?”.
Flagrei a conversa na manhã de domingo, a caminho da seção eleitoral. Quem explicava a situação era um sujeito que atravessava a Maria Quitéria empurrando uma bicicleta surrada. Saíra de uma rua estreita que conduzia à Queimadinha. Pardo escuro, barba por fazer, cabelo ficando grisalho. O interlocutor tinha perfil semelhante.
Quando atravessava a avenida, até me olhou desconfiado. Era visível que criticava o governo. Mas falava num tom neutro, de quem relata uma situação. Recordei das constantes reclamações que ouço pelas ruas sobre o preço da comida. Não apenas das refeições fora da casa, mas também dos alimentos preparados no lar.
Lembrei, então, do contorcionismo estatístico empregado pela campanha de Lula para afirmar que os preços da comida subiram bem menos do que na gestão de Jair Bolsonaro, o “mito”. É verdade. O problema é que as pessoas não comem comparações, nem números.
Claro que os preços subiram mais devagar nos últimos anos, mas os reajustes nos alimentos aconteceram sobre uma base extraordinariamente alta, legada pela pandemia, por guerras mundo afora e pela desastrosa gestão do “mito”. O povão, então, vive pressionado com o custo da comida, que sobe mais que a inflação geral.
Sem dúvida, isso teve impacto sobre o resultado das eleições presidenciais no primeiro turno. “Ah, mas no governo Bolsonaro era pior”, dirá alguém. É verdade também. Mas a média das pessoas vive o agora. As experiências pretéritas vão se diluindo com o passar do tempo.
Quando assumiu em 2023, Lula deveria ter apostado mais na agricultura familiar e na soberania alimentar. Preferiu fortalecer o agronegócio, achando que cairia nas graças do segmento. Não caiu. Assim, o país que tem áreas imensas para a agricultura, produz para exportação e não prioriza o plantio de alimentos que deveriam estar na mesa da população.
Enfim, o debate é complexo, amplo, e o espaço de um texto curto não permite aprofundamentos. Também não cobre todos os aspectos envolvidos em uma eleição. Mas é indiscutível que a carestia – como se dizia antigamente – influiu no resultados das eleições. Constates retalhos de conversas captados pelas ruas evidenciam isso.
A conferir se a campanha de Lula no segundo turno toma um novo rumo em relação ao tema.
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