Chico Magro tem um olho cego, usa óculos escuros, lentes pretas, uma mais clara, no olho são, vê pouco, só o vulto. Encandeia, traz visões, molduras de luzes, encorpa a voz. Mas ouve tudo, é um danado: conhece a passada e murmúrio de quem vem à distância, lá em Areias Alvas, e ele mora já defronte ao mar, onde os ventos são contrários. Mente um pouco, acho, também.E a cegueira? é verdade, cegou na salina, empurrando carro de mão, atulhado com cristais reluzentes . Aprendeu com Djonge a falar “cristais de sal”, gideão holandês que veio pregar na igreja do irmão, o que rompeu com o padre de Grossos e lhe pediu adjutório para fortalecer o negócio da fé e não se nega ajuda a um irmão, se nega? não, quanto mais de sangue. Pescou camarão de salina, peixe bom, e matou a fome do hóspede enquanto o estrangeiro lhe devolvia o rango em conversas e explicações meticulosas sobre coisas e pessoas, mais das vezes misturadas com a bíblia, as bíblias, já que ele carregava uma em holandês e outra em português de Portugal. Por isso Chico Magro fala pá, ora pois, me sabe bem, e aprecia fado, aprecia sim, mas a música já foi Marcos Porto quem lhe apresentou, o som da radiola no chão colorido do alpendre da casa em Gado Bravo, nas alturas.

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