Aconteceu há mais de uma década. Quando o corpo de Antônia de Ogum ia sair do terreiro para o Cemitério São Jorge, surgiu uma dúvida sobre o rito fúnebre a ser seguido dali por diante. O questionamento começou ao pé do caixão, onde estavam familiares consanguíneos, yalorixás, babalorixás, ogans, ekedis, o alabê da Casa e erês entrançando pelas pernas dos adultos. O burburinho dessa dúvida espalhou-se, como “pólvora de caboclo”, e logo toda aquela pequena multidão queria saber o que se passava que o caixão não saía para o bate-folha e o cortejo.
O terreiro não era uma roça grande, nem pequena, haviam espaços livres , algumas árvores e arbustos , camarinhas e salas na honrosa moradia de Dona Antônia. A mãe-de-santo tinha linhagem cachoeirana e uma enorme família, de sangue e da religião. O corpo, velado em uma das salas,o terreiro lotado de gente. Nem todos eram povo-de-santo, haviam vizinhos, populares, gente do bairro. A discussão litúrgica que havia lá dentro, nem todos entendíamos, nem todos ouvíamos o que discutiam aquelas vozes que cresciam dentro da casa.
Quando um súbito silêncio foi se fazendo, foi se sobressaindo somente aquela voz insistente, alta, nervosa e calma ao mesmo tempo, ecoando, assomando sobre as demais, falando sobre o lugar hierárquico da falecida, da obrigação de respeitá-la, da despedida, do adeus. Uma reza, um mantra e as outras vozes foram cessando e uma onda calma refez o ambiente e o féretro seguiu em paz.
A poucos metros do Cemitério São Jorge foi iniciada a ‘dança da hesitação’, da despedida do Aiyé e o avanço inevitável para o Orun. Um passo para a saudade, dois para o destino.
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