Em 1989 as eleições presidenciais ocorreram de forma isolada – só se votou para presidente – e muitos eleitores estavam em uma condição singular: tinham até mais de 40 anos, mas nunca haviam votado para presidente da República. Culpa da ditadura militar, que se estendeu por intermináveis 21 anos. Reinava um clima de engajamento cívico e, com quase 30 candidatos, sobravam opções.
Fernando Collor – o festejado “caçador de marajás” – prevaleceu sobre Lula no segundo turno. Quase três anos depois, em 1992, acabou deposto em um processo de impeachment. Naquela época a Guerra Fria degelava com a ruína soviética, mas havia o medo disseminado do comunismo. Lula, obviamente, encarnava esse comunismo.
Em 1994 Fernando Henrique Cardoso derrotou Lula sem grandes percalços, surfando na onda do Plano Real, que estabilizou a inflação, então crônico problema brasileiro. Quatro anos depois a economia andava de lado, mas mesmo assim FHC renovou o mandato, também no primeiro turno. Dizia-se que Lula, derrotado pela terceira vez, jamais chegaria à presidência.
Quatro anos depois, em 2002, Lula surpreendeu muita gente e se elegeu. Favoreceu-o seu discurso social, num País que afundava em graves problemas sociais. Em 2006 reelegeu-se, apesar de muitos apostarem que o escândalo do mensalão o abateria. Não abateu. Em 2010, Lula emplacou Dilma Rousseff na presidência da República.
O ano de 2010 marcou o começo da grave inflexão que mancha o Brasil recente. Embora ainda fosse o PSDB que duelava com o petismo, o discurso de extrema-direita ganhava força. Quatro anos depois Dilma Rousseff se reelegeu num País cindido, com questionamentos ao resultado das eleições. Dois anos depois, foi deposta num processo de impeachment.
O cenário caótico favoreceu a eleição de Jair Bolsonaro, o “mito” em 2018. Era a extrema-direita, sem subterfúgios, chegando ao poder. Veio o horror e, com ele, temperando-o, a pandemia da Covid-19, com seus 700 mil mortos. Dúvidas pesadas pairaram sobre as eleições presidenciais de 2022, mas, nela, Lula prevaleceu de novo. Logo em seguida, no começo de 2023, veio a tentativa de golpe de Estado.
Nas eleições de 2026 as tensões seguem aí na praça, com um sensível agravante externo: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que dissemina guerras, recorre a manobras sujas e gera instabilidades mundo afora. Sob aparente calmaria, a campanha eleitoral no Brasil prossegue carregada de incertezas. Afinal, Trump já mete o bedelho aqui descaradamente e, caso perca, a extrema-direita tende a contestar o resultado das eleições.
Neste 2026 o Brasil comemora a décima eleição presidencial desde o fim da ditadura. Por um lado, é um marco democrático, nunca vivido anteriormente pelos brasileiros. Por outro lado, as ameaças à democracia seguem vivas. Afinal, vivemos em 2023 até tentativa de golpe. No curto prazo, a possibilidade de nova intentona não pode ser descartada.
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