Para as tristezas da vida,
Trabalho é o grande remédio.
Quem com tédio mata o tempo,
O tempo mata de tédio.
Essa quadra é atribuída a Cristovam Barreto por Chico Xavier em um livro, de 1960, somente com poemas psicografados de diversos autores. No Museu do Ipiranga, em São Paulo, há peças arqueológicas brasileiras adquiridas pelo seu primeiro diretor, o cientista Hermann von Ihering através do baiano Cristovam, que as encontrou na região de Feira e Amargosa, onde morreu em 1905. Por essas duas aparições de Cristovam Barreto na história brasileira já dá pra perceber que foi um homem profundamente visível no seu tempo e mesmo depois dele.
Mas foi também, na advocacia, um autodidata habilidoso. Tinha anúncios nos jornais e escritório fixo. No jornalismo era um Redator fluente e sempre disposto ao trabalho cujos métodos na época eram acusados frequentemente, como ainda hoje ocorre, de vendidos. Quando morreu editava o “Jornal de Amargosa” depois de colaborar em jornais feirenses.
Há poucos registros impressos de Cristovam e sobre ele. E teria publicado apenas um livro, “Prendas e Prebendas”, com “versos satíricos”. É livro raro. Existe um exemplar, sob a guarda rigorosa da Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo. E há outro no acervo do historiador Carlos Mello que o guarda a “sete chaves” mas pretende fazer uma reedição, em breve.

Mas há uma referência muito curiosa e instigante, ao poeta e jornalista feirense, no texto da ata de inauguração da Biblioteca Municipal, em 1890, dois anos após a implantação da República, registrando sua ausência, fato incomum em documentos protocolares da época, principalmente da maneira como foi evidenciada. Esse documento foi republicado, em 2020, pela Fundação Senhor dos Passos. Depois de uma sequência de nomes presentes àquele ato de enorme distinção, de “auctoridades judiciaes e policiaes“, da professora da freguezia de São José das Itapororocas, Leolinda Bacelar, conselheiros, o intendente Freire, Joaquim Remédios de Monteiro e outros, foi registrado a presença “de todos os empregados municipaes, à excepção do collaborador Christovão Barreto”. Há uma outra ausência na mesma ata, mas justificada, “por moléstia“, de Joaquim de Melo Sampaio.
Foi uma queimação do secretário do Conselho que redigiu e assinou a ata junto com os outros? É o mais provável. De todo modo, sendo “queimação” ou uma estranha maneira de destacar uma pessoa, revela sua notável presença na vida social e no círculo do poder da cidade no Império e início da República.
Hoje em Feira não há quem não tenha ouvido falar nesse nome. Na nossa época Cristóvão Barreto também faz parte do cotidiano. Está no roteiro de milhares de pessoas. Não pela história dele, a sua produção intelectual ou relação com a cidade, isso carece ainda de mais luz. Mas porque a Cristóvão Barreto é uma rua, em linha reta, com quase 1,5km de comprimento, que começa na avenida Senhor dos Passos, atravessa a Brasília, parte da Serraria Brasil e topa na avenida Presidente Dutra.
Difícil viver na Feira e não saber da Cristóvão Barreto. Sem contar que um trecho dela chamou-se, folcloricamente, Rua do Pilão Sem Tampa e que nela tem residência, há cerca de 50 anos, o prefeito de Feira, em quinto mandato, José Ronaldo de Carvalho, que o povo chama de Zé Ronaldo.

