A Igreja domina o distrito de Bonfim de Feira a partir do alto do morro. Em volta, o quadrilátero da praça silenciosa com seus cães vadios, seus aposentados à porta, seus casarões de fachadas antigas, alguns deles já em ruínas. Para além do casario, mais silêncio em morros e colinas curtos, cercas, currais, chiqueiros e pastos desertos. Desafiando o silêncio, às vezes uma motocicleta ruidosa atravessa a praça, espantando as aves nas árvores.
No templo consagrado a Senhor do Bonfim predomina o frescor quando as janelas estão abertas, mesmo com o sol impiedoso a pino. A luz é intensa e a pintura clara das paredes reforça a sensação de bem-estar. Por toda a igreja altares, imagens e quadros mergulham o visitante na atmosfera católica.
Uma obra, particularmente, captura a atenção e deslumbra o visitante: um painel de azulejos à esquerda, logo na entrada do templo. Painel bonito, azul e branco, característico da obra de quem o assina, caso alguém tenha interesse em pesquisar: o azulejista e ceramista Horst Udo Enrich Knoff, nascido na Alemanha em 1912 e baiano por adoção desde quando desembarcou em Salvador, em 1952.
A cena nos azulejos retrata o batismo de Jesus Cristo por João Batista nas águas do Rio Jordão. Acima, na parte superior central, está a representação do Espírito Santo, uma pomba com raios de luz, na forma de uma escultura em madeira e cerâmica em relevo, que simboliza a presença da Santíssima Trindade no batismo. O painel, aliás, fica junto à pia batismal.
Leigo, consulto a Inteligência Artificial que me ensina: “o painel é cercado por uma suntuosa moldura barroca em tons de azul e branco, ricamente decorada com volutas, espirais e motivos florais inspirados na azulejaria tradicional portuguesa do século XVIII”.
Na parte inferior central, em uma medalha de azulejo, há a inscrição: “Comissão da Festa/Senhor do Bonfim/1980”. Também na parte inferior do painel, mas à direita, consta a assinatura original do artista: “Udo/Salvador/Bahia/1981”.
Udo Knoff é da geração de artistas estrangeiros que, chegando à Bahia, encantaram-se com Salvador e permaneceram na cidade ao longo de suas vidas. Sua contribuição à memória e à preservação da azulejaria na Bahia é amplamente reconhecida. Seu maior legado ao estado foi o museu inaugurado em 1994, no Pelourinho.
Dispor de um painel do artista em um dos seus distritos rurais é um privilégio para a Feira de Santana. Pena que a obra seja pouco conhecida e, menos ainda, visitada pelos feirenses.
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