Feira segue esquentando com o El Niño
André Pomponet
Mesmo com o céu encoberto por nuvens encardidas, a Feira de Santana seguiu sob calor intenso nos últimos dias. “Mormaço”, como se diz popularmente. Apesar do desconforto, não deixa de ser um alento quando se compara aos dias anteriores, quando as temperaturas máximas se aproximaram com muita frequência dos 40º centígrados. Sem nuvens, com o céu imaculadamente azul, viam-se poucas passantes ao meio-dia e no começo da tarde, quando o calor é mais severo.
Noto que, com frequência crescente, abordo o calor e as questões climáticas neste espaço. Falta de assunto? Não, longe disso. Confesso que não paro de me espantar com a rápida elevação da temperatura e com a constância de dias particularmente quentes. Recordo que, décadas atrás, dias de calor intenso eram mais raros e, quase sempre, precediam as trovoadas. Hoje as temperaturas elevadas são corriqueiras.
Há exatos 10 anos a Feira de Santana sofreu com um El Niño particularmente rigoroso. Na ocasião, cogitei a possibilidade de o calor influir nos hábitos das pessoas: desde então, guarda-sóis tornaram-se artigos corriqueiros, protegendo do calor intenso; aventurar-se pelas ruas só nos momentos de sol menos intenso, até a metade da manhã e no fim da tarde; e a hidratação tornou-se preocupação constante.
Creio que a especulação da época se confirmou: de fato, mais frequente, o calor mudou os hábitos dos feirenses. Sobretudo porque, nesta década que caminha para o final, a elevação da temperatura se tornou comum. Os anos de 2023 e 2024, por exemplo, foram terríveis. Apenas dois anos depois o fenômeno se repete, com amplos efeitos sobre a vida das pessoas.
Fico imaginando quando os governantes vão tomar medidas efetivas para mitigar os efeitos das mudanças climáticas. As eleições presidenciais são uma boa oportunidade para apresentação de propostas, mas quase não se tocou no assunto. Em nível subnacional – estados e municípios – o debate também é nulo, salvo as honrosas exceções de praxe.
Até aqui também não se vê a sociedade cobrando, exigindo políticas. Imagino que o cenário só vai mudar quando as consequências se tornarem mais claras, com desdobramentos mais intensos sobre a saúde humana, a segurança alimentar, desastres climáticos e até a migração.
O semiárido nordestino, por exemplo, está bem exposto ao risco de migrações em massa, num futuro talvez nem tão distante…
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