No dia 19 de dezembro de 1957 o Jornal do Brasil estampou na página dois do seu terceiro caderno uma entrevista com a deputada federal Nita Costa. Em maiúsculas, o título da matéria era uma frase da deputada: “Nasci numa região onde a luta pela sobrevivência é a única coisa que conta”. O texto, assinado pela jornalista Myriam S. Bessa, destacava que a parlamentar – no exercício do que seria seu primeiro e único mandato – credenciava-se a disputar uma vaga na Secretaria da Mesa da Câmara dos Deputados por sua atuação.
“Nasci no sertão – sou filha de Feira de Santana, a feira e o município mais famosos da Bahia”, revelou a parlamentar na entrevista. Nita Costa nasceu Leolina Barbosa de Souza Costa, foi uma das fundadoras do então Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) no estado e foi também a primeira deputada federal eleita pela Bahia. A entrevista reúne uma sucessão de frases contundentes da parlamentar.
“Embora pouca gente aqui no Rio saiba disso, um grande trecho da Bahia está compreendida na zona do nordeste assolada pelo flagelo das secas”. O relato segue, cru, seco: “Eu era menina, então, mas lembro-me ao vivo de como minha avó entregava-se com ardor ao serviço de assistência aos flagelados”. Mais: “Eram centenas e centenas de pessoas, na mais extrema miséria, que iam bater na fazenda onde morávamos em busca de alimentos, remédios ou qualquer outra forma de auxílio”.
Na sequência, a deputada observa que autores como “José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos (…) já mostraram os horrores dessa calamidade”. Mas acrescentou: “Basta dizer que, quando findava uma seca mais atroz, os recursos da minha família eram quase nulos”.
Provavelmente a convivência com o cenário aguçou suas inclinações políticas. Adiante, Nita Costa fala mais: “Nascida e criada nessa atmosfera de miséria e de caridade, senti desde cedo o desejo de me dedicar ao próximo. A assistência social me atraía e seu chamado era mais forte que todos os preconceitos da época”.
No fim do texto, há uma sequência de perguntas e respostas. Uma delas, sobre o papel da mulher no mundo contemporâneo (à época, 1957) chama a atenção: “Mais do que nunca, o de colaboradora do homem na tarefa de reestruturação e desenvolvimento da sociedade”.
A deputada também foi indagada a respeito da apresentação de uma reforma sobre os direitos da mulher. A resposta: “Estou estudando o assunto, auxiliada por uma equipe de mulheres lúcidas, inteligentes e cultas. A reforma só poderá vingar com esse tipo de colaboração, uma vez que se trata de assunto delicado, complexo, muito discutido e de interesse de todas as classes sociais”.
Nita Costa foi desbravadora. Além dela, só três mulheres exerceram mandato na Câmara dos Deputados até então: a pioneira, Carlota Queiroz, eleita na década de 1930, ela própria, e duas figuras de grande destaque na História do Brasil: Ivete Vargas, filha do ex-presidente Getúlio Vargas e a bióloga Bertha Lutz.
Nascida em 7 de novembro de 1907, faleceu ainda jovem, em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, em 7 de março de 1963.
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